Matérias » Personagem

Cassandra Rios: a "escritora maldita" da ditadura militar brasileira

A primeira autora do país a falar sobre o universo homossexual feminino virou símbolo de resistência e teve 36 livros censurados de 50 publicados

Victória Gearini Publicado em 08/11/2019, às 16h00 - Atualizado às 17h00

Cassandra Rios indo prestar no DOPS
Cassandra Rios indo prestar no DOPS - Vermelho.org

Cassandra Rios foi a escritora brasileira mais perseguida pelo regime militar (1964 - 1985). Ao todo foram 36 livros censurados de 50 que já foram publicados ao longo de sua vida. No entanto chegou a vender mais de um milhão de exemplares, superando grandes nomes da literatura nacional, como Jorge Amado, Clarice Lispector e Érico Veríssimo.

Nascida em 1932, Odete Rios criou o pseudônimo de Cassandra Rios — referência à sacerdotisa da mitologia grega que profetizou a Guerra de Troia — e publicou seu primeiro livro em 1948, aos 16 anos. Chamada de A Volúpia do Pecado, a narrativa contava uma história de amor entre duas adolescentes.

Cassandra foi à primeira escritora no país a escrever romances eróticos voltados ao universo homossexual feminino. Para o professor da Universidade Estadual de Londrina, Rodolfo Londero este foi o principal motivo pelas censuras.

Odete Rios, mais conhecida pelo pseudônimo de Cassandra Rios / Crédito: Vânia Toledo

 

"Cassandra Rios incomodou os militares por várias razões. A principal delas é o conteúdo erótico de seus livros, contrário a 'moral e aos bons costumes', como se dizia na época", explica Rodolfo Londero em entrevista à BBC.

Ao longo de sua vida, ela chegou afirmar em uma entrevista que "a sociedade rotula o homossexual como cachaça de macumba, não como uísque". Embora tenha sido duramente perseguida nesse período, em 1970 se tornou a escritora brasileira a vender mais de um milhão de exemplares, superando Jorge Amado, Clarice Lispector e Érico Veríssimo.

Ficha do DOPS / Crédito: Divulgação/BBC

 

"No final, a própria censura ajudou a transformá-la em um mito. Mais que um xingamento, a fama de 'escritora maldita' se transformou em um rótulo lucrativo para as editoras", conta Rodolfo Londero à BBC.

Com a perseguição, Cassandra foi à falência, em 1976 — ano que 14 de suas obras foram censuradas em um período de seis meses — pois diversos de seus livros foram retirados de livrarias. Ainda hoje em dia é impossível encontrar com facilidade todas as suas 50 obras.

[Colocar ALT]
Cassandra Rios indo prestar depoimento / Crédito: Vermelho.org

Liz Rios, sobrinha da escritora disse em entrevista à BBC que sua tia ficou muito arrasada na época e que constantemente era interrogada no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social).

"Engraçado que com o pseudônimo masculino, a tia Odete conseguia passar pela censura e vender os livros, igualmente eróticos. Isso comprova que a perseguição era contra a pessoa Cassandra, e não só contra sua literatura", afirma Liz à BBC.

Diversos de seus livros foram confiscados e queimados. Em uma entrevista à revista Realidade, em 1970, Cassandra declarou que a promulgação do AI-5 teve impacto direto em sua vida pessoal e profissional. "Sou uma criatura simples, comum, cheia de problemas, triste e amarga. A vida de escritora tem sido muito dura para mim", disse à mídia na época.

Rodolfo Londero disse ainda à BBC que questões sobre liberdade sexual eram perseguidas pelos militares. “Aos olhos da ditadura, editoras que publicavam qualquer coisa sobre a temática de sexualidade eram verdadeiras inimigas do Estado por serem promotoras da revolução sexual entre os brasileiros, sendo consideradas pelos militares ainda mais perigosas que a própria revolução socialista".

Considerada pioneira em temas ligados ao público LGBT, a escritora se assumiu lésbica abertamente ainda jovem. Cassandra Rios veio a falecer em 2002 em decorrência de um câncer, aos 69 anos, mas ainda hoje é símbolo de resistência na literatura nacional.


Saiba mais sobre as obras de Cassandra Rios:

1. As traças (2005) - https://amzn.to/2PVUMH7

2. Crime de Honra (2005) - https://amzn.to/2CpALAY

3. Eu sou uma lésbica (2019) - https://amzn.to/34G7RIG

4. Uma mulher diferente (2005) - https://amzn.to/2pQIntw

Vale lembrar que os preços e a quantidade disponível dos produtos condizem com os da data da publicação deste post. Além disso, assinantes Amazon Prime recebem os produtos com mais rapidez e frete grátis, e a revista Aventuras na História pode ganhar uma parcela das vendas ou outro tipo de compensação pelos links nesta página.