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Castelinho da Rua Apa: Morte, mistério e conspiração na Era Vargas

Estamos cercados de escuridão e os únicos fantasmas no Castelinho da Apa estão adormecidos nos porões da ditadura

M. R. Terci Publicado em 03/10/2019, às 17h00

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- Reprodução

Construído em 1912 por mão humana e, como todas as habitações do homem antigo, uma habitação corruptível e frágil, edificada sobre um outeiro isolado da metrópole moderna. A configuração de suas torres é quadrangular, com uma pequena escada saliente para a porta de ferro que introduz ao vestíbulo circular sob o torreão frontal.  A partir deste ponto, eu serei vosso guia pelos cômodos escuros e suas desairosas histórias.

O pavilhão térreo. Bem aqui, três membros de uma das mais abastadas e tradicionais famílias paulistanas foram encontrados mortos em circunstâncias misteriosas, dignas de uma trama de detetive noir.

Os corpos dos irmãos Reis, Álvaro e Armando, foram achados um ao lado do outro e um pouco mais à frente, no hall junto à escada, o cadáver de Dona Candinha, alvejado por quatro disparos, sendo dois nas costas e mais dois na região do peito. O delegado de plantão na delegacia central veio a chamado da governanta da casa que ouviu os disparos da edícula anexa.

O diligente paladino encontrou uma pistola alemã Mauser, calibre 9 milímetros jogada no chão e em apenas dois dias, apresentava a conclusão do caso, a partir de uma investigação criminal malconduzida em um dos períodos mais autoritários do país, O Estado Novo de Getúlio Vargas.

O Castelinho / Crédito: Reprodução

 

Divergentes desde o princípio, o perito criminal e o médico legista apresentavam versões diferentes para os crimes; o primeiro concluiu que Álvaro, utilizando de sua própria arma, matou seu irmão, sua genitora e depois cometeu suicídio, disparando duas vezes contra o próprio coração.

O segundo asseverava que Armando, que tinha vestígios de pólvora na mão, assassinou seu irmão e em seguida sua mãe, praticando suicídio com um único disparo na têmpora. Dois dos disparos que atingiram Dona Candinha partiram da pistola alemã registrada em nome do filho Álvaro, enquanto os outros dois foram efetuados por outra arma, não localizada na cena do crime.

Não cometeríamos nenhuma leviandade ou estaríamos nos excedendo na suposição de que os resíduos de pólvora nas mãos de Armando seriam decorrentes de uma tentativa de defesa contra o assassino de sua mãe e de seu irmão, antes de ser atingido pelos disparos que o levaram à morte.

Tampouco avançaríamos longe pelas veredas da imaginação ao julgar os irmãos, Álvaro e Armando Reis, não como suspeitos de homicídio, mas como advogados bem-conceituados e respeitados pela sociedade paulistana, comprometidos, à época, com movimentos políticos contra Getúlio.

Todavia, ao final do inquérito policial, o delegado responsável apontou Álvaro Reis como autor do duplo homicídio, seguido de suicídio.

Aqui, a imagem em preto e branco dos corpos caídos sobre o chão marmóreo da sala de jantar evanesce, a cena muda de quadro, a copa, a cozinha e dependências de serviço são alinhadas segundo um eixo longitudinal. É então da janela lateral que nos apercebemos dos parentes discutindo o destino do imóvel à frente da varanda. Sucederam grandes batalhas judiciais pelos direitos ao grande patrimônio da família Reis, mas o que dizem mesmo sobre a pena ser mais forte que a espada?

A luz se rarefaz, podeis ver ao fundo negro da tela a mão do próprio presidente Vargas, assinado um decreto-lei que excluía os sobrinhos como herdeiros legais de Dona Candinha e tornava o prédio patrimônio da União.

A ONG Clube de Mães do Brasil cuida muito bem deste lugar, realizando, desde 1993, atividades de formação profissional e inclusão social de moradores de rua na região. Dona Candinha, teria gostado disso.

Em 2015, a Secretaria Estadual da Justiça e da Defesa da Cidadania e o Fundo Estadual de Defesa dos Interesses Difusos assinaram um convênio para restauração do edifício e o resultado hoje salta à vista de todos.

Mas documentos e fotos da família foram parar em diversos sites na internet, e frequentemente associam o desairoso episódio a supostas histórias de terror envolvendo o Castelinho e aparições fantasmagóricas. Pouco tempo atrás, essa boataria chegou ao conhecimento da produção do programa Ghost Hunters do norte-americano SyFy Channel. Esses senhores, em especial, foram excessivamente irritantes.

Estamos cercados de escuridão e os únicos fantasmas no Castelinho da Apa estão adormecidos nos porões da ditadura. Eu, ávido da verdade, quiçá encontre na imaginação, que viriliza o coração gasto de pensamentos, um caminho para fora do escuro.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.