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Castrati: Quando meninos eram castrados pela Igreja Católica

Na Itália, entre os séculos 16 e 18, garotos eram mutilados para que atingissem extensões vocais femininas ao cantarem em grandes óperas religiosas

Isabela Barreiros Publicado em 21/01/2020, às 18h34

Garotos cantando no coro da Igreja de Nova York em 1937
Garotos cantando no coro da Igreja de Nova York em 1937 - Getty Images

Na Igreja Católica, a lei oficial estabelecia que a amputação — de qualquer órgão — era ilegal. As exceções eram apenas para os procedimentos indispensáveis para salvar uma vida. No entanto, uma proibição feita pelo Papa Sisto V, no século 16, fez com que essa determinação não fosse seguida à risca pela instituição.

O pontífice baniu mulheres de cantarem em público. O impedimento causou problemas, principalmente, nas óperas religiosas realizadas na Itália naquela época. Como o coro continuaria tendo vozes mais finas se as moças não poderiam participar e os meninos, quando cresciam, deixavam de ter tais extensões vocais? A solução encontrada foi drástica.

Para enfrentar tal problema, garotos passaram a ser castrados a fim de manter uma voz mais fina. Antes da adolescência e da puberdade, mais ou menos aos seus 10 ou 11 anos, eles eram obrigados a passar por tal procedimento. Levando em conta as possibilidades científicas da época, a mutilação poderia leva-los à morte.

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Carlo Scalzi, um famoso castrati / Crédito: Wikimedia Commons

A técnica, porém, não era novidade. Em civilizações antigas, era comum castrar os homens — ou seja, remover o pênis. Os eunucos, como ficaram conhecidos, possuíam funções específicas em cada civilização. Territórios como China, Oriente Médio e até a Europa já haviam utilizado a prática em diferentes períodos.

Mas foi entre os séculos 16 e 18, na Itália, que ato atingiu seu ápice. Acredita-se que, naquela época, pelo menos quatro mil meninos foram castrados para esse fim.

Por ser um procedimento ilegal dentro da Igreja, não é possível determinar o número exato tanto de pessoas que passaram por isso quanto das que morreram em decorrência da cirurgia. Outro problema é que isso acontecia, geralmente, em cirurgiões clandestinos, que poderiam utilizar ópio como sedativo.

O método de preservar a voz dos meninos fazia com que os hormônios sexuais não conseguissem chegar à corrente sanguínea. Isso poderia causar transtornos para eles no crescimento. Os garotos provavelmente seriam mais baixos e alguns até mesmo tinham uma deformação causada pelo crescimento dos braços e das pernas em detrimento do tronco. A barba também não poderia ser desenvolvida e muitos tiveram osteoporose.

As cordas vocais cresciam minimamente, mas o peito e o diafragma seguiam seu curso normal de desenvolvimento. Assim, a voz poderia atingir um nível diferenciado, sendo distinta tanto do som normal dos garotos quanto das mulheres.

Pode-se questionar os motivos que levaram os pais desses jovens a deixar que a Igreja os mutilassem de tal maneira. Muitos desses meninos eram órfãos, ou ainda vindos de famílias muito pobres que viam na instituição uma oportunidade de sobrevivência aos seus filhos. Sem a possibilidade de cria-los, pais entregavam as crianças a conservatórios a fim de que eles pudessem praticar o canto.

Alessandro Moreschi, o último castrati / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em 1870, o procedimento da castração para o canto foi proibido na Itália, mas alguns casos isolados ainda passaram a acontecer principalmente nas óperas das igrejas. Mas em 1902, Leão XIII encerrou a prática, e em 1913, o último castrato deixou o coro da Capela Sistina (seu nome era Alessandro Moreschi).


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