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Um jovem na Guerra: Celso Furtado antes de se tornar um dos maiores intelectuais do Brasil

O jovem oficial viria a ser o grande economista que pensou o desenvolvimentismo brasileiro

Texto Ricardo Lobato Publicado em 01/11/2020, às 21h01

Celso Furtado em imagem
Celso Furtado em imagem - Wikimedia Commons

A escuridão era praticamente absoluta, entretanto, no imaginário daquele jovem oficial
brasileiro havia um certo romantismo na penumbra de Florença. Por conta do blecaute imposto pelas duras condições da guerra, era como se toda a cidade estivesse de volta à Idade Média, a um tempo anterior ao Renascimento.

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O jovem Celso /Crédito: Divulgação

Ao andar por suas ruas, as mesmas pelas quais passaram Dante,Michelangelo, Da Vinci,Maquiavel, entre tantos outros, Celso maravilhava-se com a paisagem do lugar. Mesmo em meio às trevas da guerra, a capital florentina, terra de pensadores e papas, lar de banqueiros e intelectuais, tinha um charme único.

Não era uma coincidência a cidade ser o berço das luzes do humanismo renascentista. Depois de períodos sombrios, há a luminescência e, como tantos outros, aquele conflito estava chegando ao seu fim. Depois viria a reconstrução e as luzes de um novo tempo.

Tudo seria diferente para a Europa, para o Brasil e para ele. A guerra fora o fim de um ciclo pessoal na vida do tenente de Infantaria R2 Furtado. Seus dias no Velho Mundo o inspiraram a ir além, a lançar um olhar ao passado para poder compreender e, quem sabe, escrever o futuro. O oficial descobria o economista.

Nascido em Pombal, no sertão paraibano, Celso Furtado teve no front italiano um divisor de águas em sua vida. Como muitos dos grandes personagens do século 20, a Segunda Guerra Mundial fez parte de sua mocidade.

Já era advogado formado na Faculdade Nacional de Direito (hoje parte da UFRJ) e concursado como técnico em administração do estado do Rio de Janeiro, quando, em outubro de 1944, concluiu o Curso de Formação de Oficiais da Reserva no CPOR/RJ.

O Brasil encontrava-se às voltas com a mobilização de sua Força Expedicionária e o então Aspirante a Oficial de Infantaria foi convocado para compor o corpo expedicionário. Como era fluente em inglês, o Estado-Maior do Exército o colocou à disposição da Missão Militar dos EUA no Rio de Janeiro. Pelo resto da guerra, seria oficial de ligação brasileiro com os militares norte-americanos.

Em fevereiro de 1945, no último dos cinco contingentes brasileiros enviados para a Itália, desembarcou no porto de Nápoles. Ali começava a sua Segunda Guerra. A vitória Aliada já era praticamente certa, a Alemanha encontrava-se cercada e não demoraria muito para que as forças ainda leais a Mussolini capitulassem.

Todavia, isso não fazia do teatro de operações italiano menos perigoso. Como oficial de ligação com o 5º Exército dos Estados Unidos – a qual a FEB estava subordinada – era o responsável por “dirigir comboios”, a condução da tropa em zonas conflagradas, função de grande responsabilidade e raramente confiada a brasileiros.

Mesmo não tendo se envolvido diretamente em nenhum combate, viu por diversas vezes a morte de perto. Suas observações dos momentos finais da guerra, rascunhadas em um caderno com os dizeres “Correspondência da Itália”, ou em cartões-postais enviados à sua família e a amigos no Brasil, são um misto de relatos na forma de contos, análises atentas aos comportamentos econômicos e sociais e experiências pessoais.

Descreve a mistura de cansaço e alívio dos prisioneiros alemães, sentimentos aparentemente antagônicos, mas que traduziam o contraste entre o orgulho ferido e a alegria de terem sobrevivido a uma guerra que sabiam não ter condições de vencer.

Discorre sobre as tropas Aliadas, a heterogeneidade das forças que combatiam no Mediterrâneo e como a segregação racial nas forças norte-americanas diferenciava-se da FEB. Há anotações sobre as razões que levaram ao conflito.

A sociedade italiana, o fascismo, todo aquele universo traduzido em palavras em seu caderno. Algumas rabiscadas, outras borradas, escritas no meio de bombardeios ou sob uma rajada de MG42, carinhosamente apelidada de “Lurdinha” pelos brasileiros, tudo o que via, o que pensava, o que presenciava era documentado.

Nas dispensas que recebia, aproveitava para “levantar uma tocha”, jargão aprendido com os norteamericanos que significava uma escapada, um momento de lazer longe do combate. Foi em uma dessas “tochas” que conheceu a magnífica Florença, mas não só.

Durante os combates era perigoso ir além da Toscana. Os alemães haviam se entrincheirado na Linha Gótica, uma de suas últimas grandes defesas, mas com o fim da guerra, em 8 de maio de 1945, as tropas receberam permissão de ir mais além.

Antes de embarcar de volta para o Brasil, seguiram-se “tochas” até Roma, Milão, Veneza e, finalmente, Paris. De volta a Nápoles, pouco antes de embarcar para o Brasil, conseguiu sua última folga e, juntamente com outros colegas, fizeram uma “tocha” até a Cidade Luz.

O mais difícil foi conseguir o combustível, pois com o racionamento do final da guerra – algo que acompanharia a Europa por um bom tempo – precisavam do suficiente para ir e para voltar a tempo de pegar o navio.

Foi em Paris onde percebeu que todo o gosto por literatura, algo que manifestava desde menino em Pombal, junto à experiência como funcionário público no Brasil e agora com tudo o que vivenciara na Itália, tinha um significado a mais.

Mesmo sendo formado em Direito e com um emprego estável em casa, era ali que deveria seguir. Seu novo caminho seria no berço do Iluminismo, onde concluiria sua formação – dessa vez, em Economia.

E foi no doutorado, na França, onde desenvolveu o embrião de sua obra mais conhecida, Formação Econômica do Brasil. Percebera que somente por meio de uma compreensão de sociedade e de economia poderia contribuir com o desenvolvimento brasileiro. Era evidente o potencial de seu país de origem.

A Europa do pós-guerra iria reconstruir-se, como fizera tantas vezes, se desenvolvendo ainda mais. Então, por que também o Brasil, em um novo mundo, não poderia ir além?

Os dias a bordo do navio de transporte de tropas que o trouxe de volta para casa foram de profunda reflexão. O rapaz que partira para a guerra retornava um homem amadurecido.

Muito havia sido feito e aprendido na Itália, mas não era o fim. Era o começo. O jovem oficial, o “intelectual de ação”, viria a ser o grande economista que pensou o desenvolvimentismo brasileiro.


Ricardo Lobato é Sociólogo e Mestre em economia pela UNB, Oficial da Reserva do Exército brasileiro e Consultor-chefe de Política e estratégia da Equibrium – Consultoria, Assessoria e Pesquisa. 

**A seção Coluna não reflete, necessariamente, a opinião da Aventuras na História