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Cercados por tubarões durante quatro dias: os tristes relatos dos sobreviventes do USS Indianapolis

O naufrágio do navio americano durou apenas 12 minutos. Depois disso, a tripulação passou frio, calor, engoliu óleo e teve que fugir de tubarões famintos

Pamela Malva Publicado em 13/02/2020, às 17h31 - Atualizado às 17h32

A tripulação do USS Indianapolis em 1932
A tripulação do USS Indianapolis em 1932 - Getty Images

Para aqueles que assistiram Titanic, um naufrágio pode parecer bastante desesperador, uma vez que as pessoas ficam à deriva, esperando por resgate em águas congelantes. O pânico, no entanto, não se compara com o que a tripulação do USS Indianapolis sentiu em 1945.

A Segunda Guerra Mundial já estava quase acabando e muitos soldados suspiravam de alívio. Guiado pelo capitão Charles B. McVay III, o USS Indianapolis não teve tanta sorte. Foi incumbido de transportar duas cargas de urânio para o Projeto Manhattan.

Os carregamentos eram ultrassecretos e poucos no navio sabiam do que se tratava. Alferes Woolston, oficial júnior de controle de danos, entretanto, teve uma ideia do que se tratava quando chegaram a Tinian. “Um pequeno barco apareceu e as primeiras coisas descarregadas foram os dois contêineres. Eu soube imediatamente o que era”, afirma.

Uma vez descarregados, os tripulantes começaram a navegar em direção a Leyte, nas Filipinas. Segundo o marinheiro Loel Dene Cox, quando zarparam, o comandante teve certeza de que tudo estava tranquilo. “Os oficiais em terra disseram que tudo estava bem”, narra Loel. “Saímos da terra firme achando que tudo estava bem”.

Navio do modelo USS Indianapolis / Crédito: Wikimedia Commons

 

O que eles não esperavam, no entanto, era que Mochitsura Hashimoto, tenente-comandante japonês, estava em um submarino naquelas mesmas águas. No dia 30 de julho de 1945, dois torpedos asiáticos atingiram o Indy.

Para Loel, o ataque não foi previsto por um motivo: “grandes navios como o Indianápolis não tinham sonar”, explica. Assim, os torpedos não foram identificados antes do choque. O primeiro impacto atingiu o navio a estibordo.

“Eu escutei a primeira explosão e o impacto me atirou no deck”, conta Santos Pena, um marinheiro de primeira classe. “Tive o pouco tempo para me levantar e sair dali, antes de escutar a segunda explosão”. De toda a tripulação, 900 homens caíram na água fria, enquanto outros 300 afundaram com o navio, nos 12 minutos de naufrágio.

“Depois que fomos atingidos, pedi que meu amigo George Abbott buscasse coletes salva-vidas”, conta o marinheiro Felton Outland. “Ele voltou com apenas um. Entregou-me e disse que buscaria outro. Foi a última vez que o vi”. Em poucos segundos, os marinheiros estavam pulando no mar.

Almirantes a bordo do navio em fevereiro de 1945 / Crédito: Wikimedia Commons

 

A água, segundo Don McCall, estava lotada de óleo. “Assim que atingi o mar, engoli muita água salgada e combustível”, lembra. “Eu queria sair nadando. Vomitei tudo que tinha engolido, na tentativa de me livrar do óleo. Comecei a nadar e, quando fiquei sem ar, olhei para trás. O navio estava afundando”.

Granville Crane, um dos maquinistas do navio, lembra que muitos homens engoliam água do mar e, depois de um tempo, começavam a delirar. “Eles pensavam que o navio ainda estava funcionando e nadavam para buscar água e comida”, conta. “No meio do caminho, eram devorados por tubarões”.

“Quando olhei para meu corpo, me vi completamente coberto por óleo. Meu primeiro instinto foi sair nadando”, narra Lyle Umenhoffer. “Comecei a nadar lá pela meia noite e apenas parei às 5h30 da manhã seguinte”. Dos 900 homens na água, apenas 316 sobreviveram.

Passando por frio e calor extremos, os tripulantes ficaram à mercê do mar por quatro dias e meio, envoltos por uma mancha enorme de óleo. E o pior ainda estava por vir. “Durante todo o tempo, os tubarões não nos deixavam em paz um minuto sequer”, lembra Eugene Morgan.

Alguns dos sobreviventes recebendo socorro já em terra / Crédito: Wikimedia Commons

 

“Havia muitos tubarões”, conta Tony King, com a voz baixa, quase um sussurro. “Eram muitos. Eu conseguia vê-los nadando abaixo de mim”. Sentado em uma cadeira de rodas em seu apartamento em São Francisco, já com 94 anos, Tony lamenta: “Tantos amigos. Todos se foram”.

Na manhã do dia 2 de agosto, o sofrimento dos tripulantes estava quase no fim. O tenente Junior Grade Wilbur estava sobrevoando a área quando viu a mancha de óleo. Chegou mais perto para investigar e viu centenas de homens acenando, entre centenas de cadáveres, flutuando no mar.

George Horvath, bombeiro de primeira classe, lembra que, quando viu os aviões de resgate, conseguiu pensar apenas na água que tomaria. “Quando você fica quatro dias a deriva, você fica com muita sede”. Ele se lembra de nadar na direção das aeronaves. “Quando parei para descansar, me apoiei em meu colete salva-vidas e olhei para baixo. Foi quando vi um tubarão olhando para mim. Pedi para Deus que ele não me atacasse”.

Dick Thelen, um marinheiro de segunda classe, lembra que foi seu pai quem o motivou a permanecer vivo. “Foi ele quem me levou até a estação ferroviária. Quando nos despedimos, meu pai pediu que eu voltasse para casa. Então, quando estava na água e queria desistir, eu via o rosto dele. Foi meu pai quem me trouxe de volta”.


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