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Matérias / História

Cesarião: A intensa saga do filho de Cleópatra com Júlio César

Proclamado 'Rei dos Reis', Cesarião foi o último faraó da dinastia ptolemaica do Egito Antigo

Éric Moreira Publicado em 06/04/2020, às 06h00 - Atualizado em 11/05/2023, às 19h59

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Busto de Cesarião, filho de Cleópatra e Júlio César - Foto por Sdwelch1031 pelo Wikimedia Commons
Busto de Cesarião, filho de Cleópatra e Júlio César - Foto por Sdwelch1031 pelo Wikimedia Commons

Nesta quarta-feira, 10, chega à Netflix a nova série 'Rainha Cleópatra', série esta que, desde seu anúncio, já vem sendo alvo de diversas polêmicas, sendo a primeira produção audiovisual a retratar a poderosa rainha do Nilo como uma mulher negra. Jada Pinkett Smith assina a produção executiva do projeto.

De acordo com a sinopse da obra, disponível na própria Netflix, "Cleópatra, a última rainha do Egito, luta para proteger seu trono, sua família e seu legado nesta série com reconstituições e entrevistas de especialistas."

Cena da série 'Rainha Cleópatra', da Netflix / Crédito: Divulgação/Netflix

Conhecendo um pouco sobre a importante figura que Cleópatra foi para o Egito e até mesmo Roma, conheça a seguir uma parte crucial em sua vida: a história de seu filho não reconhecido por Júlio César, Cesarião:

Disputas familiares

Para entender melhor a história do único filho entre Cleópatra e Júlio César, é importante retomar a história de seu avô, um dos reis do Egito do período ptolomaico, Ptolomeu XII, que nomeara seus dois filhos mais velhos — Cleópatra, de 18 anos, e Ptolomeu XIII, de 10 anos — como co-herdeiros.

Depois da morte de Ptolomeu XII, os dois irmãos teriam se casado — apenas em uma cerimônia simbólica, sem qualquer relação de amor —, para governarem juntos. Porém, como conta a National Geographic, reis e rainhas ptolomaicos tinham a tradição de disputar pelo trono, o que culminou em, dois anos depois, uma tentativa de Ptolomeu e seus conselheiros de agir contra Cleópatra, para que este fosse o único governante.

Paralelamente a essa disputa no Egito, porém, Roma também se encontrava em um período conturbado, vivendo uma guerra civil entre dois de seus grandes heróis militares, Júlio César e Pompeu, o Grande, que disputavam o poder. E Pompeu, no caso, sabia que precisava da ajuda do Egito nessa disputa, e por isso se associou a Ptolomeu XIII, enquanto Cleópatra foi para o exílio — onde se estabeleceu, formou um exército e aguardou sua melhor oportunidade.

Porém, mesmo com ajuda do Egito, após a Batalha de Farsália de 48 a.C., César ainda derrotou Pompeu, que então fugiu para Alexandria. Porém, para outra surpresa do perdedor dessa disputa, o jovem Ptolomeu executou-o e, em uma tentativa de obter a paz, apresentou sua cabeça a César quando este invadiu o Egito no final daquele ano.

César, por sua vez, não ficou contente com o que viu; pelo contrário. Segundo as palavras do historiador antigo Plutarco, ele "se afastou horrorizado [quando] apresentou a cabeça de Pompeu, mas aceitou o anel de selo de Pompeu e derramou lágrimas por ele."

E foi essa atitude equivocada de Ptolomeu XIII que serviu como oportunidade proveitosa para Cleópatra, então com 21 anos. Entrando clandestinamente em Alexandria para uma reunião com César, conquistou-o para sua causa, e o fez apoiá-la em sua reivindicação ao trono, derrubando, assim, o irmão da nova rainha do Egito, que foi morto. A fim de consolidar ainda mais a aliança entre Roma e Egito, ela ainda convidou o romano a ficar no Egito com ela, convite este aceito.

Busto de Cleópatra
Busto de Cleópatra / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

O filho das lendas

Ao longo de dois meses, Cleópatra mostrou a César todos os encantos que ele poderia encontrar pelo vale do Nilo, incluindo ela própria. No passado, inclusive, Plutarco teria feito registros sobre o tempo dos dois juntos: "[César] costumava festejar com ela até o amanhecer; e eles teriam navegado juntos para a Etiópia".

Mas como líder de Roma, Júlio César não poderia permanecer ali por muito mais tempo. E quando deixou o Egito, Cleópatra estava grávida, tendo dado à luz a um  'filho de César' em 47 a.C. A importância do garoto para a sociedade egípcia era tamanha, que os sacerdotes diziam que o deus Amon havia encarnado em César para gerar o novo bebê príncipe.

Ao fim do ano seguinte, 46 a.C., Cleópatra foi convidada por César a visitar Roma, levando consigo a criança, comumente referida como Cesarião — que significa "pequeno César" —, além de toda a pompa real de sua corte. Plutarco teria escrito que César "não a deixaria retornar a Alexandria sem altos títulos e ricos presentes. Ele até permitiu que ela chamasse pelo próprio nome o filho que ela lhe dera."

Expectativas

Embora Júlio César soubesse que a criança que Cleópatra trouxera consigo era seu próprio filho, esse fato não era assumido para toda Roma. Mas ainda assim muitos romanos notavam semelhanças físicas entre os dois.

Nesse momento, César se via otimista sobre uma forte relação entre Roma e Egito, duas das nações mais poderosas da época. E com isso espalharam-se até mesmo boatos de que havia um projeto para a transferência da capital romana para Alexandria, no Egito. Mas esse plano nunca se concretizou, pois em março de 44 a.C. o imperador foi assassinado.

Dessa forma, não houve tempo para que César tivesse assumido paternidade sobre o pequeno Cesarião e o reconhecesse como seu herdeiro, o que arruinaria a possibilidade de aquele ser o futuro rei legítimo de um império unificado entre Roma e o Egito. No lugar, o testamento de César apontava o sobrinho-neto, Otaviano, como seu herdeiro.

Busto de Otaviano, que viria a se tornar o imperador Augusto
Busto de Otaviano, sucessor de Júlio César / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Rei dos Reis

Em Alexandria, depois da morte de César e a expectativa de uma união proveitosa entre o Egito e Roma, Cleópatra começou a agir a fim de consolidar seu poder. Entre as medidas que tomou, nomeou Cesarião como seu co-regente, de forma que, então, passou a ser reconhecido como Ptolomeu XV Cesarião.

Enquanto isso, em Roma, Otaviano recusava-se a reconhecer Cesarião como filho legítimo de César — visto que isso poderia enfraquecer seu poder —, servindo assim como um alerta para Cleópatra: era necessário agir com cuidado frente aos novos senhores romanos.

Foi então em 42 a.C. que o general romano Marco Antônio, um dos homens mais próximos e de confiança de César, chegou ao Egito como triúnviro, um representante político em nações aliadas. No entanto, sendo leal ao antigo imperador, ele planejava derrubar Otaviano, e para isso pretendia aliar-se, mais uma vez, a Cleópatra.

Essa parceria, a princípio movida unicamente por interesses militares, políticos e financeiros, culminou em um relacionamento, que posteriormente daria fruto a três crianças: os gêmeos que receberiam nomes de divindades astrais, Alexandre Hélio (Sol) e Cleópatra Selene (Lua) e, mais tarde, Ptolomeu Philadelphus.

No entanto, a atenção ainda era maior para o primogênito de Cleópatra. Em 34 a.C., Marco Antônio reconheceu oficialmente Cleópatra como rainha do Egito, e Cesarião recebeu o título de "Rei dos Reis", sendo lembrado como filho legítimo de Cleópatra e Júlio César.

Busto de Cesarião, filho de Cleópatra e Júlio César
Busto de Cesarião, filho de Cleópatra e Júlio César / Crédito: Foto por Sdwelch1031 pelo Wikimedia Commons

Queda do Egito

Por outro lado, Otaviano declarou guerra a Cleópatra e Marco Antônio. E finalmente em 2 de setembro de 31 a.C., as forças egípcias foram derrotadas na Batalha do Áccio, forçando o casal a recuar para Alexandria.

Cleópatra, porém, decidiu que não era seguro manter Cesarião ali, e optou por enviá-lo para fora da capital, em direção ao sul acompanhado por seu tutor.

Foi durante a fuga que o 'Rei dos Reis' soube que as tropas romanas invadiram Alexandria, e que sua mãe e Marco Antônio já estavam mortos. E para sua ruína, seu tutor, considerando que Roma já teria vencido o Egito e agora aquele reino já nem seria mais uma ameaça para Otaviano, sugeriu que o imperador romano teria pena do órfão, então ele poderia regressar para sua terra de origem.

Pintura retratando a morte de Cleópatra e Marco Antônio
Pintura retratando a morte de Cleópatra e Marco Antônio / Crédito: Foto por Juan Luna pelo Wikimedia Commons

E de fato, Otaviano pretendia poupar a vida do jovem Cesarião; mas um de seus confidentes convenceu-o de que era inapropriada a existência de "muitos césares". Assim, quando o jovem herdeiro de César e de Cleópatra retornou para Alexandria, em agosto de 30 a.C., ele foi prontamente executado. E com seu sangue que escorria, também vazava, pouco a pouco, o sonho de um faraó egípcio-romano, com o antigo Egito Ptolomaico morrendo junto de Ptolomeu XV Cesarião.

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