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Charles Manson e o assassinato de Sharon Tate

Em 1969, Hollywood estava em pânico com um dos assassinatos mais brutais da história. O massacre feito por seguidores de Manson encerrou a inocência da era da bicho-grilagem

Dagomir Marquezi Publicado em 22/05/2019, às 18h00

O responsável pelo assassinato e a atriz
Shutterstock

Era 8 de agosto de 1969, quando a atriz Sharon Tate estava prestes a conceber o seu primeiro filho, fruto do casamento com Roman Polanski, um notório diretor de cinema. Um dia normal, Tate jantou no El Coyote Cafe, em Los Angeles, com Jay Sebring , Wojciech Frykowski e Abigail Folger — amigos da artista. Ao saírem do estabelecimento, voltaram para a casa da atriz em Cielo Drive, Bel-Air.

Pouco depois da meia-noite, a atriz e o amigos foram surpreendidos com a presença de um homem e três mulheres. Eram Tex Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel, membros da brutal família Manson. O silêncio da madrugada foi substituído por gritos de desespero.

No dia seguinte, os EUA, estavam diante de um dos crimes mais bárbaros da História. A mente por trás da atrocidade era uma personalidade tão insólita quanto o episódio.

Quinto Beatle

Anos após os crimes que fizeram sua fama, sua expressão insana e a cicatriz em forma de suástica na testa fizeram dele um ícone. Como criminoso, não chegou a ser original. Mais um na lista de líderes messiânicos que passa por Antônio Conselheiro e Osama Bin Laden. A diferença é que a alucinação coletiva explorada por Manson estava embalada em rock, sexo, Hollywood e LSD.

Nem sua história é propriamente original. Violenta, mas comum a um monte de outros criminosos que infestam as prisões americanas. Filho de pai desconhecido, nasceu em 12 de novembro de 1934 no Ohio. Sua mãe, Kathleen, tinha 16 anos. Uma garota alcoólatra e promíscua, perdida na vida medíocre do Meio-Oeste americano. Aos 5 anos, Charlie viu a mãe ser presa por roubo e foi morar com os tios, fanáticos religiosos. A experiência foi fundamental na sua vida. Por intermédio deles, Charles conheceu o trecho da Bíblia que repetiria para sempre: "E o quinto anjo apareceu, e a ele foi entregue a chave do poço sem fundo". Apocalipse, capítulo 9, versículos 1, 2 e 3).

Três anos depois, ele foi levado de volta pela mãe para uma nova temporada em quartos de motel, entre os namorados bêbados dela. Em 1945, Kathleen se encheu do filho e o mandou para uma instituição juvenil. Ele tinha 10 anos de idade.

Seu comportamento a partir daí começou a seguir um padrão. Ele dava um jeito de fugir, se envolvia em crimes e era apanhado de novo. Na prisão, entre casos homossexuais e surtos de violência, aprendeu três coisas que definiriam seu futuro. A primeira foi um curso intensivo de gigolô que incluiu técnicas psicológicas para dominar mulheres. Depois, aprendeu princípios de controle mental, numa espécie de versão primitiva da neurolinguística. O terceiro foco de estudo foi o violão. No meio dos anos 1960, tornou-se um guitarrista bem razoável e fanático pelos Beatles.

Operação rock star

No dia 21 de março de 1967, Charles Manson acabou de cumprir sua pena num presídio da Califórnia e implorou para as autoridades que não o soltassem. Havia passado 17 dos seus 32 anos de idade em prisões e achava que não estava preparado para o mundo lá fora. Pedido negado. Às 8h15 da manhã daquela terça-feira, Charlie estava livre.

Pegou um ônibus e foi para São Francisco. Saltou direto do isolamento carcerário para o berço da revolução hippie. Adaptou-se. Deixou o cabelo crescer, tocou seu violão em troca de moedas, dormiu na rua. Num concerto ao ar livre do Grateful Dead (banda cujas músicas eram trilha sonora obrigatória entre a juventude dos anos 60) tomou seu primeiro LSD. Ficou chorando no chão, de braços abertos, dizendo que era Jesus Cristo sendo crucificado.

Naquele mágico verão de 1967, enquanto os Beatles lançavam o álbum Sgt. Peppers, Manson foi parar na cama de uma jovem bibliotecária pedante e pouco atrativa chamada Mary Brunner. Na cama, Charlie sussurrou a Mary: "Enquanto a gente estiver fazendo amor, feche os olhos e imagine que eu sou seu pai". Ela fechou os olhos e se apaixonou. Usando a mesma técnica, Manson levou uma segunda menina para a casa de Mary, e uma terceira. Logo tinha um harém de adolescentes hippies e morava em Haight-Ashbury, vizinho de Jerry Garcia (do Grateful Dead) e Janis Joplin (outro ícone daqueles loucos anos).

Capa do Lie: The Love and Terror Cult, primeiro álbum de Manson / Crédito: Reprodução

No fim de 1967 Charlie colocou seu grupo num ônibus escolar pintado de preto. No ônibus nasceu o filho dele com Mary Brunner. Charlie cortou o cordão umbilical com os próprios dentes. Viajaram sem parar por toda a costa americana do Pacífico, recrutando novos membros. Charlie destruía suas personalidades trocando seus nomes e usando drogas e sexo em altas doses.

No início de 1968, Charles Manson decidiu que era chegado o momento de sua operação rock star. Estacionou seu ônibus em Los Angeles e seguiu com a Família em busca de quem descobrisse seu talento como artista. Chegou a gravar um disco. Usando suas meninas como isca, começou a frequentar os famosos de Hollywood.

Em março, entrou com a Família na mansão de Dennis Wilson (um dos Beach Boys, outra banda de sucesso na época), na Sunset Boulevard, um dos endereços mais badalados da cidade. Alguns empresários ficaram impressionados com as possibilidades comerciais daquela trupe. Mas os maus modos do candidato a astro assustavam. Dennis Wilson teve que chamar a polícia para expulsar todo mundo de seu quintal.

Rancho Spahn

Enquanto esperava pela fama, Manson levou sua turma para o Rancho Spahn, na periferia de Los Angeles. O Spahn era usado como cenário para faroestes de baixo orçamento. A essa altura, a Família já era um grande aglomerado com dezenas de jovens, alguns com passagem pela polícia. Cada criança que nascia era separada da mãe para "não criar raízes". Documentos de identidade eram destruídos, e todos obrigados a trocar seus nomes. Ninguém podia comer antes de Charlie. Os homens eram servidos primeiro, depois os cães, e por fim as mulheres. Negros nem entravam. Grandes orgias eram organizadas em detalhes por Manson.

A turma de Manson no Rancho Spahn / Crédito: Reprodução

Gravou mais um disco. Segundo seu produtor, a fita foi apagada pois as vibrações não eram deste mundo. Manson não desistiu. Quanto mais esperava o contrato, mais agressivo ficava. Aderiu a cultos satânicos. Gangues de motoqueiros eram atraídas pelo sexo fácil com as garotas. O Spahn virou um foco de doenças venéreas.

No início de 1969, Charlie foi sozinho até a casa do empresário Terry Melcher (filho da atriz Doris Day), no numero 10050 da rua Cielo Drive, em Bel-Air. Entrou sem pedir licença na casa de hóspedes da mansão e deu de cara com o empresário Rudi Altobelli saindo do banho. Altobelli o convidou a sumir. A caminho da rua, o humilhado Charlie cruzou o olhar com uma linda e loura jovem atriz em ascensão em Hollywood. Foi apenas um segundo, mas o destino dos dois já estava ligado.

Sharon Tate / Crédito: Reprodução

 

O nome da atriz era Sharon Tate, casada com o diretor polonês Roman Polanski. Eram estrelas obrigatórias nas maiores festas de Hollywood. No início de 1969, Polanski foi preparar sua próxima produção na Europa. A mansão de Terry Melcher em Cielo Drive foi alugada para que Sharon passasse a gravidez na companhia de amigos fiéis.

"Helter Skelter"

Charlie voltou ao Spahn sem o contrato. Mas no caminho encontrou o sentido da sua vida: o célebre Álbum Branco dos Beatles. Ouvindo suas músicas, Manson desenvolveu seu evangelho de racismo e violência acreditando ter o aval de John, Paul, George e Ringo. A viagem era mais ou menos a seguinte: como no Apocalipse, haveria quatro anjos (os Beatles) aos quais se juntaria o quinto (ele, Manson).

Quando eles estivessem juntos começaria a Helter Skelter, uma guerra civil em que brancos e negros se matariam. Enquanto isso, Charlie e sua turma esperariam no chamado poço sem fundo. Quando tudo terminasse, eles sairiam do buraco para herdar a Terra. Manson pediu às suas meninas que telefonassem para os Beatles, na Inglaterra, e avisassem que o quinto anjo havia entendido a mensagem.

Enquanto os Beatles não respondiam às suas ligações, a Família foi se transformando de um bando de ripongos esquisitões numa tropa paramilitar. Charlie fez treinamento com armas brancas. Reuniu comandos para invadir casas em silêncio enquanto seus donos dormiam. Estudou as batalhas no deserto durante a Segunda Guerra. Começou a montar um esquadrão de motos e bugues armados.

O clima de paranoia foi crescendo em Spahn. A primeira vítima foi o professor de música Gary Hinman, vizinho e incentivador da Família. Depois de tomarem-lhe o dinheiro, ele teve a orelha arrancada e sangrou até morrer. Em seguida, um funcionário do lugar, Donald Shea, que ousou desafiar as ordens de Charlie, acabou esquartejado.

Carnificina

Em 8 de agosto de 1969, a uma semana do lendário Festival de Woodstock, Charlie decidiu que havia chegado o dia de Helter Skelter. Juntou alguns dos seus ajudantes de confiança e deu uma faca a cada um. Ordenou que fossem à mansão da Cielo Drive 10 050 e matassem quem estivesse lá dentro. Com crueldade e muito sangue e que fizessem parecer que negros eram culpados.

No início da madrugada do dia 9, o grupo chegou à mansão, cortou os fios de telefone e pulou o portão. A primeira vítima foi Steven Parent. Parent tentou vender um rádio-relógio ao caseiro e estava de saída quando cruzou com o bando. Levou um tiro por estar no lugar errado na hora errada. A seguir, os assassinos entraram pelos fundos e renderam seus quatro ocupantes.

Sala onde foram encontrados os corpos de Sharon e Jay Sebring / Crédito: Reprodução

 

O que se seguiu foi uma carnificina. Quando a empregada chegou na manhã seguinte encontrou o casal de amigos Abigail Folger, herdeira de um império de café, e o escritor polonês Voytek Frykovsky caídos junto à piscina. Abigail tinha o vestido completamente empapado de sangue. Frykovsky, amigo de Polanski, tinha levado dois tiros na cabeça e 51 facadas.

Na sala, o ambiente estava ainda mais macabro. Com uma toalha cobrindo a cabeça, jazia um dos mais prestigiados cabeleireiros da capital do cinema, Jay Sebring. Uma corda enrolada em seu pescoço passava por uma viga no teto e enforcava na outra ponta Sharon Tate.

Usando o sangue de Tate, os seguidores de Manson deixaram a palavra 'porco' marcada na porta / Crédito: Reprodução

Só de biquíni, grávida de oito meses. Seu filho não recebeu nenhum ferimento, mas não sobreviveu. Na parede, a expressão Helter Skelter foi pintada com o sangue das vítimas.

Hollywood em pânico

Na manhã seguinte, Hollywood estava em pânico. Os estoques de armas das lojas se esgotaram. Todos os seguranças à disposição arranjaram emprego. Sem uma pista concreta e com uma certa incompetência da polícia de Los Angeles, os boatos começaram a surgir. Alguns falavam em acerto de contas entre traficantes. Outros, num ritual de sexo e satanismo com final trágico.

Manson sendo julgado pelos crimes do casal LaBianca / Crédito: Domínio Público

Enquanto isso, no Rancho Spahn, Charles Manson decretou o segundo dia de Helter Skelter. No dia 10, foi pessoalmente com seus comandados e escolheu meio ao acaso a residência do casal LaBianca. Entrou sozinho, amarrou os dois, saiu e chamou seus comandados para completarem o serviço. Rosemary LaBianca foi esfaqueada 41 vezes na própria cama. Leno LaBianca teve ainda um garfo enfiado na barriga. Antes de sair tomaram um lanche e escreveram de novo "Helter Skelter" na geladeira.

Impunes, Charlie e sua Família haviam partido nos seus bugues para o deserto em busca do poço sem fundo. Alguns deles acabaram presos sem querer numa batida por roubo de carro. Denunciado por seus amigos, Manson foi encontrado escondido debaixo de uma pia e se entregou sem qualquer resistência.

Ninguém suspeitava que seus crimes eram muito maiores, quando Susan Atkins, uma das mais fiéis seguidoras de Charlie, ficou íntima de uma colega de cela. Confessou a ela rindo que entrou em êxtase sexual enquanto esfaqueava Sharon Tate. O quebra-cabeça começou a ser montado.

O mais difícil foi incriminar Manson, já que ele matava por controle remoto. Charles Manson transformou o julgamento num circo da luta contra o sistema para a mídia alternativa. As garotas provocavam escândalos no tribunal e Manson tentou matar o juiz com um lápis. Depois de um longo processo a promotoria conseguiu a condenação à morte de Charles Manson e de seis de seus seguidores, em 19 de abril de 1971, 618 dias depois do crime em Cielo Drive.

Manson em 2014 / Crédito: Wikimedia Commons

No ano seguinte, a pena de morte foi abolida na Califórnia e todos os condenados tiveram sua pena trocada automaticamente por prisão perpétua. Os mais fiéis seguidores de Charlie renegaram o líder e se converteram a igrejas evangélicas. Os crimes que eles cometeram continuam sendo lembrados em livros, músicas, filmes e programas de TV.

Manson morreu em novembro de 2017, pouco tempo após completar 83 anos. Antes cumpria pena no presídio de Corcoran, na Califórnia, sem chance de condicional.