Matérias » Brasil

Carnaval na Bahia: A chegada da família real portuguesa

Quando a corte portuguesa desembarcou em Salvador, teve início uma festa de “arromba” que durou mais de um mês

André Luís Mansur Publicado em 22/01/2019, às 10h00

Navios da Coroa em Salvador em 1808
Wikimedia Commons

Depois de tanto tempo navegando sobre o mar, finalmente - terra a vista: estava alí ao alcance dos olhos a baía de Salvador. A visão de uma natureza exótica e única que nasceu naquele momento para os nobres e coitados portugueses. Mesmo descontando o efeito de uma certa fome de terra firme pelo qual passava o pessoal a bordo, a paisagem encantava: de um lado e de outro, ilhas de vários tamanhos e praias virgens encimadas por uma coroa verdejante; à frente, as cintilantes construções brancas no alto de um morro, emolduradas por uma mata luxuriante. Na chegada à Bahia, dia 22 de janeiro de 1808, a colônia parecia bem melhor que a encomenda.

A única peça fora do lugar naquele primeiro contato era o estranho vazio no cais da cidade. Postado nas docas, havia apenas a figura do governador da província, João Saldanha da Gama. Logo apareceu também o arcebispo dom José da Santa Escolástica. Dom João estranhou tanta calmaria. E o governador apressou-se em explicar que preferia, primeiro, receber o príncipe, para depois levá-lo ao povo. O monarca português, então, retrucou: “Deixe o povo vir como quiser, porque deseja ver-me”.

Dom João e a corte decidiram esperar que toda a arrumação fosse providenciada. O desembarque ocorreu um dia depois, sob um autêntico carnaval baiano – com direito a tiros de canhão, sinos repicando nas muitas igrejas de Salvador e uma imensa multidão aglomerada no cais da Ribeira. Era a primeira vez que um monarca europeu pisava numa de suas colônias.

Suja e miserável

Chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808 Domínio Público

Ao pisar em terra, a comitiva real deparou-se com um cenário muito diferente do paraíso que Salvador parecia quando vista do mar. A cidade era suja, miserável e de um mau cheiro exasperador. Fezes eram jogadas na rua, havia lojas barulhentas e animais soltos. Esse era o retrato da área baixa, onde se concentrava a população mais pobre.

Mas festa é festa, e os portugueses tinham todos os motivos para mergulhar naquele autêntico carnaval baiano. Dom João e comitiva seguiram pela rua da Preguiça até a Ladeira da Gameleira, chegando ao largo do Theatro (atual Praça Castro Alves). Depois, todos se dirigiram à Igreja da Sé, onde o arcebispo celebrou um Te Deum Laudamus, em agradecimento pelo sucesso da viagem. No dia 24 de janeiro, houve o desembarque definitivo de toda a corte. A exceção foi Carlota Joaquina – ela só desceu do navio no dia 28. Dom João ficou hospedado na melhor casa da cidade, o Palácio do Governador, enquanto a comitiva foi para a Casa de Relação, uma espécie de Palácio da Justiça.

Os detalhes que cercam a chegada da corte a Salvador são bem conhecidos. Mas um mistério ainda suscita debates: por que dom João decidiu passar pela Bahia antes de se instalar no Rio de Janeiro? Para muitos pesquisadores, a mudança de rumo se deveu às fortes tempestades que avariaram alguns navios da frota. Mas o historiador inglês Kenneth Light, que pesquisou durante anos os diários de bordo dos navios britânicos que acompanharam a esquadra portuguesa, apresenta uma versão mais plausível.

Light reforça a tese de que a visão política de dom João predominou, contrariando a imagem de um monarca indolente e obtuso. Segundo o historiador, as embarcações não ficaram à deriva e o príncipe teria comunicado a decisão da mudança de rota no dia 21 de dezembro de 1807 – 11 dias após a terrível tormenta. Salvador tinha sido a primeira capital da colônia e ainda era um importante centro de decisões. Havia um grande ressentimento dos moradores com a mudança da capital para o Rio, em 1763, e o grande receio do governante português era que esse sentimento provocasse algum tipo de insurreição.

Simpatia do Povão

Primeira faculdade de medicina do Brasil foi na Bahia (imagem de 1900)Domínio Público

Durante sua estada na Bahia, dom João tomou decisões importantes, como a criação da escola médico-cirúrgica (o primeiro curso de nível superior do país e que iria se transformar na Faculdade de Medicina) e da primeira companhia de seguros do Brasil. Também tratou de garantir a simpatia do povão. Mandou reduzir a pena daqueles que estavam presos. E chegou a distribuir moedas de prata na rua, num dia de efusiva manifestação popular.

Apesar da insistência das autoridades locais, que queriam até construir um palácio para dom João, o príncipe-regente finalmente embarcou para o Rio de Janeiro no dia 26 de fevereiro, argumentando que Salvador era mais vulnerável a um ataque francês. Mas designou, em 1810, dom Marcos de Noronha e Brito – conde dos Arcos e último vice-rei do Brasil – para governar a Bahia.