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China X URSS: A rivalidade que rachou o comunismo

As duas nações tinham tudo para se tornarem aliadas contra o capitalismo americano. Mas as relações foram minadas pelo rancor e o desprezo entre seus líderes

Tiago Cordeiro Publicado em 24/07/2019, às 13h00

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- Crédito: Getty Images

Mao Tsé-Tung adorava nadar. Fazia demonstrações públicas, devidamente filmadas e fotografadas, de suas atividades na água. Todos os dias 16 de julho, o país inteiro celebrava o aniversário da data em que, em 1966, o supremo comandante da China comunista teria nadado 15 quilômetros ao longo do Rio Yangtzé, em apenas 1 hora e 5 minutos.

Muitas vezes, o líder recebia seus generais e auxiliares na piscina que ficava ao fundo de sua residência oficial, em Pequim. Foi nessa piscina que Mao se vingou de Josef Stalin e humilhou Nikita Khrushchev. E assim consolidou o cisma sino-soviético, que rachou ao meio o mundo comunista.

O incidente da piscina aconteceu em 3 de agosto de 1958. Khrushchev estava em sua segunda visita à China, e vinha mantendo conversas diárias com Mao desde 31 de julho. Ao chegar à residência do presidente do Partido Comunista da China, foi surpreendido ao encontrar Mao com roupão e chinelos. Percebeu logo que estava diante de uma armadilha.

Mao conhecia os hábitos do primeiro-secretário do Partido Comunista da União Soviética. Sabia que ele detestava cigarros, e por isso mesmo fumou compulsivamente em todos os encontros. Conhecia a falta de educação formal do colega, que trabalhou em minas na infância e passou apenas quatro anos nos bancos escolares, e por isso o tratou com uma postura superior. Havia sido informado, também, sobre a mais absoluta falta de talento do soviético para qualquer atividade física. O líder da URSS nunca aprendera a nadar, por exemplo.

Khrushchev tinha 64 anos, 1,60 m de altura e 90 quilos. As pernas e os braços eram magros e o barrigão redondo o envergonhava — parecia que ele tinha engolido uma bola de basquete. Constrangido, o líder soviético vestiu a sunga verde que lhe foi oferecida e sentou-se na borda da piscina, na parte mais rasa, normalmente usada por crianças. Assim, tentou manter um diálogo com o colega, que nadava de ponta a ponta e falava baixo e rápido. Os intérpretes não viram escolha a não ser entrar na água. Khrushchev também acabou entrando.

Assim que ele ficou em pé na parte mais rasa, funcionários do governo chinês apareceram com uma boia. Diante de mais esse sinal de que tudo ali havia sido cuidadosamente planejado, o líder soviético aceitou a oferta. E começou a acompanhar Mao, com a boia em torno de si, se debatendo como cachorro.

Um atleta olímpico na comparação com o colega, o comandante chinês, que era três meses mais velho e tinha 15 centímetros de altura a mais — e 5 quilos a menos —, monopolizou a conversa. Quando o interlocutor se mostrava cansado, ele parava na borda mais funda da piscina, impondo-se na situação.

"Não se atreva a cuspir em nós!"

Em suas memórias, Khrushchev lembraria o episódio. "Claro que eu não podia competir com ele quando o assunto era natação de longa distância. Ele é um nadador premiado, eu sou um minerador. Eu basicamente balancei para cima e para baixo, e ele nadou com facilidade enquanto expunha seus pensamentos políticos. Foi a forma que Mao encontrou de se colocar em uma situação vantajosa."

Mao e Khrushchev, em 1955 /  Crédito: Getty Images

 

Ao ir embora da China, Khrushchev mandou retirar do país seus assistentes e técnicos, mesmo as equipes que haviam acabado de chegar. Ainda assim, voltou uma vez mais, em 1959. Acabara de visitar os Estados Unidos, onde pediu para conhecer Hollywood e foi recepcionado pela atriz Marilyn Monroe, que balbuciou boas-vindas em russo em nome dos trabalhadores dos estúdios Fox. Dessa vez, ele não foi recebido nem mesmo por uma equipe de segurança. Fez questão de fazer um discurso de chegada, mas não recebeu microfone e teve de falar aos berros.

Durante a visita, ele pediu, em nome de Washington, que a China libertasse cidadãos americanos presos sob a suspeita de praticar espionagem. Sim, um líder da maior potência comunista do mundo intercedia em favor dos Estados Unidos contra uma ação dos chineses, seus irmãos de ideologia. Mao se recusou, irritadíssimo. E Khrushchev arrumaria outros desafetos no governo chinês.

Também se desentendeu com o general Chen Yi, a quem disse: "Cuidado, camarada, se você for um pouco mais para a esquerda, vai acabar virando para a direita". Chen Yi respondeu: "Não estou com medo de sua fúria". O soviético devolveu, aos gritos: "Não se atreva a cuspir em nós a partir do seu posto. Você não tem saliva o suficiente".

Acabava ali qualquer esforço de colaboração entre as duas nações, que, no fim dos anos 1960, chegariam a um breve conflito militar por uma disputa territorial — ambas dividem mais de 3200 quilômetros de fronteiras e há séculos disputam poder sobre áreas estratégicas, como a Mongólia e a Manchúria. Em 1969, os dois Exércitos chegaram a apontar armas nucleares um para o outro. Acabaram recuando no conflito, mas a tensão levaria décadas para ser dissipada.

Em 1972, a China recebeu uma visita do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, que foi tratado com todas as honras que o líder russo não viu. Mao faleceu em 1976, e o país começou então a se tornar um país comunista de economia voltada para o capitalismo.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas chegaria ao fim em 1991. Mas só voltaria a manter relações diplomáticas amigáveis com a China no século 21. Em 2013, o presidente chinês Xi Jinping foi recebido com pompa pelo colega russo, Vladimir Putin — que, aliás, também gosta de exibir seus dotes atléticos e sua capacidade como nadador.

Parceiro maltratado

Nikita Khrushchev havia assumido o comando da União Soviética em 1953, logo após a morte de Josef Stalin. Queria acabar com todos os traços de stalinismo do governo e tentava se posicionar como um líder global sensato, capaz de fortalecer o comunismo sem provocar uma hecatombe nuclear. Já Mao Tsé-Tung deixou a China apenas duas vezes em seus 82 anos de vida. Nas duas ocasiões, visitou a Rússia. E a primeira foi especialmente marcante para ele.

Mao Tsé-Tung / Crédito: Reprodução

Mao chegou a Moscou em dezembro de 1949. Havia consolidado o controle sobre o país poucas semanas antes. Ele permaneceria em terras russas por dois meses, e nunca mais esqueceria a maneira fria como foi recepcionado pelo então primeiro-secretário do Partido Comunista Soviético, Josef Stalin.

Colocado longe do centro de Moscou, numa dacha — ou casa de campo — sem aquecimento, sem opções de entretenimento além de uma mesa de pingue-pongue quebrada, ele não recebeu as honras que esperava. Foi tratado como só mais um entre os visitantes que estavam na Rússia a fim de celebrar o aniversário de 70 anos do líder soviético. Passou semanas aguardando por uma breve audiência com Stalin, que o tratou com desprezo.

Stalin havia sido importante para a vitória comunista na China. Ele apoiava o movimento de Mao desde a década de 1920. O líder chinês era obediente ao colega mais experiente, a ponto de aceitar a sugestão de Stalin: por um longo período, suspendeu a guerra civil interna para unir forças com o inimigo, o general Chiang Kai Shek, a fim de acabar com a invasão japonesa à Manchúria, entre 1937 e 1945.

Mao esperava muito mais da visita a Moscou. Afinal, ele havia alcançado a façanha de transformar um território de 9,6 milhões de quilômetros quadrados e 544 milhões de habitantes em território comunista. Era um parceiro de peso, alinhado com o marxismo e as estratégias econômicas dos soviéticos.

Ainda assim, Stalin deixou claro que continuava esperando do colega a mesma subserviência de antes da guerra — dizia aos mais próximos que o chinês era pouco sofisticado e seus escritos tinham conceitos defasados e feudais.

Mas, apesar de tudo isso, Stalin liberou empréstimos e enviou 20 mil técnicos russos para ajudar a China a se industrializar. E deu a ele sugestões como esta, sobre as prioridades para o desenvolvimento do país: "Petróleo, carvão e metais são sempre necessários, independemente de você estar em guerra ou não".

Desentendimentos em série

Quando assumiu o posto e começou a revisar as práticas de Stalin, Khrushchev criou um constrangimento para Mao Tsé-Tung, que se posicionava como seguidor fiel das práticas do líder morto. "Com a morte de Stalin, em março de 1953, Mao passou a se considerar o líder mais velho do movimento comunista internacional. Acreditava ser o legítimo sucessor da ortodoxia marxista-leninista e dizia que os líderes soviéticos estavam abandonando o comunismo legítimo", afirma o historiador americano Steven Levine, professor de história da China na Universidade de Montana.

"Ao longo das décadas de 1950 e 1960, todos os esforços para retomar o bom relacionamento entre os dois países fracassaram. Não havia nenhum mecanismo de conciliação para além das personalidades de seus líderes — e tanto Mao quanto Khrushchev tinham egos gigantescos e se consideravam capazes de conduzir, sozinhos, o movimento comunista internacional."

O novo líder russo tentou agradar Mao. Logo após chegar ao poder, admitiu publicamente que Stalin havia sido injusto em seus acordos comerciais com os chineses e ofereceu 15 grandes projetos de desenvolvimento industrial acompanhados de 1500 técnicos. "Num primeiro momento, o soviético ainda tentou emprestar mais dinheiro e ceder mais pessoal, mas isso só fez dele ainda mais fraco aos olhos de Mao", diz Steven Levine.

Khrushchev, em 1963 / Crédito: Wikimedia Commons

Nesse contexto, o sucessor de Stalin visitou Pequim uma primeira vez em 1954 — a segunda visita aconteceria em 1958, quando ele se viu dentro de uma piscina, e a terceira em 1959, quando discutiu com o general Chen Yi. Nessa primeira ocasião, e apesar de toda a atenção que vinha dando aos chineses, foi colocado com seu estafe em um apartamento em Pequim sem ar-condicionado, em pleno verão.

Assim como havia acontecido com Mao cinco anos antes, Khrushchev se viu na situação constrangedora de aguardar vários dias pela oportunidade de conversar com o colega. Já naquela ocasião, poucos meses depois de prometer um reforço no apoio financeiro e logístico, o líder soviético foi embora de Pequim decidido de que o comandante era louco — e não deveria receber ajuda para desenvolver artefatos atômicos.

Nesse meio-tempo, em 1957, quando Mao visitou Moscou pela segunda vez, o clima já era abertamente hostil. O chinês reclamou da proposta de buscar a coexistência pacífica com os capitalistas. O russo alegou que o Grande Salto Adiante liderado por Pequim era mal conduzido e não teria o efeito de transformar a China numa potência econômica. (De fato, o Grande Salto, que deveria colocar a nação no mesmo patamar produtivo da Inglaterra em apenas três anos, provocou a demolição de um terço de todas as casas do país e deixou um saldo estimado em 55 milhões de mortes entre 1958 e 1962.)

Enquanto aumentava o tom das críticas, Mao acumulava pretextos para afirmar que os soviéticos não eram mais os legítimos líderes do comunismo global. Os levantes internos na Hungria (1956) e na Polônia (1957), para ele, eram sinais de falta de firmeza. Contribuiu para essa impressão o fato de que a URSS exigiu, mas não recebeu, desculpas formais dos americanos em 1960, quando dois aviões espiões U-2 enviados por Washington foram fotografados e abatidos em território soviético.

Durante o encontro em 1958 / Crédito: Getty Images

Além disso, a crise dos mísseis nucleares instalados em Cuba, em 1962, seria, do ponto de vista chinês, uma grande derrota dos soviéticos para os EUA — por sua vez, Khrushchev considerava que havia evitado uma guerra nuclear de nível planetário que os chineses pareciam ansiosos para iniciar, enquanto conduzia uma nação que, naquele momento, liderava com folga a corrida espacial contra os americanos.

Adeus, Lenin

Ao longo dos anos 1960, a relação diplomática entre os dois países já praticamente não existia, e a Guerra Fria entrou em sua fase final, caracterizada pela tripolaridade entre URSS, Estados Unidos e China. A União Soviética apoiaria os rebeldes do Tibete e o governo da Índia, que entrou em conflito por fronteiras com a China.

Em 1979, a China daria o troco, apoiando os rebeldes afegãos contra os invasores russos.
Até o fim dos anos 1980, chineses e russos lutaram para impor sua influência na África e nas Américas, na Albânia e no Vietnã. No Brasil, as diferentes influências também se manifestaram: parte dos fundadores da Guerrilha do Araguaia recebeu treinamento na China.

A tensão era pública. Khrushchev chegou a se referir a Mao como o Hitler da Ásia, enquanto o líder chinês passou a se referir ao soviético como um velho inútil. Os chineses se posicionaram como a dianteira moderna do comunismo, enquanto os soviéticos insistiam na falta de competência com que Pequim conduzia suas políticas econômicas.

No fundo, os dois países lutavam pela liderança do planeta num futuro em que o capitalismo fosse derrotado. Tinham tanta certeza de que o comunismo venceria que não consideravam necessário unir forças. "É claro que não havia uma revolução comunista global a caminho. Essa era uma fantasia leninista em que tanto os soviéticos quanto os chineses acreditaram", afirma Steven Levine.

"Os dois países imaginavam que a derrota do capitalismo era inevitável, mas discordavam nos métodos para concretizá-la. Estavam errados e seus desentendimentos destruíram o movimento que ambos pretendiam liderar."