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Chinchorro: a civilização sul-americana que mumificava mortos antes dos egípcios

As descobertas sobre o povo chinchorro são tão impressionantes que a Unesco incluiu as múmias na Lista do Patrimônio Mundial

Giovanna Gomes sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 22/08/2021, às 09h00

Múmia chinchorro
Múmia chinchorro - Divulgação/Youtube/vídeo/Timeline - World History Documentaries

Quando se trata do tema "múmias antigas", a primeira reação da maior parte das pessoas é se recordar dos grandes faraós do Egito, enterrados em suas suntuosas pirâmides.

Mas e se dissermos que as mais antigas se encontram aqui pertinho, no continente americano, e que elas possuem 7 mil anos?

Cultura chinchorro

Segundo uma matéria da BBC, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), é no deserto do Atacama que se encontram "as mais antigas evidências arqueológicas conhecidas de mumificação artificial de corpos". Por esse motivo, o órgão incluiu, no fim de julho deste ano, as múmias e o local que as abriga na Lista do Patrimônio Mundial.

Os chinchorros, como são chamados, formavam uma sociedade de caçadores-coletores que viveu na região entre os portos de Ilo, no Peru, e Antofagasta, no Chile, há mais de 7 mil anos. Ainda há poucas informações sobre eles, mas os pesquisadores acreditam que se organizavam em grupos de 30 a 50 pessoas, as quais teriam certa relação de parentesco.

Divulgação/Youtube/vídeo/Timeline - World History Documentaries

 

Caraterísticas marcantes também compreendem os ritos fúnebres: os mortos tinham tamanha importância para que eram submetidos a processos de mumificação, contando com técnicas que datam 2 mil anos antes dos egípcios começarem a praticá-las.

Especialistas em pesca

Por viverem num território rico em recursos marinhos, os chinchorros se especializaram na prática da pesca, desenvolvendo diferentes ferramentas para esta finalidade, como um alzol feito à base de espinhos de cactos e pontas de arpão. Já outros instrumentos eram fabricados com ossos e conchas.

Com isso, os chinchorros foram capazes de construir assentamentos semipermanentes na foz dos rios e riachos da região do Atacama.

Crânio de uma mulher chinchorro / Crédito: Divulgação/Youtube/vídeo/Timeline - World History Documentaries

 

Além dessa cultura material, há ainda outra evidência que indica a interação cotidiana desta civilização com as águas: os tumores encontrados nas orelhas das múmias. De acordo com o Museu Chileno de Arte Pré-Colombiana, a teoria é que esses tumores seriam causa dos mergulhos em grande profundidade.

Técnicas de mumificação

O processo de mumificação dos chinchorros consistia na retirada dos órgãos e das vísceras do corpo e substituição dos mesmos por vegetais, lã, pedaços de couro, penas, entre diversos outros tipos de materiais. O cérebro, por exemplo, era substituído por argila, cinzas, terra e pelos de animais.

Os pesquisadores da Universidade de Tarapacá informam também que costumava-se remover o couro cabeludo e a pele da face dos entes queridos. Em seguida, o rosto era modelado e adornado com uma peruca feita com cabelo humano. Por fim, o morto era vestido com um tecido vegetal e tinha o corpo coberto com argila.

Múmia de uma mulher chinchorro / Crédito: Divulgação/Youtube/vídeo/Timeline - World History Documentaries

 

Mudança de costumes

Dizem os especialistas que, inicialmente, a instigante civilização mumificava apenas recém-nascidos e crianças, cujos corpos eram colocados junto a estatuetas de barro. Porém, por volta do ano 3.000 a.C., eles já realizavam esse processo em indivíduos de todas as idades que fossem pertencentes ao grupo.

Até mesmo as técnicas de embalsamento mudaram com o passar do tempo, tornando-se cada vez mais simples. Por esse motivo, podemos encontrar múmias simplesmente enfaixadas, enquanto outras apresentam coloração negra, em razão do uso de óxido de manganês, ou ainda vermelhas, cobertas por óxido de ferro.

"A cultura chinchorro considerava suas múmias como parte do mundo dos vivos, o que explica por que deixavam os olhos e a boca abertos e usavam macas, feitas de fibra vegetal ou pele de animal, para transportá-las", declarou a Universidade de Tarapacá.