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Herança cultural e invenções sofisticadas: A medicina do Egito Antigo

Donos de uma cultura grandiosa, os egípcios deixaram um legado importante e um conhecimento biológico e medicinal que é compartilhado até os dias atuais

Fabio Previdelli Publicado em 24/07/2020, às 11h00

Ilustração mostra oftalmologista que trata de um paciente
Ilustração mostra oftalmologista que trata de um paciente - Getty Images

O Egito Antigo é permeado de mistérios e por uma rica herança cultural que vai muito além das esplendorosas pirâmides. O povo também deixou um legado de invenções sofisticadas e um conhecimento biológico e medicinal que é compartilhado até os dias atuais.

Um dos conhecimentos mais importantes e impressionantes é sobre o desenvolvimento nas áreas de medicina e farmacologia. Com base em papiros médicos de mais de 40 séculos atrás, o egiptólogo Warren R. Dawson, da Universidade de Oxford, citou em seu livro, O Legado do Antigo, alguns procedimentos médicos e remédios que são usados até os dias atuais, como o óleo de rícino (extraído da mamona), ácido acetilsalicílico (princípio ativo da aspirina), anestésicos e própolis para cicatrização.

Além disso, os papiros também mostram o processo de cirurgias delicadas, o engessamento de membros que tiveram ossos quebrados e um conhecimento avançado de todo o sistema circulatório do corpo humano.

Um dos métodos mais utilizados pelos egípcios era o da mumificação, que consiste em uma série de processos (químicos e físicos) para a preservação dos corpos. Esse procedimento resultaria na remoção cirúrgica de alguns órgãos internos, que muitas vezes eram tratados e recolocados em seus devidos lugares.

Isso permitiu que eles conhecessem o interior humano de uma forma, até então, inédita. Um ótimo exemplo sobre isso pode ser visto no corpo de Ramsés II, que teve suas veias e artérias retiradas, mumificadas e recolocadas posteriormente.

Sabe-se também que naquela época já havia o hábito de medir o batimento pelo pulso como um jeito de avaliar a saúde das pessoas. “O batimento cardíaco deve ser medido no pulso ou na garganta”, dizia a escrita do papiro Ebers, datado em 1550 a.C. e considerado um dos primeiros livros de medicina do mundo.

Instrumentos cirúrgicos (papiro reconstruído de um relevo do templo de Kom Ombo, data original do reinado da civilização egípcia de Ptolomeu V) / Crédito: Getty Images

 

Todas as descobertas eram documentadas nos chamados papiros médicos, o que permitiu que o conhecimento fosse passado com exatidão. Antes a comunicação egípcia era feita de forma oral e documentos com registros eram raros.

Foi esse conhecimento sobre a circulação sanguínea que fez com que isso se tornasse um costume e se perpetuasse até os dias atuais. Os egípcios acreditavam que saiam veias do coração que o ligavam com os membros do corpo — a veia da mão terminaria no dedo anular.

Com a crença de que o coração é o centro de tudo, e também pelo fato dele estar ligeiramente deslocado para o lado esquerdo, os casais passaram a usar fitas em seus dedos para simbolizar que o órgão estava preso com a pessoa que ela amava. Posteriormente, essa fita foi trocada por um aro de metal, que variava de acordo com a posse do casal.

Procedimentos cirúrgicos intracranianos

As primeiras descrições do processo de mumificação indicaram que as pessoas tinham o cérebro retirado pelo nariz e descartado com intestinos mortos. Entretanto, com o passar do tempo, os egípcios passaram a relacionar o funcionamento do órgão com a parte de coordenação motora.

Cena do parto em que uma mãe é ajudada por suas criadas e parteira / Crédito: Getty Images

 

Existem papiros do século 15 a.C. com descrições completas sobre esses procedimentos. Porém, somente no ano de 2001 que especialistas conseguiram demonstrar casos de crânios que foram abertos cirurgicamente e apresentavam indícios de cicatrização. Isso nos permite acreditar que o paciente possa ter sobrevivido à operação — e, inclusive, não ter sentido dor alguma.

Uso de anestésicos

O professor Mário Curtis Giordani, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (URFJ), relatou na obra História da Antiguidade Oriental, o processo que os egípcios usavam para o adormecimento de partes do corpo. Segundo Giordani, eles utilizavam uma mistura de pó de mármore e vinagre.

Outro método que se tem conhecimento é o de anestésicos feitos com base de opiáceos, derivados do ópio, que eram ingeridos. Considerados os antecessores da morfina, esses procedimentos só voltaram a serem usados três séculos atrás, na Europa.

Amputação de membros, cauterização e outras técnicas

Os egípcios dominavam tão bem técnicas avançadas que não era incomum o uso de amputação de membros, cauterização e até mesmo o uso de pontos para fechar incisões. Inclusive, é provável que os egípcios foram pioneiros ao utilizar a técnica.

Assim como nos dias atuais, no Egito Antigo também existia especialização médica. Quem tratava de fraturas não se misturava com os que mexiam com os problemas de pele e vice-versa.

Essa especialização incluía o tratamento odontológico. Naquela época, dentistas já utilizavam brocas, faziam próteses e drenavam abcessos. Entretanto, ao contrário do que muitos imaginam, os tratamentos médicos não eram de uso exclusivo de uma classe mais rica. Trabalhadores braçais tinham direito de receber um tipo de plano de saúde.

Cena de circuncisão (papiro reconstruído de um relevo da mastaba de Ankhmahor em Saqqara, original que remonta à dinastia VI) / Crédito: Getty Images

 

Isso se confirma com as escavações que foram feitas na Cidade dos Trabalhadores. Múmias de 4.500 anos mostram que muitas dessas pessoas receberam tratamento médico. Zahi Hawas, diretor do Conselho Supremo de Antiguidade do Egito, afirma que: “Alguns corpos apresentavam marcas de fraturas consolidadas, membros amputados e até cirurgias cerebrais. [...] Eram pessoas comuns que se curaram e voltaram ao trabalho”.

Métodos contraceptivos

Outro avanço que chamou muito a atenção foram os métodos contraceptivos estudados pelos egípcios. A maioria deles consistia no uso de emplastros espermicidas na vagina, cujo efeito tente a diminuir a mobilidade do espermatozoide.

Já quando havia a suspeita de gravidez, testes com urina eram feitos. Geralmente, a mulher urinava em um recipiente com uma quantidade variada de cevada. Caso houvesse uma germinação, ficaria constatada a gravidez. Apesar do método ser contestado nos dias atuais, é notável essa associação entre a composição da urina e a gravidez.


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