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Conheça Adelia Sampaio, primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil

Com exclusividade ao site Aventuras na História, a cineasta lembra como surgiu seu amor pela a arte e o racismo enfrentado ao longo de sua carreira

Pamela Malva e Thiago Lincolins Publicado em 27/03/2021, às 09h00 - Atualizado às 19h14

Fotografia de Adelia Sampaio na juventude
Fotografia de Adelia Sampaio na juventude - Divulgação/Arquivo Pessoal

No Brasil, as primeiras exibições cinematográficas aconteceram em meados de 1896, quando diversos curtas sobre o cotidiano de cidades europeias foram exibidos no Rio de Janeiro, de acordo com a Academia Internacional do Cinema.

Daquele ano em diante, os brasileiros desenvolveram uma paixão irreparável pelas telonas e, com isso, os mais distintos estilos de filmes surgiram no país. Em décadas de história, o país formou diretores, roteiristas, atores e cinegrafistas de ponta.

Conhecida como a primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, Adelia Sampaio foi uma das pessoas que marcou a história do cinema nacional. Em entrevista exclusiva ao site Aventuras na História, a diretora, que foi homenageada na última edição do Santos Film Fest, contou detalhes de sua trajetória.

Fotografia de Adelia Sampaio dirigindo um de seus longas / Crédito: Divulgação/Arquivo Pessoal

 

Novas experiências

Hoje, aos 77 anos, Adelia lembra de suas obras com carinho. Algumas de suas produções, inclusive, estão disponíveis em um canal no Youtube que leva o nome da diretora.

Em meados da década de 1950, no entanto, a pequena Adélia de 13 anos não fazia ideia que seu futuro estaria diretamente ligado com a história do cinema. Pelo menos não enquanto ela morava em um abrigo para meninas, separada de toda a sua família.

“Nunca havia entrado em um cinema e sequer imaginava como seria”, explica a cineasta ao site Aventuras na História. Naquela época, mesmo com diversos filmes estrangeiros em cartaz, Adelia não fazia ideia de como funcionava o universo cinematográfico.

Uma menina no cinema

Nascida em Minas Gerais, a garota é filha de uma empregada doméstica, cujo salário não era suficiente para manter toda a família. Quando pequenas, a futura artista e sua irmã, Eliana Cobbett, chegaram a ser tiradas da mãe. Anos se passaram até que elas estivessem juntas novamente, bem a tempo de Adelia conhecer seu primeiro cinema.

“Com 13 anos, chegada de um asilo, minha irmã me convidou e eu aceitei”, conta a cineasta. Juntas, então, as meninas foram até um cinema no centro do Rio de Janeiro, para onde tinham retornado após passarem muitos anos em um orfanado em Minas.

Entraram na sala escura, sentaram-se nas cadeiras e esperaram até que o longa começasse. “Fiquei fascinada na hora em que aquela telona se iluminou”, lembra. Deslumbrada com as imagens enormes, ela sentiu que aquele era seu lugar. “Então pensei: Eu quero entrar [nesse universo], eu quero fazer isso!”

Uma longa carreira

Inicialmente, Adelia trabalhou como telefonista da DiFilme, em 1968. Em seguida, foi continuísta, montadora, câmera, maquiadora e produtora em mais de 70 produções. Na década de 1970, contudo, foi a vez dela assumir um novo cargo nos sets de filmagem.

O curta-metragem Denúncia Vazia, então, estreou em 1979, com a inédita direção de Sampaio. Pouco depois, em 1984, o longa Amor maldito surgiu para revolucionar o cinema nacional. Baseado em fatos reais, ele não apenas é o primeiro filme longa-metragem dirigido por uma mulher negra no Brasil, como ainda retrata a história de um amor lésbico.

Tamanho foi o estrondo causado pelo longa que a produtora e distribuidora Embrafilme recusou-se a financiar a obra. “Foi terrível, mas eu acreditava na proposta, na denúncia e no filme!”, conta Adelia. “Meu cinema é feito de denúncias e eu creio nele.”

Pôster de divulgação e cena do longa Amor Maldito / Crédito: Divulgação

 

As memórias de uma diretora

Hoje, com diversos longas lançados, a cineasta se surpreende com o avanço constante do cinema, já que “se tiver uma boa ideia, a pessoa já faz um filme” com o celular mesmo. Ainda assim, ela lamenta a escassez de incentivo para diretores iniciantes.

“Não existe um órgão regulador que possa ajudar um iniciante a realizar seu filme”, explica, lembrando que, em sua época, pôde contar com a Lei do Curta. “Comprei muitas frutas para meus [dois] filhos com o [valor] que recebi de meus curtas.”

Tendo atravessado a ditadura militar, período no qual seu marido foi preso e torturado, ela fez questão de falar sobre o tema em seu último projeto. Tendo em mente que “o povo não tem memória”, ela lançou o documentário ‘AI5, o dia que não existiu’, em 2004.

Antes dele, a diretora ainda produziu o documentário ‘Fugindo do Passado: Um Drink para Tetéia e História Banal’, que também fala sobre a Ditadura, em 1987. Na época, foi uma forma de mostrar sua opinião sobre o período que sufocou tantos artistas.

Mulher preta e filha de uma empregada doméstica, Adelia sempre soube que enfrentaria uma indústria eletista. “O racismo está aí presente e eu lamento. Mas sou uma pessoa que tem sonhos e nunca abro mão deles”, finaliza.


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