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Cláudia Celeste, a primeira travesti a aparecer em uma novela brasileira

Diante da censura do governo militar, a jovem acabou sendo alvo de uma polêmica que rodou o país em 1977

Wallacy Ferrari Publicado em 06/12/2020, às 10h00

Cláudia como Mis Brasil Gay em 1976
Cláudia como Mis Brasil Gay em 1976 - Divulgação

Os anos iniciais da televisão brasileira foram edificados para atrair o público mais rico, visto que os televisores eram artigo de luxo a partir da década de 1950.

Com isso, os espetáculos e musicais populares foram, pouco a pouco, perdendo o espaço televisivo para as novelas — normalmente situadas com personagens de alto padrão em grandes capitais.

Tal conservadorismo de produção resultou em uma notável seletividade de padrões estéticos, cultos e até mesmo sexuais. Porém, as oportunidades de novas caras na televisão brasileira começaram a surgir nas décadas seguintes.

Tudo começou com o surgimento de mais atores negros e, posteriormente, gays. Um símbolo foi Rogéria, que chegou a ser proibida de realizar apresentações televisivas durante a Ditadura Militar.

Em 1977, uma oportunidade surgiu. Cláudia Celeste havia sido eleita a Miss Brasil Gay no ano anterior. Ela já demonstrava todo o seu talento através da partipcação no espetáculo “O mundo é das bonecas”, no ano de 1973, através do Teatro Rival, na Cinelândia. 

Pouco conhecida nacionalmente, foi inserida no elenco da novela “Espelho Mágico”, da TV Globo, sem nenhuma citação ao fato de ser travesti. Na obra, foi responsável por dublar e contracenar com Sônia Braga como coreógrafa. Contudo, a artista foi boicotada diante do governo da época.

Conforme divulgado pelo O Globo em matéria de 2018, o diretor Daniel Filho decidiu adicionar um número de Transetê no fuetê na novela que Cláudia participaria. Ele encontrou na artista a possibilidade de inserir o número com sucesso, no entanto, nunca questionou se Celeste era travesti. 

Ela contracenou com Sonia Braga e brilhou. "Antes, ninguém sabia que eu era travesti, nem Daniel Filho. Ninguém nunca me perguntou! E, como ficou muito ti-ti-ti, tiraram os capítulos que eu já tinha feito", explicou a artista em entrevista à Geni no ano de 2013. E foi assim que surgiu uma polêmica que rodou o país.

Atenção nacional

Na edição do Gazeta de Notícias de 8 de agosto de 1977, uma manchete estampava a revelação; “Cláudia (ou melhor, Cláudio), o travesti que enganou todo mundo”.

Na ocasião, a matéria não apenas contava a trajetória da jovem como revelava que seu nome de batismo era Claudinor Alves, explicando que, desde os 15 anos, realizava aplicações de hormônios femininos.

Manchete do Gazeta de Notícias em 8 de agosto de 1977 / Crédito: Divulgação

 

No segundo parágrafo do texto havia o motivo da não revelação sexual: “Ninguém sabia nem deveria saber, porque existe uma proibição da Censura Federal não admitindo a aparição de atrizes, tais como [Divina] Valéria e Rogéria”.

As participações seguintes de Cláudia foram canceladas após a revelação, antes mesmo de qualquer notificação de censura prévia, sendo afastada pela emissora. Da mesma forma, Celeste não deixou de ser a primeira travesti a compor o elenco de uma telenovela no Brasil.

Fazendo história

Dez anos depois, a oportunidade de estrelar uma novela surgiu na então concorrente Rede Manchete, dando vida à personagem Dinorah, uma prostituta na novela Olho por Olho, em 1987.

Anúncio malicioso de Cláudia como atriz em Olho por Olho / Crédito: Divulgação

 

Com o fim do governo militar, Cláudia não apenas conseguiu participar do enredo do início ao fim, como foi a primeira transexual a completar uma novela no país.

Mesmo com um papel importante, a personagem e, consequentemente, a atriz, era alvo de constantes manchetes maliciosas, como relatou em entrevista à revista Geni: “A gente não cozinha, não lava, não passa, não vive vida nenhuma, não tem inteligência nenhuma, não estuda… Não é professora, não é médica, não é nada – é sexo. E, depois dos anos 80, o travesti ficou ligado à prostituição”, lamentou Cláudia.

Fora da televisão, teve a oportunidade de estrelar peças e filmes, viajando para a Europa em casas de espetáculos. No Brasil, casou-se com o bailarino Paulo Wagner, com quem contracenou em diversos espetáculos. A grande artista morreu em 2018, aos 65 anos, vítima de uma infecção pulmonar.


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