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Carmen Miranda, a saga da Pequena Notável que se tornou ícone mundial

Dona de um talento único, parte dos brasileiros passou a associar o sucesso meteórico de Miranda à chamada Política da Boa Vizinhança

M. R. Terci Publicado em 28/09/2020, às 11h39

Carmen Miranda em photoshoot
Carmen Miranda em photoshoot - Wikimedia Commons

No auge de sua fama, quando o cinema norte-americano se debruçava sobre o talento de Carmen Miranda e Hollywood a transformava em símbolo universal dos latinos, a cantora teve sua figura diretamente ligada à chamada Política da Boa Vizinhança, fator que gerou desconfiança e descontentamento de parte dos brasileiros que passaram a considerá-la responsável pela difusão do estereótipo da República das Bananas.

Maria do Carmo Miranda da Cunha, conhecida mundialmente como Carmen Miranda, nasceu em Marco de Canaveses, Portugal. Segunda filha de um barbeiro e de uma dona de casa, emigrou com os pais para o Brasil com pouco mais de um ano de idade. Aqui, por conta da admiração do pai pela mais famosa ópera do compositor francês Georges Bizet, ganhou o apelido de Carmen.

Ainda jovem, trabalhou em uma boutique do bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, onde aprendeu a fazer chapéus – trabalho que a influenciaria nas referências estéticas de suas apresentações.

A convivência com a vida agitada do universo carioca do ano de 1929 aproximou a adolescente da música. Logo, ela seria apresentada ao compositor Josué de Barros que a incentivaria a mostrar seu talento nos teatros e clubes noturnos. Naquele mesmo ano, a gravação de Ta-hí (Pra você gostar de mim), foi sucesso instantâneo e projetou seu nome como a principal intérprete do samba no Brasil.

Carmen Miranda no filme Week-End In Havana, em 1941 / Crédito: Getty Images

 

Tal foi o seu êxito, que Carmen Miranda se tornou a primeira artista a assinar um contrato de trabalho com uma emissora de rádio no país, o que certamente a conduziu a uma rotina extenuante.

Entre 1930 e 1939, Carmen estabeleceu um recorde que jamais seria batido. A cantora gravou 300 músicas, muitas dessas, grandes sucessos predestinados a se tornarem clássicos que moldariam um dos gêneros mais importantes da música brasileira, a marchinha de carnaval.

Seus sucessos consecutivos e avassaladores projetariam seu nome para além da indústria fonográfica brasileira, garantindo papel de destaque nos primeiros filmes brasileiros lançados nos anos 1930, onde aparecia caracterizada de baiana. Mas seus maiores triunfos ainda estavam por vir.

Ao vê-la se apresentar no Cassino da Urca, Lee Shubert, na época, um dos maiores produtores da Broadway, ofereceu à Carmen um contrato de oito semanas para se apresentar em Nova York, no espetáculo The Streets of Paris, ao lado de Bobby Clark e os comediantes Abbott & Costelo.

Assim, nos Estados Unidos, a Pequena Notável protagonizou espetáculos que alçaram ainda mais o seu nome ao estrelato, ao ponto de proporcionar sua estreia, no cinema estadunidense. Naquele mesmo ano, Carmen foi eleita a terceira personalidade mais popular nos Estados Unidos e convidada a se apresentar para o presidente Franklin Roosevelt, na Casa Branca.

De repente, Carmen Miranda era a mulher mais bem paga dos Estados Unidos. Seu sucesso nos Estados Unidos, fez com que a imagem da mulher com um cacho de bananas na cabeça se tornasse sinônimo de Brasil em todo o planeta. O debutar de uma relação de amor e ódio entre ela e o país que representava.

Até então, o Brasil era para os estrangeiros uma nação produtora de café, mas imensamente distante do imaginário popular norte-americano. Carmen tornou tudo mais próximo, mas, infelizmente, caricato. Aos olhos deles, o país se tornara um lugar mítico, onde o sol brilhava o tempo todo sobre praias recheadas de palmeiras e coqueiros, repletas de araras, macaquinhos e mulheres bonitas de biquini, uma imagem estereotipada de Brasil que até hoje é assimilada pelos estrangeiros.

Infelizmente, o cinema norte-americano não se preocupava em produzir histórias fieis à realidade. Produzia entretenimento enlatado e aceito por todo mundo, mesmo quando em franco detrimento de outras culturas.

Isso por si só já bastou para uma parte dos brasileiros torcer o nariz e associar o sucesso meteórico de Carmen à chamada Política da Boa Vizinhança de Roosevelt.

De fato, em tempos de Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos tinham medo de que as nações latino-americanas, como o Brasil, ricas em colônias alemãs e italianas, se tornassem simpatizantes do Eixo.

Dessa forma, num esforço para estreitar as relações entre as Américas, o governo dos EUA utilizava o financiamento industrial como forma de ganhar a simpatia do povo brasileiro; mas de maneira alguma isso tinha relação com o talento e sucesso da cantora.

A moda de Carmen estampava vitrines em Los Angeles e Paris. Manequins ostentavam as criações da própria artista – entre estas, os sapatos plataforma e turbantes de banana.

Notadamente, Carmen também serviu aos interesses do governo Getúlio Vargas. Vargas desejoso de dar aos brasileiros a perspectiva de que o Brasil estava predestinado a se tornar grande, aceitava de bom grado a caricatura tropical. Mas não tardou para esse sentimento arrefecer.

Havia no país um desconforto crescente. Afinal, ninguém gostava de ser visto como morador de uma República das Bananas, repleta de papagaios.

Em 1940, na primeira vez que voltou ao Brasil, Carmen foi vaiada durante o show no Cassino da Urca. A Pequena Notável respondeu de forma bem-humorada através de seu talento. Gravou músicas inspiradas pelos absurdos e injustiças a que era submetida no Brasil, como “Disseram que Voltei Americanizada” e “Mas Pra Cima de Mim, pra que Tanto Veneno?”.

Carmen passou 15 anos sem botar os pés no Brasil. Deprimida com o repúdio do país que representava, acabou viciada em barbitúricos, o que causou sua morte em 1955, em sua residência em Beverly Hills.

Ela tinha apenas 46 anos. Seu corpo, traslado para o Rio de Janeiro, foi sepultado no cemitério São João Batista. O cortejo fúnebre foi acompanhado por aproximadamente 500 mil pessoas. Cento e dez anos depois de seu nascimento, Carmen Miranda ainda é considerada um ícone mundial.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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