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Comentários controversos e morto pelo próprio filme: a saga de John Wayne, o famoso cowboy de Hollywood

O ator foi uma das figuras mais importantes de sua época; mas, ainda assim, não escondia que era um supremacista branco

Isabela Barreiros Publicado em 20/04/2020, às 14h15

O ator estadunidense John Wayne
O ator estadunidense John Wayne - Getty Images

Um dos mais icônicos atores estadunidenses, John Wayne com certeza foi muito marcante no cinema de faroeste dos Estados Unidos. Seus filmes são considerados os maiores clássicos do gênero e são reverenciados e assistidos até os dias de hoje. Muito dedicado em seu trabalho, até mesmo sua morte pode estar relacionada a sua trajetória no cinema. Mas ainda assim é importante relembrar seus controversos episódios e posicionamentos políticos.

Trajetória no cinema

Vencedor de Oscar e Globo de Ouro, Wayne se tornou símbolo máximo dos filmes sobre faroeste, tão representativos da cultura americana. Começou a se tornar destaque no cinema com o filme A Grande Jornada, de 1930, mas, muito rapidamente, teve sua carreira alavancada com enormes sucessos.

No Tempo das Diligências (1939), O céu mandou alguém (1948), Onde Começa o Inferno (1959), entre muitos outros, marcaram essa trajetória. Carruagens fugindo de criminosos; o combate a indígenas; agricultores e suas famílias tirando o sustento de terras hostis; tiros para todos os lados em estradas de ferro: tudo isso se fixou no imaginário sobre os Estados Unidos da época.

No entanto, nem tudo eram flores. Em 1956, o filme The Conqueror (Sangue de Bárbaros, em tradução livre), que tinha Wayne em seu elenco, causou inúmeras controversas. Rodado por 13 semanas no Parque Estadual de Snow Canyon, em Utah, o set estava situado a apenas 220 km da Área de Testes de Nevada, um local estabelecido para a realização de testes nucleares ao ar livre.

Cena do filme The Conqueror / Crédito: RKO Radio Pictures / Universal Pictures

 

Todos estavam cientes sobre os perigos decorrentes da radiação, cujo pó radioativo – levado pelo vento – se precipitou justamente sobre o parque de Snow Canyon. As consequencias dessa gravação, porém, viriam anos depois, quando grande parte do elenco e da equipe começaram a desenvolver câncer numa escala assustadora.

O próprio John Wayne, Susan Hayward e Agnes Moorehead padeceram de câncer na década de 1970. Na seguinte, 90 membros da equipe de 220 pessoas desenvolveram tumores malignos e 46 morreram. Já em 1991, seria a vez de John Hoyt, que veio a óbito após adquirir câncer no pulmão. 

Por mais que Wayne fumasse mais de seis maços de cigarro por dia, essa causa não colou — o que provavelmente causou sua morte foi seu papel no cinema. Segundo Robert Pendleton, na época professor de biologia da Universidade de Utah, as mortes podem ser consideradas como uma epidemia.

"Tem sido praticamente impossível provar a conexão entre a radiação e o câncer desenvolvidos em casos individuais. Mas em um grupo desse tamanho, você esperaria que apenas 30 casos de câncer fossem desenvolvidos. Com 91 casos, acho que o vínculo com a exposição no set de filmagens de The Conqueror deveria ser levado ao tribunal”, explicou.

As polêmicas

O ator em 1949 / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ainda que tivesse sido um dos mais importantes atores de sua época, durante sua vida, no entanto, o artista teve posicionamentos, no mínimo, controversos. Membro do John Birch Society, um grupo de pressão política anticomunista de extrema-direita, ele também foi filiado ao Partido Republicano.

Wayne nunca escondeu suas ideologias racistas e homofóbicas. Por mais que boa parte de suas visões tenham sido esquecidas em prol de seu legado no cinema, isso ficou claro em uma entrevista dada pelo ator à revista masculina estadunidense Playboy, em 1971, que voltou à tona recentemente e foi reproduzida pelo jornal diário The Washington Post.

A entrevista

"Acredito na supremacia branca", afirmou, simplesmente o ator durante a conversa. "De repente, não podemos nos ajoelhar e entregar tudo à liderança dos negros. Não acredito em dar autoridade e posições de liderança e julgamento a pessoas irresponsáveis”, disse também sobre os afro-americanos.

Somente isso já seria o suficiente para afirmar o conservadorismo preconceituoso de Wayne. Mas muitas outras falas ditas por ele ajudam a confirmar seus posicionamentos reacionários que ainda estão sendo combatidos nos dias de hoje.

Crédito: Pixabay

 

Quanto à escravidão, declarou que não sentia culpa alguma: "Não me sinto culpado pelo fato de que cinco ou dez gerações atrás essas pessoas eram escravas. Agora, não estou perdoando a escravidão. É apenas um fato da vida, como o garoto que sofre de paralisia infantil e precisa usar aparelho para não jogar futebol com o resto de nós”.

Em seus filmes, muitas vezes se passavam cenas de conflitos com nativos-americanos, que estavam no território antes da chegada dos europeus. "Não acho que tenhamos errado em tirar esse grande país deles, se é isso que você está perguntando", afirmou o ator. “Nosso chamado roubo deste país deles era apenas uma questão de sobrevivência. Havia um grande número de pessoas que precisavam de novas terras, e os índios tentavam egoisticamente mantê-las para si”, concluiu.

Além disso tudo, também fez comentários homofóbicos, exaltando relacionamentos entre homens e mulheres e desdenhando de filmes, que qualificou como “pervertidos, como Easy Rider e Midnight Cowboy.


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