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Dever e piedade: quando a mãe do Príncipe Philip salvou uma família de judeus do Holocausto

Durante a Segunda Guerra, Alice de Battenberg fez história ao permitir que três alvos da Gestapo se escondessem em sua casa

Fabio Previdelli/Atualizado por Pamela Malva Publicado em 12/04/2021, às 18h00

Retrato de Alice de Battenberg com seu vestido de noiva
Retrato de Alice de Battenberg com seu vestido de noiva - Wikimedia Commons

Entre 1939 e 1945, milhares de histórias se cruzaram durante a Segunda Guerra Mundial. Fossem médicos, vendedores ou soldados, indivíduos de diversos contextos se encontraram em um mesmo conflito, cercados por terror e muitas incertezas.

Com o passar dos anos, além das vítimas que nunca serão esquecidas, o mundo também conheceu o nome de pessoas que mudaram o rumo da história. Lutando contra os soldados da Alemanha ou abrigando judeus em suas casas, tais cidadãos não se conformaram com o que estava acontecendo e decidiram tomar providências.

Esse foi o caso da princesa Alice de Battenberg, a mãe do Príncipe Philip e bisneta da Rainha Vitória. Mesmo com membros da SS em sua família, ela fez questão de esconder os Cohen, membros de uma família judia perseguida, em sua própria casa.

Princesa Alice e seu filho príncipe Philip, Duque de Edimburgo / Crédito: Getty Images

 

Uma herdeira brilhante

Descendente direta da RainhaVitória, Alice é lembrada por muitas coisas. Com apenas 18 anos, ela escolheu se casar com um príncipe grego; aos 45, ela passou dois anos em um asilo após um diagnóstico de esquizofrenia e, mais tarde, estabeleceu uma ordem de freiras, doando todos os seus bens antes de morrer, em 5 de dezembro de 1969. 

Porém, dentre todos os seus feitos, o episódio ocorrido na Segunda Guerra Mundial é um dos mais marcantes, ainda que pouco conhecido. Isso porque, durante o conflito, Alice viveu momentos temerosos e bastante distintos.

Afinal, além de ter um filho lutando na Marinha Real Britânica, a mulher ainda tinha genros defendendo o lado alemão. Seu primo, o príncipe Vítor de Erbach-Schönberg, por exemplo, era o embaixador alemão na Grécia ocupada.

Sua cunhada, a grã-duquesa Helena Vladimirovna da Rússia, por outro lado, viveu em Atenas durante a maior parte da guerra, enquanto grande parte de sua família se exilou na África do Sul. Grande parte dos parentes de Alice, então, estava envolvida no conflito.

Retrato de Alice com sua coroa / Crédito: Wikimedia Commons

 

A vida na Segunda Guerra

Em plena batalha, Alice se mudou para um singelo apartamento no centro que Atenas, que era propriedade de seu cunhado, o príncipe Jorge. Por lá, ela trabalhou na Cruz Vermelha, ajudando a organizar a distribuição de sopas para a população faminta.

Fora isso, periodicamente, a princesa viajava até a Suécia, sob o pretexto de visitar sua irmã. Em segredo, no entanto, ela ia até lá para buscar suplementos médicos para os necessitados. Assim, organizou um abrigo para crianças órfãs e abandonadas.  

Aparentemente, as forças de ocupação presumiam que a princesa tendia a apoiar o Eixo, já que um de seus genros, o príncipe Cristóvão de Hesse, era membro do Partido Nazista e da Waffen-SS, enquanto outro, Bertoldo, Marquês de Baden, havia lutado pelo exército alemão até ser invalidado em 1940.  

Porém, quando Mussolini caiu, em 1943, os alemães ocuparam Atenas, local onde muitos judeus haviam buscado refúgio. Assim, a grande maioria deles, cerca de 80 mil, foram enviados até os campos de concentração nazistas. Apenas dois mil judeus que viveram por lá sobreviveram — e Alice foi responsável pela salvação de alguns deles.

Retrato da Princesa Alice / Crédito: Wikimedia Commons

 

A princesa e os Cohen 

Com a perseguição, a pricesa escondeu em sua morada a viúva judia Rachel Cohen e dois de seus cinco filhos, que eram fugitivos da Gestapo. A relação entre eles começou em 1919, quando Haimaki Cohen, esposo de Rachel, havia ajudado o rei Jorge I da Grécia.  

Com isso, em troca, Jorge havia ficado em dívida com ele, dizendo que lhe ajudaria quando precisasse de qualquer coisa. Assim, com as ameaças aos judeus cada vez mais incisivas, um de seus filhos resolveu cobrar o prometido. Alice não hesitou em cumprir a promessa feita por seu sogro e abrigou os três em sua própria casa.  

“O que a princesa Alice fez, ela salvou toda a família”, disse, em entrevista ao The Guardian, a jovem Evy Cohen, cuja avó, tia e tio se esconderam na residência real em Atenas durante a ocupação nazista da Grécia. “É claro que eu não estaria viva, não estaria aqui, não teria nascido se não fosse por ela."

Para realizar tal feito, Alice, que nasceu com problemas auditivos, brincava com sua surdez ao ser questionada pelas suas filhas e por seus genros, que eram oficiais da SS, sobre quem vivia junto a ela na residência. A fim de contornar a situação, a princesa desconversava e alegava que era apenas uma babá quem morava no andar de cima.

Da esquerda para a direita, Tilde, Alfred, Haimaki e Rachel Cohen, em 1941 / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal/ Evy Cohen

 

O reconhecimento de Alice 

Após a morte da princesa, os Cohen iniciaram um processo junto ao Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, para conceder a ela o prêmio “Justo entre as Nações”, que é dado aos não judeus que salvaram os judeus durante o Holocausto.

O prêmio foi recebido pelo Príncipe Philip em 1994, em uma cerimônia em Jerusalém. Na ocasião, ele declarou que sua mãe nunca havia lhe contado sobre os Cohen. “Eu suspeito que nunca ocorreu a ela que sua ação foi de alguma forma especial. Ela teria considerado isso uma reação humana perfeitamente natural a outros seres em perigo”. 

Em biografia sobre a princesa, Hugo Vickers conta que, anos após a Guerra, Alice foi abordada por um membro dos Cohen, cujo objetivo era agradecer tudo aquilo que a herdeira teria feito por sua família. Na ocasião, segundo o biógrado, “ela disse com rispidez que só tinha feito o que acreditava ser seu dever”.

Princesa Alice e seu marido, o Príncipe Andrew / Créditos: Wikimedia Commons

 

Heranças de uma luta

Joel Zisenwine, historiador do Holocausto e diretor do departamento do Justo entre as Nações, disse que era importante lembrar que os resgatadores eram raros em uma Europa dos anos 1940 cheia de antissemitismo e indiferença.  

“O resgate em geral foi, infelizmente e tragicamente, um fenômeno bastante marginal”, declarou. “Você também pode falar sobre indiferença ao estado dos judeus, hostilidade para com os judeus, até mesmo colaboração ativa de vários elementos e setores da sociedade local com a Alemanha nazista.” 

Além disso, Zisenwine diz que o status da princesa não teria, necessariamente, garantido sua proteção perante a ameaça nazista. “Definitivamente, há uma sensação de risco envolvida aqui. Eu não acho que você pode menosprezar isso”.


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