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Como cartas de 300 anos tiveram o conteúdo revelado sem serem destruídas

Em março deste ano, pesquisadores encontraram uma alternativa para ler cartas, que, caso abertas de forma tradicional, poderiam ser destruídas

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 19/09/2021, às 10h00

Fotografia mostrando cartas analisadas
Fotografia mostrando cartas analisadas - Divulgação/ Unlocking History Research Group

Papel já não é um material muito resistente, mas sua fragilidade definitivamente pode alcançar outros níveis quando exposto à ação do tempo.

O que é um obstáculo para os historiadores que querem saber que correspondências pessoas de séculos atrás mandavam umas para as outras. 

Antes da popularização do uso de envelopes que podiam ser lacrados, métodos mais criativos precisavam ser empregados para garantir que apenas os destinatários pudessem ler as cartas enviadas, sem que a mensagem fosse interceptada por terceiros. 

Motivo de dor de cabeça para historiadores

Um deles era o "letterlocking" (Ou "bloqueio de cartas", em tradução livre), que consistia em transformar o papel escrito em uma intrincada mistura de dobraduras, furos e adesivos estratégicos que tornariam evidente caso alguém que não fosse o destinatário tentasse ler a correspondência. 

Fotografia mostrando um exemplo de letterlocking / Crédito: Wikipedia Commons/ Jldbb

 

Até por volta de 1830, essa era uma prática amplamente disseminada, segundo explicou o professor Daniel Starza Smith em entrevista à BBC em 2021. 

"Não importava se era uma carta comercial, se era uma carta de amor, se era uma carta de espionagem, se era uma carta diplomática, todas usavam o 'letterlocking'. Portanto, não era algo confinado a especialistas, realeza ou espiões mestres. Qualquer um que era capaz de enviar uma carta usava o 'letterlocking'", contou ele. 

O problema é que, agora que essas mensagens do passado se tornaram documentos de valor histórico, o papel se tornou muito frágil, e frequentemente a tentativa de desfazer as dobraduras resultam na danificação da carta. 

No entanto, um time de especialistas do aclamado Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) encontrou uma solução para a dificuldade ao usar uma combinação entre raio-X e algoritmos para ler o conteúdo de correspondências sem precisar abri-las. 

Bisbilhotando o passado

Em março deste ano, quando os primeiros avanços dos cientistas foram divulgados ao público, eles já haviam sido capazes de decifrar as mensagens contidas em quatro cartas fechadas que usavam letterlocking e pertenciam ao período que compreende entre 1680 e 1706.

Eles primeiro submeteram os papeis ao raio-X, que permitiu que eles identificassem as letras. A dificuldade aqui é que elas estavam sobrepostas, por conta das dobraduras.

A maneira encontrada para contornar a questão foi criar um modelo digital das correspondências. Em seguida, com a ajuda de um algoritmo, realizar o desdobramento de uma carta feita de pixels, e não de materiais de 300 anos atrás. 

Outros planos

O objetivo dos pesquisadores, todavia, é muito mais ambicioso que esse primeiro punhado de cartas: eles pretendem revelar os segredos da Coleção Brienne, que é um conjunto de mais de 3 mil documentos que foi encontrado nos Países Baixos.

Em meio à coletânea, existem 577 cartas nunca abertas antes. Com o método, será finalmente possível lê-las sem destruir o papel no processo. O grande diferencial do estudo, vale enfatizar, foi o software usado.

O uso do raio-X já foi feito antes, mas até então apenas dobraduras mais simples haviam sido decodificadas, enquanto as da Coleção Brienne são mais sofisticadas do que a maioria, tornando-as mais desafiadoras. 

Confira abaixo um vídeo mostrando um tutorial de letterlocking.