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Como era a vida em Esparta?

Os guerreiros mais conhecidos da Antiguidade vinham de uma sociedade que girava em torno da guerra, com características singulares

Redação Publicado em 21/10/2019, às 09h00

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Getty Images

Os meninos eram apartados de casa quando faziam 7 anos. O Estado se encarregava de treiná-los como guerreiros. Não qualquer guerreiro. Eles seriam soldados espartanos, os militares mais capacitados, temidos, odiados e perfeitos da Antiguidade. Mas qual era o segredo da cidade para forjar militares tão formidáveis? A origem da tradição talvez resida nas Leis de Licurgo, legislador do século 8 a.C. que deixou um código determinando praticamente tudo na vida de um espartano.

Por volta do ano 1000 a.C., a cidade foi conquistada pelos dóricos, que se consideravam descendentes do semideus Héracles (o Hércules romano). Eles estabeleceram uma monarquia dual, com reis de diferentes dinastias. “A dualidade levava a conselhos divididos, rivalidades dinásticas, ansiedades de sucessão, luta faccional”, diz Paul Cartledge, da Universidade de Cambridge.

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Estátua de guerreiro Hoplita / Crédito: Wikimedia Commons

Entretanto, as decisões mais importantes eram tomadas por cinco representantes eleitos e pela Gerúsia, formada por 28 cidadãos com mais de 60 anos – sempre com base nas Leis de Licurgo. E o principal tópico da legislação era que o cidadão de Esparta não trabalharia na terra, não praticaria o comércio nem ganharia a vida como artesão. A única atividade nobre para o cidadão era a guerra. E eles passavam a vida treinando para ela.

Enquanto em outras cidades gregas as pessoas dividiam o tempo entre o treinamento militar e os afazeres cotidianos, a vida do espartano era focada no combate. O Estado estava tão impregnado na vida privada que cabia à Gerúsia decidir quais bebês deveriam viver (nas outras cidades, que também praticavam o infanticídio, a decisão cabia ao pai, não ao governo).

Comportamento

O comportamento de um espartano era bastante curioso. Até os 30 anos, ele não tinha uma casa para chamar de sua. Morava com a tropa, em geral em barracos, na periferia da cidade ou em tendas de campanha, algo esperado para quem nasceu para guerrear. Segundo o historiador Scott Rusch, autor de Sparta at War, a razão é que eles eram apenas jovens cidadãos, ainda que focados no combate. Como não eram soldados, não fazia sentido viver em quartéis.

Em uma Esparta com poucas mulheres que passavam boa parte do tempo longe dos filhos e dos maridos, a condição feminina era bem distinta se comparada a outras cidades gregas. Elas faziam exercícios ao ar livre, usavam pouca roupa e tinham senso de humor. Um ateniense perguntou a Gero, mulher do general Leônidas, por que as espartanas mandavam nos homens. “Porque somos as únicas que podem gerar homens”, respondeu. Elas podiam ter até casamentos poliândricos (uma mulher com mais de um parceiro), se os maridos concordassem – como a geração de novos guerreiros era a prioridade, casamentos múltiplos tornaram-se um jeito de resolver o problema.

Império da Modéstia

Os espartanos preferiam se referir às suas terras pelo nome da região, Lacônia ou Lacedemônia. Daí vinha a letra lambda – λ – em seus escudos. De acordo com as lendas gregas, Lacedemon era um filho de Zeus com a ninfa Taigete, que fundou um reino na Península do Peloponeso. Ele batizou seu país em sua própria homenagem, e a capital, em honra à esposa, Esparta.

A cidade era formada por quatro vilas com uma acrópole central, onde havia o templo de Ártemis e o dedicado a Atena. As ruínas são poucas. “Não há sinais de edificações de nenhuma natureza, exceto os templos. O que faz muitos suporem que as construções eram de madeira”, diz a historiadora Maria Aparecida de Oliveira Silva, da USP.

Até o reinado do tirano Nabis, não havia muros, uma manifestação da confiança que depositavam na ponta de suas lanças. O general ateniense Tucídides (460-395 a.C.) visitou a cidade e escreveu, profeticamente: “Suponha, por exemplo, que a cidade de Esparta se tornasse deserta e que apenas os templos e as fundações dos prédios sobrevivessem. As gerações do futuro achariam difícil acreditar que o lugar foi tão poderoso como representado”.

Femmes Fatales

Em comparação com outras mulheres da Grécia, as espartanas eram liberadas. Outros gregos ficavam chocados com seu despudor, usando pouca roupa e não se incomodando em dizer o que lhes vinha à telha. As Leis de Licurgo proibiam o uso de maquiagem ou joias - talvez por isso fossem famosas por sua beleza natural. Eram mais altas que as outras gregas porque as famílias não privilegiavam os filhos homens na hora da refeição, podendo as mulheres receber uma alimentação também satisfatória.

O casamento espartano começava com um ritual de violação. A noiva raspava a cabeça e se vestia de homem, e era raptada da casa dos pais. Frequentemente, ocorria uma relação violenta. E pronto, estavam casados. A "cerimônia" humilhante era uma forma de impor submissão às mulheres -- mesmo assim, as espartanas tinham fama de mandar nos maridos.

Homossexualidade

As Leis de Licurgo proibiam atos homossexuais. Mas, como outros gregos, espartanos tinham um tutor mais velho quando eram jovens, e falavam frequentemente em amor duradouro entre esses pares. Se esse amor era platônico ou não, é um tema ainda hoje controverso.


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