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Como foram os primeiros anos de Fidel Castro no poder de Cuba?

Após a Revolução Cubana, ele enfrentou contratempos com o governo dos EUA e oposição

Eduardo Szklarz Publicado em 12/07/2021, às 19h14

Fidel Castro durante uma Conferência, em 2001
Fidel Castro durante uma Conferência, em 2001 - Getty Images

Dezembro de 1959: a Revolução Cubana está prestes a festejar seu primeiro aniversário. Mas o governo americano não vê nenhum motivo para comemoração. Ao contrário, circulam pelos corredores da Casa Branca fuxicos que preocupam o presidente Eisenhower.

No dia 11, o coronel J. C. King, chefe da divisão ocidental da CIA, enviou um memorando para Allen Dulles, seu superior em Washington, informando que Fidel Castro já tinha estabelecido em Cuba uma ditadura de extrema esquerda. Agentes da central de inteligência previam que o novo regime reforçaria seu apoio a movimentos revolucionários em outros países da América Latina. E mais: uma “rápida nacionalização de bancos, indústrias e comércio” estava por vir.

“Nos dias seguintes, Allen Dulles apresentou o documento ao Conselho  de Segurança. E o órgão aprovou a sugestão de criar uma equipe de trabalho que, em pouco tempo, encontrasse soluções para o problema cubano”, relata Fabián Escalante Font, ex-chefe dos serviços de contrainformação de Fidel Castro, no livro Cuba: La Guerra Secreta de la CIA (Cuba: A Guerra Secreta da CIA).

A preocupação de Eisenhower era justa. Afinal, os Estados Unidos tinham muitos interesses econômicos em jogo. Os maiores bancos americanos e grandes companhias – entre elas, a gigante das frutas tropicais United Fruit e as petrolíferas Texaco e Exxon – estavam instalados em território cubano. E o pior: nascido logo ali, no quintal caribenho de Tio Sam.

Fidel Castro parecia ter coragem de enfrentar a potência. Assim que foi empossado, em fevereiro de 1959, o primeiro governo revolucionário – com o moderado Manuel Urrutia Lleó na presidência e Fidel no cargo de primeiro-ministro – deu início a reformas ousadas e extremamente populares. Logo de cara, baixou por decreto o valor dos aluguéis (50%), a taxa de luz (30%) e o preço dos livros escolares (25%).

Fidel Castro, líder cubano / Crédito: Getty Images

 

Uma lei de confisco tomou para o Estado os bens do ditador Fulgêncio Batista e seus associados: 14 fábricas de açúcar, a Companhia Cubana de Aviação, a Interamericana de Transportes, quase toda a indústria têxtil da ilha e um hotel. Empresas suspeitas de favorecimento ilícito sofreram intervenção. Imóveis supostamente comprados com dinheiro proveniente de corrupção foram expropriados. E a indústria do jogo simplesmente desapareceu. Praias controladas por clubes requintados à beira-mar, muitas vezes proibidas aos negros, foram abertas para toda a população.

A transformação mais radical do primeiro ano de revolução, contudo, veio com a reforma agrária, em maio de 1959. “As terras de americanos, quase 75% de toda a área cultivável, e também as da família Castro, estavam entre as primeiras nacionalizadas”, escreve a pesquisadora carioca Claudia Furiati em Fidel Castro: Uma Biografia Consentida.

Todas as propriedades com mais de 420 hectares foram repartidas entre 200 mil famílias camponesas. O apoio popular à revolução era total. E vivia-se um clima de euforia e esperança jamais visto, nos quatro cantos da ilha. Mas os ricos e a classe média entraram em pânico. Entre os anos de 1959 e 1961, cerca de 256 mil cubanos deixaram o país, principalmente para os Estados Unidos. Quase todos brancos e remediados.

Quem ficou e não aderiu ao regime passou a ser visto como uma ameaça à revolução. Integrantes do governo de Batista foram julgados em tribunais de fachada e condenados à morte por fuzilamento. Estima-se que apenas nos dois primeiros meses de 1959, pelo menos 400 foram levados ao paredón. Na imprensa internacional, as execuções viravam notícias com “atos de barbárie” e “banho de sangue” invariavelmente estampados nas manchetes.

Entre potências

A presença de moderados no primeiro governo revolucionário de Cuba, de início, acalmou os americanos. Mas perseguição política e fuzilamentos em série acabaram produzindo as primeiras faíscas entre os dois países. Em abril de 1959, Fidel Castro até embarcou numa viagem oficial aos Estados Unidos, com passagens por Washington e Nova York, na esperança de tranquilizar Eisenhower. Todo o seu esforço, porém, foi por
água abaixo logo em seguida, com o anúncio da reforma agrária cubana. O presidente americano deu carta branca para o serviço de inteligência planejar a deposição de Fidel.

Fidel Castro, durante passeata em 2001 / Crédito: Getty Images

 

No início de 1960, Cuba decidiu abrigar-se sob as asas da União Soviética. Num acordo econômico camarada, Moscou comprometeu-se a comprar 5 milhões de toneladas de
açúcar cubano nos cinco anos seguintes. E mais: forneceria petróleo, alimentos e crédito ilimitado. Essa foi a gota d’água para os EUA.

Em março, Eisenhower ordenou um boicote econômico à ilha. A resposta não demorou. Bancos e grandes companhias americanas foram expropriados. Em janeiro de 1961, a tensão atingiu o ápice. Washington rompeu relações diplomáticas com Havana. A União Soviética acompanhou a tudo comendo pipoca. Os EUA jogavam em seu colo um aliado a 170 quilômetros de casa.

Quando John Kennedy assumiu a Casa Branca, em janeiro de 1961, a crise parecia não ter mais volta. Diante disso, o presidente tomou uma decisão da qual se arrependeria
profundamente: no dia 15 de abril, autorizou uma invasão à Baía dos Porcos, um passo do plano para tirar Fidel do poder. Dois dias mais tarde, uma brigada de 1,4 mil
anticomunistas cubanos – com apoio da CIA e das Forças Armadas americanas –
desembarcaria na ilha e seria arrasada pelo Exército Revolucionário em horas. Isso selaria o destino do país. Cuba jamais perdoaria a ofensa.


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