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Como a mãe do Príncipe Philip salvou uma família dos nazistas

“Ela teria considerado isso uma reação humana perfeitamente natural a outros seres em perigo”, disse o príncipe sobre o fato de sua mãe nunca ter comentado sobre o episódio

Fabio Previdelli Publicado em 27/01/2021, às 13h30

Retrato de Alice de Battenberg sentada em uma cadeira
Retrato de Alice de Battenberg sentada em uma cadeira - Wikimedia Commons

Mãe do príncipe Philip e bisneta da Rainha Vitória, a princesa Alice de Battenberg é lembrada por muitas coisas: casar com um príncipe grego; passar dois anos em um asilo após um diagnóstico de esquizofrenia e até mesmo estabelecer uma ordem de freiras, doando todos os seus bens antes de morrer em 5 de dezembro de 1969. 

Porém, dentre todos esses, existe um episódio em sua vida que poucos conhecem, mas que não deixa de ser signitficativo, muito pelo contrário. O fato em questão remete ao período da Segunda Guerra Mundial, quando ela protegeu a perseguida família judáica Cohen dos nazistas e de seus simpatizantes, o que incluía alguns de seus próprios familiares.  

A vida de Alice na Segunda Guerra 

Durante o conflito, Alice viveu momentos temerosos e distintos, afinal, além de ter um filho lutando na Marinha Real Britânica, ela tinha genros defendendo o lado alemão. Seu primo, o príncipe Vítor de Erbach-Schönberg, por exemplo, era o embaixador alemão na Grécia ocupada. Já sua cunhada, a grã-duquesa Helena Vladimirovna da Rússia, viveu em Atenas durante a maior parte da guerra, enquanto grande parte de sua família se exilou na África do Sul.  

Princesa Alice e seu filho príncipe Philip, Duque de Edimburgo / Crédito: Getty Images

 

Durante esse período, Alice se mudou para um singelo apartamento na capital do país, que era propriedade de seu cunhado, o príncipe Jorge. Por lá, ela trabalhou na Cruz Vermelha, ajudando a organizar a distribuição de sopas para a população faminta. Fora isso, periodicamente, viajava até a Suécia, sob o pretexto de visitar sua irmã, no entanto, ela ia até lá para buscar suplementos médicos para os necessitados. Assim, organizou um abrigo para crianças órfãs e abandonadas.  

Aparentemente, as forças de ocupação presumiam que a princesa tendia a apoiar o Eixo, já que um de seus genros, o príncipe Cristóvão de Hesse, era membro do Partido Nazista e da Waffen-SS, enquanto outro, Bertoldo, Marquês de Baden, havia lutado pelo exército alemão até ser invalidado em 1940.  

Porém, quando Mussolini caiu, em 1943, os alemães ocuparam Atenas, local onde muitos judeus haviam buscado refúgio. Assim, a grande maioria deles, cerca de 80 mil, foram enviados até os campos de concentração nazistas. Apenas dois mil judeus que viveram por lá sobreviveram — e Alice foi responsável pela salvação de alguns deles.

A princesa e os Cohen 

Com a perseguição, a pricesa escondeu em sua morada a viúva judia Rachel Cohen e dois de seus cinco filhos, que eram fugitivos da Gestapo. A relação entre eles começou em 1919, quando Haimaki Cohen, esposo de Rachel, havia ajudado o rei Jorge I da Grécia.  

Com isso, em troca, Jorge havia ficado em dívida com ele, dizendo que lhe ajudaria quando precisasse de qualquer coisa. Assim, com a perseguição cada vez maior aos judeus, um de seus filhos resolveu cobrar o prometido. Alice não hesitou em cumprir a promessa feita por seu sogro e abrigou os três em sua casa.  

Da esquerda para a direita, Tilde Cohen, Alfred Cohen, Haimaki Cohen e Rachel Cohen em 1941 / Crédito: Divulgação/ Arquivo Pessoal/ Evy Cohen

 

“O que a princesa Alice fez, ela salvou toda a família”, disse Evy Cohen, em entrevista ao The Guardian, cuja avó, tia e tio se esconderam na residência real em Atenas durante a ocupação nazista da Grécia. “É claro que eu não estaria viva, não estaria aqui, não teria nascido se não fosse por ela”. 

Para tal feito, Alice, que nasceu com problemas auditivos, brincava com sua surdez ao ser questionada pelas suas filhas e por seus maridos, que eram oficiais da SS, sobre quem vivia junto a ela no imóvel. Para contornar a situação, a princesa desconversava e alegava que era apenas uma babá que morava no andar de cima.  

O reconhecimento de Alice 

Após a morte da princesa, os Cohen iniciaram um processo junto ao Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, para conceder a ela o prêmio “Justo entre as Nações”, que é dado aos não judeus que salvaram os judeus durante o Holocausto.

O prêmio foi recebido pelo príncipe Philip em 1994, quando ele compareceu a uma cerimônia em Jerusalém. Na ocasião, declarou que sua mãe nunca havia lhe contado sobre os Cohen. “Eu suspeito que nunca ocorreu a ela que sua ação foi de alguma forma especial. Ela teria considerado isso uma reação humana perfeitamente natural a outros seres em perigo”. 

O biógrafo da princesa Alice, Hugo Vickers, escreveu que, anos depois, quando foi abordada por um membro dos Cohen, que queria agradecer tudo que ela fez por sua família, “ela disse com rispidez que só tinha feito o que acreditava ser seu dever”. 

Princesa Alice e seu marido, o Príncipe Andrew em Atenas, no ano de 1921 / Créditos: Getty Images

 

Joel Zisenwine, historiador do Holocausto e diretor do departamento do Justo entre as Nações, disse que era importante lembrar que os resgatadores eram raros em uma Europa dos anos 1940 cheia de antissemitismo e indiferença.  

“O resgate em geral foi, infelizmente e tragicamente, um fenômeno bastante marginal”, declarou. “Você também pode falar sobre indiferença ao estado dos judeus, hostilidade para com os judeus, até mesmo colaboração ativa de vários elementos e setores da sociedade local com a Alemanha nazista.” 

Além disso, Zisenwine diz que o status da princesa não teria, necessariamente, garantido sua proteção perante a ameaça nazista. “Definitivamente, há uma sensação de risco envolvida aqui. Eu não acho que você pode menosprezar isso”.


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