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Como Maria Bonita abriu portas para as mulheres no cangaço

O autor Wagner G. Barreira contou ao site Aventuras na História que, no bando de Lampião, o sexo não era tão constante, homens cozinhavam e lavavam roupas e as moças não eram mais que as companheiras dos cangaceiros

Isabela Barreiros Publicado em 19/11/2020, às 08h00

Bando de Virgínio Fortunato da Silva em 1936
Bando de Virgínio Fortunato da Silva em 1936 - Wikimedia Commons

Foi o amor que mudou as relações entre homens e mulheres no cangaço. Antes de Maria Bonita e Lampião se apaixonarem, os nômades nordestinos conhecidos como cangaceiros não aceitavam moças no bando. Para eles, aquela não era vida para uma mulher: elas requeriam muito mais que poucos banhos e caminhadas longas no sertão.

Quando o chefe do grupo decidiu que sua companheira entraria de vez para o cangaço, não havia argumento contrário possível, afinal, ele era quem mandava. Em vez de não se acostumarem à situação inédita, os outros cabras de Virgulino fizeram exatamente o contrário. 

Com a entrada de Maria Bonita para o bando, outras mulheres também a seguiram. Muitas vieram por vontade própria, tentando escapar da vida monótona da região e às vezes de seus maridos abusivos, contudo, outras foram obrigadas, estupradas e sequestradas por homens do grupo. 

Mulheres no cangaço / Crédito: Wikimedia Commons

 

Wagner G. Barreira, autor do livro Lampião e Maria Bonita: Uma história de amor entre balas (2018), explica em entrevista exclusiva à Aventuras na História que a lista de motivos para a exclusão das mulheres era longa para os cangaceiros: além de foras da lei, eles eram nômades, e, estando em constante movimento, existiam alguns problemas.

“O cangaço era o clube do bolinha, não tinha mulher. Na opinião dos cangaceiros na época, as mulheres atrapalhavam e tinham necessidades que eles não conseguiam atender, precisavam de mais tempo para ficarem paradas, engravidavam”, conta o jornalista. Um coronel pernambucano, responsável por colocar Lampião no cangaço, afirmava ainda que as moças dividiam o bando.

“Tinha um componente adicional para as mulheres não participarem do cangaço, que eram as superstições, as crenças dos cangaceiros”, diz Barreira. “Eles acreditavam, por exemplo, que o sexo abria o corpo e deixava o cangaceiro sem proteção contra as balas da polícia. Os cangaceiros eram figuras, como o nordestino e o sertanejo no geral, muito místicas. Eles tinham que tomar banho, se purificar, e ninguém tinha uma garantia de quando o corpo ia fechar de novo. Então tinha esse caldo de cultura que já afastava as mulheres do bando”.

Reproduzindo valores

Com toda essa lista de fatores, mesmo que Lampião tivesse ido contra a tradição que se seguia no cangaço, o autor opina que essa mudança no geral não foi, ao contrário do que se possa imaginar, completamente revolucionária para o cangaço. As práticas comuns da sociedade da época ainda eram vistas dentro do meio. 

Segundo ele, “o cangaceiro não inventava um modelo, ele reproduzia os valores que tinha quando não era cangaceiro, de quando era criança, que aprendeu com os pais. E era uma sociedade bem machista”. 

As mulheres, portanto, não tinham um grande papel dentro do cangaço. Embora Maria Bonita fosse a mulher do líder, sua missão no bando era exatamente essa: ser a companheira de Virgulino. Nem ela, nem nenhuma outra mulher, tiveram funções formais na organização do grupo. 

Em uma rotina de constante tensão, elas não participavam de nenhum conflito comum à vida no cangaço, — na verdade, as moças não tinham nem ao menos armas. A única que elas poderiam carregar era uma pequena pistola usada para localização. Caso estivessem perdidas, por exemplo, dariam um tiro para cima e seriam resgatadas.

“A função das mulheres basicamente era a de companheira. Elas tinham a função sexual, que era óbvia, mas não tinha a frequência que você pode imaginar. Elas não estavam ali para sexo por conta daquela história do corpo fechado. O próprio sexo era regulado no cangaço. Elas eram mais companheiras, faziam roupas e ajudavam a costurar”, explica.

Bando de Lampião junto do fotógrafo Benjamin Abrahão Botto / Crédito: Wikimedia Commons

 

O cangaceiro já era responsável pela alimentação do bando antes da entrada das mulheres, além de lavarem as próprias roupas. As práticas mais domésticas, que poderiam ser as mais associadas ao feminino no bando, permaneciam impassíveis de alterações.

Mudanças de outro sentido foram vistas na época. A primeira foi a de diminuir o nomadismo. Eles passaram a ficar mais tempo em refúgios, fazendo acampamentos perto de cursos d’água e tomando mais banhos, “uma influência direta da chegada das mulheres”, segundo o autor.

Outro aspecto mencionado por Barreira foi o fato de que os cangaceiros começaram a ser mais respeitosos nos povoados que passavam. Isso aconteceu porque as mulheres eram, em sua maioria, da mesma região — no norte da Bahia — e todos possuíam algum grau de parentesco nas vilas. Os cabras de Lampião passaram a respeitar mais as famílias locais. 

Ainda assim, é possível perceber que não houve transformação de fato com a chegada das moças no bando. Segundo o jornalista, “elas não participavam do cangaço, eram mulheres de cangaceiros. Se elas estivessem vivendo com um vaqueiro, no sertão nordestino na década de 20, elas seriam mulheres dos vaqueiros”.

“A gente precisa ter muito cuidado quando lida com história para não correr risco de anacronismo. Maria Bonita, por exemplo, foi alçada ao posto de padroeira das feministas. Não existia feminismo no sertão nordestino no começo do século 20. Ela foi uma mulher muito aventureira, dona das próprias vontades, que se apaixonou depois de observar um cangaceiro de longe, e sua presença mudou um pouco a realização do cangaço. Não dá para dizer que foi um antes e depois radical”, conclui.


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