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Por trás das câmeras: Como atrizes de Hollywood seriam forçadas a abortar

Código de conduta moral das estrelas do cinema tinham cláusulas que iam muito além das telonas — interferindo, até mesmo, em suas vidas pessoais

Wallacy Ferrari Publicado em 28/12/2020, às 16h00

Garland em O mágico de Oz (1939)
Garland em O mágico de Oz (1939) - Wikimedia Commons

O início da indústria cinematográfica em Hollywood resultou em diversos equívocos de um modelo de negócio recém-chegado; fortunas e fama mal administradas proporcionaram momentos obscuros entre empresas, produtores e, principalmente, estrelas.

As atrizes, contrastando com o cenário estadunidense de segregação sexual no século 20, tinham a oportunidade de obter grandes rendas, porém, guiadas por uma indústria monopolizada por homens.

Conhecido como o “czar da indústria cinematográfica”, William Harrison Hays foi o diretor da Motion Picture Association of America e assumiu a empresa quando o cinema começava a enfrentar suas primeiras polêmicas.

Decidiu então unir diversas instituições cristãs para criar uma espécie de censura sem relação com o governo, nascendo assim, em 1922, um código de conduta moral no contrato das estrelas, com cláusulas que vão além da vida profissional.

William H. Hays discursando na reunião da Associação Nacional de Radiodifusores, em 1939 - Getty Images

 

Cláusulas acabariam interferindo no estado civil das atrizes, como Jean Harlow, que foi impossibilitada de se casar com William Powell para manter a imagem de “Loira Bombástica”; até mesmo em sua saúde, possibilitavam os estúdios a manipular a imagem de suas artistas da maneira mais vantajosa e lucrativa possível.

E em Old Hollywood, diferente do resto do país na época, o aborto era uma das alternativas mais convenientes para manter os negócios.

Jeanette MacDonald, cantora e atriz sensação no cinema em 1935, deu entrada no Good Shepherd Hospital com um registro de “infecção de ouvido”. Jean Harlow deu entrada no mesmo hospital por uma “apendicectomia”. Apenas os médicos e enfermeiras particulares poderiam acessar o quarto onde fora hospedada.

De acordo com o livro “The Fixers: Eddie Mannix, Howard Strickling and the MGM Publicity Machine”, de E. J. Fleming, ambas haviam feito um aborto a mando da direção da MGM, especificamente do chefe de estúdios da MGM Louis B. Mayer, que pediu a Howard Strickling para “se livrar do problema”, referindo-se a gravidez não desejada de suas contratadas. Em todas as ocasiões, o aborto era ocultado com justificativas distintas.

Em 1931, Joan Crawford, casada com Douglas Fairbanks Jr., acreditava estar grávida de um relacionamento extra-conjugal com Clark Gable. Para poupar a imagem da atriz e da empresa, Strickling agendou um aborto.

A atriz foi posteriormente orientada pela direção da MGM a informar ao marido que havia perdido o bebê após se acidentar durante as filmagens de “O Pecado da Carne”, escorregando no convés do navio utilizado para as gravações.

Bette Davis fez questão de solicitar o aborto: de acordo com a atriz em sua biografia, “The Girl Who Walked Home Alone”, se ela tivesse um filho, em 1934, “teria perdido o mais importante papel de sua carreira”, interpretando Mildred Rodgers em “Escravos do Desejo”. O papel lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

Ava Gardner fez um aborto arranjado enquanto estava casada com Frank Sinatra e passava por dificuldades financeiras, explicando que era necessário para não ser penalizada ou ter o contrato rescindido, como contou no livro “The Golden Girls of MGM”: “A MGM fez todos os arranjos para eu voar para Londres. Alguém do estúdio estava comigo o tempo todo. O aborto foi silencioso e muito discreto”.

Lana Turner e Judy Garland se cumprimentam em cerimônia privada da MGM / Crédito: Al Morch/Graphic House/Archive Photos/Getty Images

 

Além da necessidade de impedir a gestação de suas artistas, havia a necessidade de vender uma imagem casta de pureza, como ocorreu com Judy Garland, estrela de “O Mágico de Oz” interpretando Dorothy.

Conforme divulgado pela Vanity Fair, em 1941, Judy casou-se com David Rose sem a aprovação da MGM, que a obrigou a retornar ao trabalho em 24 horas, interrompendo sua lua de mel. Quando engravidou de Rose, sua mãe, Ethel Marion, negociou o aborto da filha com apenas 19 anos. Em 1943, Garland teve de abortar novamente, graças a uma gravidez de seu caso com Tyrone Power, uma das estrelas da MGM na época.

Tyrone também engravidou Lana Turner. Essa, especificamente, sofreu nas mãos da produtora. Além de abortar em seu caso com Tyrone, a “doce garota” ficou grávida do músico Artie Shaw, em 1941.

O quadro de estrelas da MGM em 1949, incluindo Ava Gardner, Judy Garland e Jeanette MacDonald - Getty Images

 

Quando Strickling tomou conhecimento, arranjou um aborto forçado, sem anestesia, em uma cama de hotel no Havaí. A mãe da atriz teve de tapar a boca da filha para não reverberar seus gritos de dor. O médico que realizou o procedimento recebeu US$ 500, descontados do salário de Lana.

Outras atrizes, como Loretta Young e Lupe Velez, passaram a ser boicotadas ao manifestar indecisão ao veredito quando ficaram grávidas. Loretta foi considerada uma rebelde nos bastidores da indústria; recusou o aborto por ser contra seus valores católicos e entregou a criança para um convento. Já Lupe não conseguiu viver com a decisão da empresa e cometeu suicídio.

Desde que os casos de ambas chegaram ao conhecimento da imprensa, os códigos de conduta de Hollywood passaram a serem avaliados de maneira mais inclusiva, gradativamente, possibilitando não só a administração de seus proventos financeiros e de suas liberdades criativas, mas, também, do governo de seus corpos.


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