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Como o candomblé enxerga o período da Quaresma?

Nesse período que se inicia, questiona-se sobre como as religiões vivem a época do ano que antecede a Páscoa

Redação Publicado em 02/03/2022, às 00h00 - Atualizado às 13h43

Cena de 'Candomblé | Retratos de Fé' da TV Cultura
Cena de 'Candomblé | Retratos de Fé' da TV Cultura - Divulgação/Vídeo/Youtube/TV Cultura

A Quaresma compreende os 40 dias que antecedem a Páscoa — que celebra a ressurreição de Jesus —, sendo uma tradição cristã que tem como intuito preparar os fiéis para o período posterior de comemorações, a partir de ações de penitência, como jejum e atos de caridade.

Antes do ínicio da Quaresma, que começa oficialmente nesta quarta-feira, 2, os brasileiros tiveram dúvidas sobre o período religioso. Com exclusividade ao site Aventuras na História, o Google informou que 'o que é Quaresma na umbanda', por exemplo, foi uma das dúvidas que mais cresceu sobre a Quaresma nos últimos 7 dias no Brasil, com alta de +160% no período, enquanto “o que é Quaresma para os evangélicos” subiu +140%.

Ainda pensando no período marcado pela tradição, as perguntas mais buscadas através do Google nos últimos 7 dias foram:

1. O que fazer na quaresma?

2. Pode batizar na quaresma?

3. O que acontece na quaresma?

4. Como se proteger na quaresma?

5. O que não pode fazer na quaresma?

6. O que não pode comer na quaresma?

7. Quais os dias que não pode comer carne na quaresma?

Assim, conversamos com pesquisadores para entender como ocorre a Quaresma em diferentes religiões. 

Neste ano, o período do calendário litúrgico do cristianismo para a Quaresma começa na Quarta-feira de Cinzas, em 2 de março, e permanecerá até o dia 14 de abril, trazendo um momento de reflexão para pessoas que seguem, em especial, as igrejas católica, ortodoxa, anglicana e luterana, todas cristãs.

No entanto, é possível entender que o período da Quaresma também impacta outras religiões, principalmente no Brasil, já que o cristianismo foi parte fundadora do país e continua sendo a principal fé da população — segundo uma pesquisa do Datafolha de 2020, 50% dos brasileiros são católicos, 31%, evangélicos, e 10% não possuem religião.

No mesmo levantamento, foi apontado ainda que cerca de 2% dos brasileiros seguem a Umbanda, o candomblé ou outras religiões afro-brasileiras. Nesse período que se inicia da Quaresma, fica a dúvida: essa época do ano tem algum impacto nessas religiões? E se sim, qual?

Para o candomblé, por exemplo, a história dessa relação vem de muito tempo e traz consequências do período da escravidão no Brasil, em que a religião era perseguida pelos que colonizaram e continuaram habitando o nosso país.

Quaresma para o Candomblé

“Em tempos de repressão, no início do culto no país, os escravizados necessitavam seguir o calendário cristão para que as festividades pudessem acontecer sem as batidas policiais”, explica Bàbá Joaquim de Ògún, autor de 'Eu, Você e os Orixás' e ativista religioso, ao site Aventuras na História.

O silêncio da igreja Católica no período da quaresma obrigou que os precursores do candomblé colocassem o ìtàn [histórias sagradas] do Olorogun no quadro de ajoduns [festas] de suas casas, justificando assim o recesso da mesma”, completa.
Bàbá Joaquim de Ògún / Crédito: Arquivo Pessoal

Segundo o autor, o Olorogun, que significa “‘Senhor da guerra”, em Iorubá, consiste na disputa entre boas e más energias, o que faz parte do nosso mundo. Ao fim da Quaresma, encerra-se também a batalha entre os Orixás e as influências negativas, com os Deuses Africanos salvando a humanidade.

É como ele detalha: “Oxalá, senhor do branco da paz, é contemplado na Sexta-feira Santa, simbolizando o fim do conflito. No Sábado de Aleluia, o condecorado é Ògún, Orixá que abre os caminhos para os demais Orixás. Ele é o protetor dos seres humanos ao lado de Bara [Exu], o nosso corpo sagrado em constante movimento. Ou seja, Olorogun nos prepara para um bom ano”.

Como destaca Bàbá Joaquim de Ògún, havia uma perseguição enorme com o culto de matriz africana por se tratar de uma crença que surgiu com o povo escravizado. Por isso, muitas casas de candomblé eram fechadas durante as celebrações da quaresma.

Crédito: Arquivo Pessoal

As casas que tentavam fazer seus toques fora do calendário cristão acabavam em evidência, o que atraía os intolerantes e os policiais para os seus templos sagrados”, ressalta, acrescentando que, hoje, as coisas mudaram um pouco.

“Ainda sofremos com a intolerância dos ignorantes, mas a luta dos meus mais velhos nos
deu certa ‘liberdade’. Por conta disso e mediante a consultas oraculares de cada comunidade de terreiro, alguns Egbe [espaço sagrado] não fazem o Olorogun.
Entretanto, optam por deixar suas casas sem movimento litúrgico. Outras fazem o
evento determinado por suas matrizes”, explica.

Sobre o que o candomblé evita durante a Quaresma, o ativista destaca passos que são essenciais neste período.

“Depende da visão de cada sacerdote para com relação ao sincretismo. O ideal é que se evite manifestações sagradas, questões judiciais, conflitos sociais e ações de discórdia. Sempre é bom prevenir que o negativo se aproxime de nossas vidas, mesmo sabendo que o cotidiano dificulta um pouco alguns processos”.