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Como o filho de Marighella descobriu a morte do pai?

Marighella foi fuzilado à queima-roupa em uma emboscada no dia 4 de novembro de 1969

Isabela Barreiros Publicado em 08/11/2021, às 14h34

Carlos Marighella em diferentes retratos
Carlos Marighella em diferentes retratos - Comissão da Verdade do Estado de São Paulo e Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (Aperj) via Wikimedia Commons

Carlos Marighella estava chegando ao ponto tradicional de encontro, na Alameda Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, em 4 de novembro de 1969. O guerrilheiro entraria no Volkswagen estacionado em frente ao número 806, em que estavam os dois freis, Ivo e Fernando.

Tudo seguia como sempre; tirando o fato de que, daquela vez, os religiosos estavam acompanhados do delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Sérgio Paranhos Fleury e de 28 policiais que encurralaram o militante de 57 anos em uma emboscada.

Os freis haviam sido torturados pela ditadura militar para revelarem informações sobre o comunista baiano. Presos por Freury, sofreram com espancamentos, pau de arara, eletrochoques e todo o tipo de tortura do período, sendo obrigados a acertarem aquele encontro com o guerrilheiro. 

Marighella entrou no carro e se acomodou, ao mesmo tempo em que os oficiais abandonaram seus esconderijos, tiraram os freis do veículo e começaram a caçada pelo inimigo Nº 1 da ditadura militar, que não deixaria a Alameda Casa Branca vivo naquele dia de 1969.

O estrategista da luta armada foi fuzilado à queima roupa pelos policiais. De acordo com um dossiê feito pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos, do Ministério da Justiça, em 1996, ele foi morto com um tiro na região do peito, mas recebeu disparos também nas nádegas, no púbis e no queixo.

A notícia da morte do guerrilheiro se espalhou pelo país. Imagens do corpo de Marighella, jogado dentro do Volkswagen, que foi local da tocaia, começaram a circular na imprensa e o filho do baiano foi chamado para reconhecer o pai pelo cadáver, crivado de balas e em terrível estado.

Foi somente assim que ele ficou sabendo da morte do pai.

O inimigo Nº 1 da ditadura foi morto

Retrato de Marighella / Crédito: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, via Wikimedia Commons

 

Carlinhos Marighella morava em Salvador, na Bahia, com parentes, quando recebeu a notícia da morte do pai. Ele vivia longe porque esta foi a maneira que o guerrilheiro encontrou de mantê-lo em segurança, visto que a ditadura o perseguia.

O filho do guerrilheiro contou em entrevista à Agência UniCEUB em 2019 que ele não acreditava que o pai havia morrido porque o comunista era dado como morto inúmeras vezes e sempre reaparecia. Pensou, assim, que quando foi chamado para reconhecer o corpo do pai por um jornalista, que se tratava de uma notícia falsa.

Aqui na Bahia, eu convivi muito tempo com as notícias de que ele estava sendo procurado, que ele havia sido encontrado, morto, mas ele logo reaparecia”, disse Carlinhos na época.

“Aquilo acabou criando em nossa família uma espécie de crença de que ele nunca morreria, que nunca chegaria a esse desfecho. Então, quando a notícia chegou de que ele havia sido morto, foi de uma maneira bem peculiar”, continuou.

Ele explicou o contexto: “Eu estava em casa, em 1969, e um jornalista [da Tribuna da Bahia] foi até a minha casa me dizer que gostaria que eu fosse até a redação do jornal para confirmar a notícia que estava circulando nas redações dos jornais de que meu pai havia morrido”.

Eu fui para lá achando que era mais uma notícia falsa, mas, quando eu cheguei no jornal, vi que as notícias apresentavam fotos e só então eu percebi, horrorizado, que as fotos eram realmente do meu pai e que ele estava realmente morto”, revelou.

A família do guerrilheiro e a militância brasileira sofreram muito com a morte de Marighella. O Estado brasileiro apenas reconheceu que Marighella foi alvo de perseguição durante a ditadura em 9 de novembro de 2012, com a publicação da decisão do ministro José Eduardo Cardozo.

Nela, o ministro reconheceu que Carlos Marighella sofreu perseguição do Estado brasileiro no auge da repressão política da ditadura militar, em uma anistia “post mortem”.


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