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Como o tio da Rainha Vitória protagonizou uma brutal tentativa de assassinato

Em maio de 1810, o duque de Cumberland foi encontrado completamente ensanguentado. Em um cômodo próximo, o manobrista do palácio jazia em sua cama, já sem vida

Giovanna de Matteo Publicado em 12/08/2020, às 13h30

Retrato de Ernest Augustus, o Duque de Cumberland
Retrato de Ernest Augustus, o Duque de Cumberland - Wikimedia Commons

Durante a Era Vitoriana, o duque de Cumberland vivia no centro de muitos escândalos que gravaram o imaginário do povo da Grã-Bretanha. Nenhuma das polêmicas, no entanto, o assombrava mais do que a misteriosa morte de seu criado, Joseph Sellis.

Quinto filho do rei George III e de Charlotte de Mecklenburg, Ernest Augustus, o duque de Cumberland, ficou conhecido por sua aparência assustadora, resultado de ferimentos de batalha e suas histórias arrebatadoras. Ele estava destinado a usar a coroa de Hannover (um reino alemão que governaria entre 1837 e 1851).

O escândalo que mais o assombrou durante toda a sua vida, contudo, começou em 31 de maio de 1810, no Palácio São Tiago. Naquela manhã, gritos agonizantes foram ouvidos do quarto do Duque. O próprio estava chamando seu fiel criado Neale, que, ao entrar no cômodo, encontrou Ernest Augustus jogado no chão, gravemente ferido.

Retrato do Duque de Cumberland / Crédito: Wikimedia Commons

 

Uma cena aterrorizante

Nas horas mais sombrias da noite, entre 2h e 3h da manhã, um homem entrou no quarto do duque de Cumberland. Com uma lanterna em mãos, o agressor abriu uma gaveta e empunhou um sabre recém-afiado — a arma usada para atacar o duque. 

O primeiro golpe foi dado na cabeça com muito ódio, abrindo o crânio com um ferimento tão grave que expôs seu cérebro. Mas esse era só o começo. Após Ernest cair de sua cama, o duque foi atingido mais quatro vezes na cabeça. Ainda assim, apesar do ataque ter sido bastante violento, ele conseguiu sobreviver, pois a parte da lâmina que o atingira estava achatada.

Com os gritos ecoados pelo castelo, Cornelius Neale, leal funcionário do duque, rapidamente atendeu seu chamado e correu pelo castelo às pressas. Entrando no quarto onde havia ocorrido o incidente, encontrou a cena do crime.

A sala estava vazia, exceto pelo duque ferido, que estava no chão, já avermelhado pelo sangue. Ao seu lado estava o sabre usado pelo agressor e, logo atrás dele, uma porta aberta mostrando o caminho pelo qual o criminoso havia fugido, com pegadas marcadas de sangue.

Neale decidiu dar assistência ao duque antes de ir à procura do agressor. Após convocar a ajuda médica, ele começou a busca pelo palácio. Os funcionários da casa foram chamados e todos, exceto um, se reuniram. O desaparecido era Joseph Sellis, um criado de longa data, que logo se tornaria o maior suspeito do crime.

Quando Neale foi atrás de Sellis, que trabalhava como manobrista no palácio, descobriram uma suposta trilha, que ligava o quarto do duque e o de Sellis através de portas que estavam abertas, como uma rota de fuga. A porta do quarto de Sellis, todavia, estava trancada e dela saíam sons que pareciam ser de um líquido sendo derramado.

Quando o quarto foi finalmente aberto, o corpo de Joseph Sellis foi encontrado. O som do líquido vinha de seu próprio sangue, que estava escorrendo da garganta, totalmente cortada num ataque brusco. Daí surgiu a dúvida se ele também teria sido assassinado ou cometido suicídio após não ter conseguido realizar o plano de matança.

O inquérito 

Joseph Sellis estava à serviço do duque de Cumberland há cinco anos e era um homem popular da família real, até mesmo se tornando uma das duas únicas pessoas que obtinham a chave do quarto de dormir da rainha Charlotte. Porém, no inquérito aberto pelo médico legista Samuel Thomas Adams, que analisava a morte de Sellis, surgiu um tipo bastante diferente de companheiro, juntamente com uma história de que Sellis já havia sido acusado de roubo e escândalos. 

A descoberta revelou que Sellis havia sido difamado por assaltar um baú de seu antigo chefe, um cavalheiro chamado Sr. Church. Nesse caso, ele foi acusado pois tinha acesso livre aos apartamentos privados da Igreja que trabalhava, onde ficava o baú, fechado a sete chaves. Para ser aberto foi preciso quebrar suas fechaduras com um incrível golpe de martelo — que por acaso era um dos pertences pessoais de Sellis —, cuja cabeça correspondia perfeitamente às marcas deixadas no baú que fora saqueado. 

Apesar das evidências não serem totalmente significativas para a acusação formal, Church o demitiu pela suspeita de roubo. Church não foi o único homem que se lembrou de conhecer Sellis, que tinha uma reputação em Nova York. O júri do inquérito ouviu que o manobrista morto tinha sido um defensor da independência americana, e um crítico do rei George III; Os fatos levaram a acreditar que Sellis era dificilmente o tipo de homem que se poderia esperar encontrar trabalhando para a família real tempos depois.

No entanto, foi o que o destino de Joseph Sellis previu, pois, apesar do status de ativista, seu retorno às áreas britânicas foi bem sucedido. Ele se juntou à equipe da casa de Lord Mount Edgcumbe, que o apresentou ao duque de Cumberland; o nobre, por sua vez, ficou impressionado com a dedicação de Sellis ao dever e deu-lhe um emprego real.

O inquérito e a opinião pública predominante foi que Sellis era a parte culpada nos eventos no St. James's Palace, exatamente como ele parecia ter sido em Nova York. Testemunhas se apresentaram para contar todos os tipos de acontecimentos bizarros envolvendo o manobrista morto.

O inquérito decidiu que Sellis havia atacado o duque, mas, fracassando em seu plano de matá-lo, jogou a arma no chão e saiu correndo e, ao retornar ao seu quarto, cortou a própria garganta. O júri fez uma viagem ao palácio e viu por si mesmo as paredes salpicadas de sangue e as pegadas vermelhas deixadas por Neale, que pisara no sabre sangrento em sua corrida para ajudar Cumberland. Ademais, espiaram o corpo de Joseph Sellis, ainda deitado na cama onde ele havia morrido e coberto da garganta aos pés com seu próprio sangue seco.

Teorias da conspiração ao redor do crime

Um cartoon de George Cruikshank que sugere o envolvimento do duque na morte de Joseph Sellis / Crédito: Wikimedia Commons

 

Sellis foi enterrado a noite em um túmulo não marcado, deixando para trás uma esposa e quatro filhos. A companheira enlutada, Mary Ann, no entanto, não aceitou a decisão final da acusação do seu marido. Ela o defendeu supondo ao júri que investigasse Neale, que tinha desavenças com Sellis, após ele ter o acusado de mexer nas despesas reais.

Aqueles que procuravam um escândalo ainda maior imaginavam um triângulo amoroso, sugerindo que Sellis e Cumberland eram amantes, mas que fora substituído por Neale. Nas bocas mal faladas, Sellis teria descoberto a traição e atacado o duque por raiva. Ele teria visto os dois homens juntos e ficado enciumado.

Após a tentativa de assassinato do manobrista, o duque teria mandando o matar, e por isso apareceu morto em seu quarto logo depois. Porém quando esses rumores apareceram na imprensa, o duque de Cumberland — tio da Rainha Vitória — processou a editora por difamação e ganhou.

Anos depois, o marido de um dos amantes do duque cortou a própria garganta e, mais uma vez, o terrível caso de Cumberland e Sellis estava no noticiário. Quando os rumores de intrigas homossexuais envolvendo os três homens apareceram novamente em 1833, Cumberland voltou aos tribunais por difamação e mais uma vez ganhou a causa.


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