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Como as empresas financiaram o nazismo de Hitler

A ideologia do lucro de grandes empresas fez com que muitas delas colocassem dinheiro no Estado alemão durante o período nazista, produzindo inúmeras das tecnologias usadas nos campos de concentração

Isabela Barreiros Publicado em 23/09/2019, às 17h04

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Os campos de concentração alemães puderam funcionar, da maneira que operaram, devido ao gás Zyklon B, que era usado nas câmaras de gás do holocausto. A empresa responsável pela produção era a IG Farben, mas atualmente a conhecemos com outro nome — a organização que financiava o gás que matou milhões de judeus, hoje, se chama Bayer.

Além dela, inúmeras empresas deram suporte financeiro ao nazismo de Hitler e ao fascismo de Mussolini, na Alemanha e Itália. Segundo o livro “A Ordem do Dia” do escritor francês Éric Vuillard, BMW, Fiat, Volkswagen, Siemens, IBM, Chase Bank, Hugo Boss, General Electric e outras grandes corporações conseguiram se estabelecer e, ainda, lucrar com o autoritarismo e antissemitismo da ideologia nazista.

A IBM organizou praticamente todo plano de extermínio judeu. “Com a IBM como parceira, o regime de Hitler pôde substancialmente automatizar e acelerar as seis fases dos 12 anos de Holocausto: identificar, excluir, confiscar, ‘guetizar’, deportar e exterminar”, analisa o jornalista estadunidense Edwin Black no livro Nazi Nexus (Nexo Nazista).  A empresa facilitou o processo de identificação dos judeus, e depois disso, também coordenou os sistemas de trens que os levavam para os campos.

Crédito: Reprodução

 

Segundo o artigo Aposta em Hitler — O valor das conexões políticas na Alemanha Nazista, de Thomas Ferguson e Hans-Joachim Voth, uma em cada sete empresas aprovavam o nazismo no início dos anos 1930. Os autores apontam que muitas estavam envolvidas com o regime, e foram muito bem compensadas por isso.

O  artigo revela que as instituições que apoiaram o movimento nazista tiveram uma alta extraordinária e incomum, com retornos avaliados em 5 a 8% entre o período de janeiro e março de 1933.

O livro The Wages of Destruction (Os salários da destruição, em tradução livre) de Adam Tooze fala sobre como o governo nazista fez parcerias com empresas alemãs, que apoiavam os interesses seus ideológicos e de guerra para conseguir benefícios, subsídios e a uma grande repressão ao movimento sindical alemão.

O anticomunismo

Mas porque os empresários resolveram apoiar o nazismo? “Quando Hitler subiu ao poder, os industriais não falavam uma língua só. Mas a maioria estava feliz de apoiar nazistas em vez de comunistas, e de dar suporte a um movimento político que prometia limitar, senão esmagar, o crescente poder dos trabalhadores organizados”, avalia o historiador da Universidade do Alabama, Jonathan Wiesen.

No Mein Kampf (Minha Luta), Hitler fala sobre como o marxismo, — e o judaísmo —, deveriam ser combatidos, considerando estes como os maiores males que a Alemanha teria de enfrentar. “Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.”

A relação com o capitalismo

Segundo o filósofo italiano Antonio Gramsci, o fascismo operou como uma tentativa de superação de uma crise, que ele considera como cíclica do capitalismo. Para ele, o regime funcionou “como uma nova forma de reorganização do sistema capitalista sob a lógica de um Estado de Exceção”.

Marco Pais Neves dos Santos, escritor português da Universidade Nova de Lisboa, explica em seu artigo O Estado Nacional-Socialista na ótica de Norbert Frei os motivos que levaram à ascensão de Hitler.

Ele destaca “a degradação econômica e social da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, a crise do capitalismo, a fragilidade social, o antissemitismo, o anticomunismo e o desejo de mudança de alguns setores da sociedade”. Esses pontos podem ser considerados como parte da crise cíclica do capitalismo descrita por Gramsci.

“O fascismo é a fase preparatória da restauração do Estado, ou seja, de um recrudescimento da reação capitalista, de um endurecimento da luta capitalista contra as exigências mais vitais da classe proletária”, analisou Gramsci em 1920.

Consolidando novamente o sistema capitalista, a partir da parceria com as grandes empresas alemãs, o nazismo conseguiu restabelecer sua economia de maneira muito rápida. A custo de milhões de vidas, mas o fez.


Saiba mais

A Ordem do Dia,  livro de Éric Vuillard;

 Nazi Nexus: America's Corporate Connections to Hitler's Holocaust, livro de Edwin Blac;

The Wages of Destruction, livro de Adam Tooze;

Betting on Hitler – The value of political connections in nazi Germany, artigo de Thomas Ferguson and Hans-Joachim Voth;

Fascismo Inc., filme de Aris Chatzistefanou.