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Como Pauline Dakin e sua família foram enganados durante anos por um delírio

A infância da mulher foi envolta de incertezas, que persistiram por muito tempo depois de conhecerem um pastor evangélico

Caio Tortamano Publicado em 22/08/2020, às 09h00

A família aparentemente normal de Pauline Dakin
A família aparentemente normal de Pauline Dakin - Divulgação

Pauline Dakin viveu uma infância solitária, contando somente com a companhia do irmão. Depois dos pais terem se separado quando ela tinha apenas 5 anos de idade, não demorou para que os irmãos e a mãe, Ruth, se mudassem para a afastada cidade de Winnipeg.

Pauline já tinha idade suficiente para se incomodar com o fato de não ter tido a chance de se despedir de ninguém que gostava em Vancouver. A mãe, entretanto, mesmo diante do desconforto dos filhos não revelava o verdadeiro motivo de terem que se mudar tão abruptamente, o que aconteceu novamente depois de quatro anos em Winnipeg.

O pastor

Ruth não proibia os filhos de criarem laços com as pessoas das cidades onde moravam, no entanto, sua mãe sempre agia de maneira estranha. Curiosamente, outro homem entrou na vida dos Dakin. Era um pastor evangélico chamado Stan Sears — Stan e a matriarca haviam se conhecido em um grupo de ajuda para famílias com alcoólatras (o pai das crianças, no caso).

De acordo com o The Guardian, o pastor trabalhava como orientador do grupo e criou afinidade com a mulher e sua família, tanto que se mudava para os mesmos lugares que a mãe dos jovens. Isso durou até os Dakin se estabelecerem em New Brunswick. Pauline se formou na faculdade e trabalhava em um jornal local, tendo a vida mais normal possível, até o momento.

Respostas

Apesar das transições, a vida de Pauline não era muito fascinante. Todavia, tudo mudou  quando a sua mãe a ligou e disse que estava pronta para contar a verdade sobre o porquê da vida deles ser tão estranha.

A mãe, Pauline e seu irmão, Teddy / Crédito: Divulgação

 

Ao se encontrarem em um hotel afastado da cidade, Ruth deu um bilhete para a filha, que dizia: “Não diga nada. Tire suas joias e as coloque no envelope. Eu vou explicar, mas não diga nada."

Depois de entrarem em um quarto, Pauline se deparou com Stan, que estava a espera das duas. Assim, a verdade apareceu. Durante os últimos 16 anos, eles estavam fugindo do crime organizado, depois que o pai de Pauline, Warren, se envolveu com mafiosos. Para ter ideia da gravidade, o fato das joias terem sido removidas era uma forma de evitar possíveis escutas durante a conversa. 

Início da perseguição

Tudo começou quando Stan passou dar conselhos para um chefe da máfia arrependido de sua vida, querendo deixar o crime para trás. No entanto, os bandidos descobriram a quebra de sigilo do chefe, e o assassinaram. E por saber demais, o pastor seria o próximo.

Ruth foi envolvida na história quando os criminosos ficam sabendo que a ex-mulher de um homem envolvido com a máfia começou a falar com Sears no grupo de apoio, tornando o casal alvo de uma perseguição.

Ao mesmo tempo, a mãe revelou que o Governo sabia do caso e existia uma pequena força tarefa que garantiria a mínima segurança para os dois, e inevitavelmente para as crianças. Os dois ainda contaram que poderiam viver o romance que tanto tempo quiseram, mas, por conta da insegurança de suas vidas não puderam consumar.

Choque

Analisando toda a história da mãe, a jovem percebeu que tudo isso fazia muito sentido quando olhava em retrospecto algumas das coisas estranhas pelo qual viver. Certa vez, depois de voltar da escola, viu a mãe jogando toda a comida da casa no lixo. Apesar de Ruth não ter contado a verdade, ela acabou descobrindo que era uma tentativa dos mafiosos de envenenar a família. No entanto, a memória da garota foi além. 

Em outra ocasião, ela lembra que eles passaram um dia num chalé nas montanhas, como se fosse um feriado — quando na verdade estavam se escondendo em uma data determinada. Além de outras vezes que precisavam cancelar compromissos em cima da hora, chegar em casa e tomar banhos longos para limpar qualquer coisa que tenham colocado neles, entre outros.

Mudanças

Tudo fazia sentido. Pauline decidiu que seria melhor abrir mão de sua vida para morar no apelidado "mundo estranho", com sua mãe e o pastor. Nas palavras de Stan, se tratavam de locais distantes onde pessoas perseguidas poderiam viver com um pouco de paz. Todavia, para entrarem precisariam de uma aprovação do governo, que só seria possível através de Stan. Desistiu de sua própria vida, vendeu sua casa e até mesmo pediu demissão. Tudo por medo do que poderia acontecer. Assim, passou a viver com a mãe e o padrasto em Nova Scotia. 

Pauline e Stan, o "protetor" da família / Crédito: Divulgação

 

O tempo passava, e a confirmação não vinha. Como consequência, Pauline seguiu com a vida do jeito que podia e se apaixonou por um homem chamado Kevin, com quem viria a se casar.

Em 1993, já fazia cinco anos desde que a verdade tinha sido contada à ela, mas o marido — que ficou à par da situação e estava disposto a morar no local isolado com ela — começou a suspeitar da história.

Caos 

Para saber se tudo era verdade, Pauline inventou que sua casa havia sido roubada. Ligou para a mãe com o objetivo de encontrar uma solução. Ruth falou com Stan, que recomendou que eles se encontrassem para esclarecer o episódio. Então, a ficha caiu para a mulher. Ela ouviu do pastor que a polícia havia prendido duas pessoas com fotos dela, em busca de coisas específicas na casa.

A invasão, entretanto, era uma mentira. Ela percebeu que Stan não passava de um grande mentiroso. Pauline então confrontou a mãe, dizendo que era tudo uma bobagem criada pelo homem. Ela, entretanto, não a escutou e ficou chateada pela filha ter abandonado a proteção. Afinal, acreditava em tudo que o companheiro falava.

As duas cortaram relações naquele momento, e somente teriam contato nove meses antes de Ruth morrer, em decorrência de um câncer em 2010. Pauline tentou retomar contato com o pai — que nunca teve ligação com a máfia —, e teve duas filhas com Kevin, depois de ter passado por tantos traumas.

Novos rumos 

Ruth nunca aceitou que Stan era um mentiroso, nem mesmo depois da morte do homem. Coincidentemente, as cartas de ameaça da máfia pararam de chegar, e o governo não entrava mais em suposto contato com a família. Pauline foi atrás de resposta para as mentiras do religioso. Ao contar com a ajuda de um especialista em comportamento, ele concluiu que o padrasto tinha transtorno delirante.

"A descoberta do transtorno delirante apenas desbloqueou tudo para mim e me permitiu entender por que toda essa loucura aconteceu”, explicou ela em entrevista ao The Guardian em 2018. “Mas também me fez perceber que Stan não era malévolo, ele não estava tentando nos machucar. Acabamos de ser apanhados pela doença dele. Eu não precisava estar tão zangada e amarga. Eu poderia seguir em frente com minha vida."

Por isso Stan parecia ser uma pessoa normal, que desempenhava suas funções normalmente e era uma pessoa sociável e gentil. Para ele, aquilo tudo era verdade. Por azar, dos Dakin, e principalmente de Ruth, eles foram levados por esse delírio.


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