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Mortes e renovação: como a Peste Negra mudou o cenário da Europa

Matando milhões no século 14, a bactéria da praga bubônica modificou drasticamente a sociedade e a economia medieval para sempre

André Nogueira Publicado em 18/04/2020, às 08h00

Quadro retratando os rastros da epidemia
Quadro retratando os rastros da epidemia - Wikimedia Commons

A morte de 50 milhões de pessoas no século 14 marcou completamente a história da humanidade. Sete mil morriam diariamente no Cairo, na mesma epidemia que levou três quartos dos moradores de Florença. Trata-se da Peste Bubônica, doença mortal causada por uma bactéria disseminada através da pulga, que era carregada por ratos em embarcações.

Mais conhecida pela alcunha de Peste Negra, ela marcou esse momento de desespero e insalubridade que matou quase metade da Europa de maneira dolorosa.  O continente, já em guerra, sofreu fortes mudanças com o advento da epidemia, que obrigou a mutação de hábitos e governos. Com milhares de corpos apodrecidos na rua e a inexistência de um método viável e funcional de cura, o mundo religioso e autoritário da Cristandade pós-gregoriana precisava de reformas.

Originada da incubação da bactéria Yersinia pestis no Deserto de Gobi, após séculos, a Peste Negra atingiu primeiro a China e a Rússia, onde fez grande estrago. Ao chegar na Europa, através de mercadores italianos que carregaram roedores acidentalmente nos barcos, a patologia encontrou terreno fértil para matar jovens e idosos de todas as camadas sociais.

A Peste em Florença / Crédito: Wikimedia Commons

 

Logo após o fim dos piores surtos, os efeitos da praga já eram sentidos na sociedade. Uma das principais mudanças foi a disponibilidade de trabalho e o aumento da concorrência de espaços: foi reduzido o número de servos. Isso fazia com que os senhores fossem pressionados a melhorar as condições e as recompensas pelo trabalho rural. Como consequênia, a noção de remuneração se fortaleceu.

Isso gerou uma mudança a longo prazo nas relações de trabalho na Europa. Conhecendo as possibilidades de melhoria, os trabalhadores sentiram quando os senhores começaram a voltar com os velhos hábitos do mundo medieval, na medida que a população se recuperava. A consequência disso foi drástica: um aumento considerável nas revoltas campesinas ganhou vida no final do século 14.

Isso possibilitou o estabelecimento permanente das melhorias e das liberdades dos trabalhadores do campo, que já haviam presenciado o esvaziamento das cidades maiores no momento da peste.

Outra consequência da tragédia foi a fragilização da moral da Igreja, que não conseguiu conter a peste, mesmo se dizendo portal de comunicação com o divino. Até Deus saiu como vilão na situação de sofrimento e inúmeras mortes.

Além disso, com a morte de diversos padres, haviam locais na Europa em que simplesmente não realizavam mais cultos. Segundo Lucien Febvre (historiador francês ligado à Escola dos Annales) em O Problema da Incredulidade no Século XVI, foi justamente a partir do século 15 que tornou-se possível compreender a existência de um ateísmo, algo inconcebível nos séculos anteriores.

Martírio das vítimas / Crédito: Wikimedia Commons

 

Já sofrendo com o preconceito religioso, as populações judaicas passaram a ser usadas como bode expiatório naquele momento. Acusadas de envenenarem a água e rogar pragas contra os cristãos (devido aos hábitos de higiene melhores, os judeus tiveram uma mortalidade menor na Peste), muitos foram agredidos ou até mesmo executados. O antijudaísmo cresceu muito na Europa quatrocentista, gerando massivas migrações para o leste.

Outra consequência foi o aumento da credibilidade daqueles que se tornariam os cientistas. A Idade Média, ao contrario do que se fala, não foi um momento de estagnação do conhecimento e da tecnologia, mas o catolicismo fervoroso impedia a estabilidade da razão como instituição de autoridade na sociedade.

Após o fracasso da fé no combate às doenças, uma busca pelos conhecimentos objetivos se tornou importante para o lento desenvolvimento das ideias que culminariam nas Revoluções do século 17.


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