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Como a tecnologia poderia evitar a morte de bilhões de pintinhos

Seria a ferramenta CRISPR a solução para acabar com as mortes na indústria alimentícia ?

Redação Publicado em 11/03/2019, às 13h00

Pintinho e o ovo
Pintinho e o ovo - Getty Images

Cinquenta bilhões de frangos são criados todos os anos, o mundo inteiro consome galinha ou ovos de galinha, mas quase sete bilhões de pintos machos nunca vivem mais que um dia. Esses bichos são enviados para um moedor industrial de alta velocidade. Algo que para fábricas é o mais econômico a se fazer, já que pintos machos não produzem ovos, e logo são considerados inúteis.

Mas e se fosse possível prever o sexo do animal dentro do ovo antes dele nascer?

Há mais de dez anos existe uma corrida entre as startups do mundo inteiro para alcançar esse objetivo e mudar o destino de bilhões de frangos.

Agora, pesquisadores da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth da Austrália (CSIRO) afirmam que encontraram a solução fazendo uso da tecnologia da engenharia genética: o CRISPR.

O sistema CRISPR (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats), ou Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas, permite a edição de genomas. Possibilitando aos pesquisadores alterar as sequencias de DNA e modificar a função genética, como tesouras moleculares, capazes de cortar fios de DNA.

A China, maior produtora mundial de ovos, precisa de cerca de 1,2 bilhão de galinhas poedeiras para produzir mais de 1 bilhão de ovos todos os dias. Os EUA, por sua vez, têm cerca de 325 milhões de galinhas, criadas especialmente para botar ovos, e produzem cerca de 75 bilhões de ovos por ano. Metade dos pintinhos, resultado da incubação dessas galinhas, será inevitavelmente macho, dando continuidade ao ciclo da matança.

Apesar da Organização Mundial de Saúde Animal não condenar o ato, alegando que a morte no moedor é “quase que instantânea”, as organizações de assistência social afirmam que a prática não é ética.

Mesmo parecendo que apenas a ferramenta CRISPR já seria a solução suficiente, muitos especialistas acreditam que não. Como é o caso do geneticista do CSIRO, Mark Tizard: “Esses procedimentos são muito lentos e caros demais para serem econômicos para substituir o processo de remoção dos machos depois que eles eclodiram”.

Pensando nisso, Tizard e seus parceiros da empresa estão desenvolvendo um novo modo de lidar com o problema. A manipulação genética do frango para produzir um tipo especial de ovo. Um ovo que emitiria uma luz vermelha brilhante. A edição do gene seria como um terceiro olho, permitindo ver dentro do ovo, e poderia ser usado no primeiro dia, logo após o ovo ser colocado. A tecnologia central ainda seria a CRISPR, agindo como uma tesoura que cortaria uma sequência de DNA do gene e colocaria um novo gene no lugar.

Seria preciso que os órgãos reguladores em torno dos organismos geneticamente modificados para consumo humano aprovasse a iniciativa. O que pode ser a parte mais complicada de todo o processo. Para Tizard a questão é simples: “você quer continuar a matar machos ou você quer ter um processo em que a biotecnologia é colocada e retirada, sem que nada mude no produto alimentício que você vai buscar no supermercado?”.

Enquanto a questão ainda estiver em aberto, o ciclo continua, e morrem mais sete bilhões de pintinhos.