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Isolamento no campo: Como vive uma comunidade amish?

Para preservar os mandamentos da Bíblia, esses cristãos não assistem televisão nem podem fazer faculdade

Fred Linardi Publicado em 26/11/2018, às 17h00

Carroça utilizada pela comunidade amish
Getty Images

Em 1693, o suíço Jacob Amman se desligava da religião menonita. Para ele, o grupo estava se distanciando dos ensinos do líder Menno Simons, que acreditava no anabatismo – o adiamento do batismo até a criança ser capaz de escolher a própria crença. Amman dava início, assim, a um novo grupo: os amish. Esses cristãos saíram da Europa e se instalaram em assentamentos rurais nos Estados Unidos no século 18, para se isolar e fugir do serviço militar.

Estudiosos da Bíblia, eles interpretam literalmente os textos e vbvem de forma humilde e pacífica. Falam em um dialeto alemão entre eles e em inglês com pessoas de fora do distrito. Ignoram televisão, jornais e revistas. São uma sociedade fechada, com regras religiosas próprias, reunidas no Ordnung, uma lista de regras e condutas transmitidas verbalmente. Hoje, estão em mais de 31 estados americanos: são cerca de 330 mil membros, distribuídos em distritos de até 40 casas cada.

Entre colchas e cavalos

Uma fazenda amish é sinônimo de ordem, organização e simplicidade

A escola é exclusiva para as crianças do distrito e ensina matemática, inglês e alemão – o suficiente para iniciarem os trabalhos  adultos e ingressarem no comércio. Depois disso, a vida escolar se encerra, já que um jovem amish nunca deve frequentar faculdade. Quando atingem 16 anos, os jovens podem sair de casa e deixar de lado as restrições da religião. O rito, chamado Rumspringa, os autoriza a experimentar bebidas e a ir a festas. Eles têm a oportunidade de retornar aos assentamentos ou desligar-se da vida amish. De 85% a 90% voltam e são batizados.

A casa tem apenas o básico, sem telefone, televisão ou qualquer outro eletrônico. Os cômodos têm apenas móveis de madeira feitos pela comunidade. A cozinha é o principal espaço – a maioria não tem pia, apenas uma bomba de água. Cada fazenda da comunidade tenta produzir o que necessita, mas elas não são autossuficientes e negociam com o mundo externo. Assim, em pequenas lojas familiares, os amish vendem móveis, colchas e comidas típicas. Parte dos ganhos é doada para a compra de terras coletivas.

Fazenda amish localizada próximo à cidade de Morristown, Nova Jersey Wikimedia Commons

As cerimônias e cultos são realizados aos domingos, a cada 15 dias, nas casas do distrito. O costume vem da origem da religião. Perseguidos por séculos, seus membros se uniam discretamente para orar. Os líderes são os bispos, os pregadores e os diáconos, eleitos pela comunidade Após os cultos, a família anfitriã oferece uma refeição.

As carroças são utilizadas para ir a localidades próximas, mas, quando é necessário, as pessoas pegam caronas com conhecidos. A energia elétrica é usada apenas para ordenhar vacas – a iluminação é feita com lampiões. Os aparelhos de marcenaria funcionam à base de força hidráulica, pneumática ou de geradores.

A construção de um celeiro é um evento comunitário e reúne homens e mulheres. É organizado para ajudar recém-casados ou para substituir outro celeiro danificado. O uso de guindaste mecânico para levantar as vigas de sustentação já é permitido, mas o restante é realizado de forma tradicional.

A vestimenta amish também chama a atenção: Os homens vestem calças sem pregas e terno de cor escura, sem lapela e colarinhos. Usam chapéu, suspensórios e ganchos para prender a roupa. A meia é preta, cinza ou azul. Quando se casam, deixam a barba crescer. Não usam bigode. Já as mulheres usam vestidos escuros, com mangas e saias longas e aventais claros nos trabalhos domésticos e nos cultos. Uma touca cobre os cabelos e o gorro preto é o símbolo matrimonial. O sapato deve cobrir o calcanhar.