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Conduzindo Albert: A insólita viagem do cérebro de Einstein através dos EUA

Ao longo de quatro décadas, o cérebro de Albert Einstein cruzou os Estados Unidos, numa improvável viagem ao lado de seu excêntrico acompanhante: o médico que fez a necrópsia sem a permissão da família

M. R. Terci Publicado em 11/11/2019, às 14h00

Albert Einstein, o mais célebre cientista do século 20
Albert Einstein, o mais célebre cientista do século 20 - Getty Images

Em 1955, Thomas Stoltz Harvey era patologista de prestígio no Hospital de Princeton, Nova Jersey. Apesar de ser descrito por alguns colegas de trabalho como dono de uma personalidade oscilante entre o desequilíbrio, a introversão mais assustadora e a meticulosidade obsessiva pela ciência, o doutor Harvey era um médico responsável e talentoso, que não fugia aos padrões do gênero científico, tampouco ultrapassava os limites éticos da profissão.

Mas dizem também que ele era um grande admirador de Albert Einstein.

Qual não foi a sua surpresa quando, em 17 de abril daquele ano, Einstein deu entrada no hospital, reclamando de dor no peito. Aos 76 anos, o coração do maior gênio da humanidade estava prestes a parar. Era desejo do paciente que sua vida não fosse prolongada por intervenções cirúrgicas desnecessárias: “Quando for partir, farei isso com elegância”. Na manhã seguinte, no leito do hospital, enquanto o incansável cientista trabalhava um artigo sobre o aniversário do Estado de Israel, a veia aorta se rompeu e ele faleceu.

Muito embora, Einstein tenha se alçado ao status de celebridade, não tinha o menor apego a isso. Aos familiares determinou que, após a morte, seu corpo deveria ser cremado e suas cinzas espalhadas discretamente e em segredo.  A última coisa que desejava era que seu túmulo virasse local de peregrinação.

Harvey era o médico de plantão e coube a ele autopsiar o corpo de Einstein. Mas, sem que ninguém soubesse, o médico resolveu remover os olhos e o cérebro do finado cientista. Os olhos foram enviados a um oftalmologista, amigo de Harvey, enquanto o órgão que simbolizava toda a genialidade de Albert Einstein, foi extirpado, alocado sobre a mesa e fotografado de diversos ângulos.

Pesou, mediu e analisou suas dimensões – em verdade, um cérebro mediano, nada fora do habitual. Em seguida, preparou-se para dissecação e coleta de amostras; finíssimas camadas de tecido cerebral, meticulosamente fatiadas, foram classificadas e separadas para posterior estudo.

Albert Einstein em sua foto mais famosa / Crédito: Getty Images

 

Para Harvey, à luz da ciência, não seria difícil determinar de onde diabos vinha tamanha genialidade. Mas, a essa altura arranjou problemas.

Durante o delicado procedimento de dissecação, enquanto adiava a liberação do cadáver do gênio, Harvey foi flagrado por outros funcionários do hospital. Certo é que o médico não tinha permissão de Einstein, nem de seus familiares para retalhar o cérebro. A administração do hospital Princeton foi informada e, a pedido da família, sem muito alarde, exigiu-se a entrega do macabro espólio. 

Para surpresa de todos, Thomas Harvey se recusou. Tratou de preservar e esconder o cérebro no porão de sua casa. Harvey não era neurologista, de maneira que além dos problemas legais, teria de se valer de habilidades que não dominava, numa especialidade médica que não conhecia.

Nesse ponto, tomou uma decisão. Seu objetivo agora era simples, mas imensamente ambicioso. Queria reunir os maiores especialistas do mundo, para estudarem em detalhes cada área daquele valioso órgão, cada fragmento, cada célula e publicar os resultados nas revistas mais prestigiadas do mundo.

Nesse ínterim, a casa do médico literalmente caiu. Suas atitudes estranhas e o fato bizarro de alocar um cérebro no porão de sua residência não parecia coisa de gente normal aos olhos de sua esposa. Afora a pressão do hospital de Princeton, Harvey agora teria de lidar com um grande problema doméstico. Todavia, o objetivo de Harvey já estava estabelecido e, como mencionado, ele tinha obsessão pela ciência.

O custo foi alto. Criticado e punido severamente pela comunidade científica, Harvey abandonou o emprego no hospital, a carreira de patologista, o casamento, a estabilidade e fugiu com o cérebro do renomado Einstein, à princípio, para o Kansas.

Após isso, o fugitivo passou 23 anos cruzando os Estados Unidos, de uma costa à outra, como um nômade, nunca permanecendo muito tempo em um só local.

Em 1978, um jornalista chamado Steven Levy localizou o ex-médico e o persuadiu a ceder as amostras para outros cientistas. Harvey concordou e especialistas passaram a estudar amostras detalhadamente. Nessa época, Harvey passou a contar também com um importante apoio.

Hans Albert, filho de Einstein, embora tenha se mostrado afetado e indignado, concluiu que a opinião de Harvey tinha sua lógica. Seu pai sempre defendeu o avanço científico, e se a análise daquele cérebro servisse de algo para a comunidade científica, a família dava sua aprovação.

Os resultados foram sendo divulgados, à conta gotas, desde 1975 até os dias atuais. O que descobriram até agora? O achado mais surpreendente foi nada haver de surpreendente. Sem dúvida, Albert Einstein personificava a genialidade, mas nenhum pedaço de seu cérebro deu ao mundo uma explicação definitiva.

Ele certamente não se resumia a um punhado de neurônios.

Apenas em 1997, Harvey decidiu em se desfazer de seu tesouro. Naquele ano, devolveu-o à família.


M.R. Terci é escritor e roteirista; criador de “Imperiais de Gran Abuelo” (2018), romance finalista no Prêmio Cubo de Ouro, que tem como cenário a Guerra Paraguai, e “Bairro da Cripta” (2019), ambientado na Belle Époque brasileira, ambos publicados pela Editora Pandorga.


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