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Confira relatos de vítimas torturadas pelo Coronel Ustra, o sádico da ditadura militar brasileira

Apesar de morrer em liberdade, Ustra é até hoje denunciado por seus crimes durante o trágico período da história brasileira

Jânio de Oliveira Freime Publicado em 07/10/2019, às 15h00

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- Reprodução

O Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra foi um dos maiores torturadores do país e, até hoje, o único militar declarado como agente da tortura durante a ditadura militar brasileira

Conheça o relato de suas vítimas para a Comissão Nacional da Verdade, responsável pela elucidação e reparação desses crimes históricos, e durante entrevistas para outros veículos brasileiros.

1. Cecília Coimbra, estudante de psicologia e membro do PCB

Crédito: Reprodução

 

“Cheguei na Oban e a violência começou no interrogatório, com choque elétrico. Quando eu vi o pau de arara, não reconheci o que era porque estava em choque. Vi um copo cheio de uma substância branca e achei que era açúcar, para tomar com água na hora do nervoso. Mas era sal, para pôr nas feridas. [...] Eles abusam, violentam, de uma maneira ou outra, humilham, tornam objeto. Eles faziam a gente se sentir uma porcaria. Também faziam uma certa gozação, como se eu tivesse me metido nisso sem saber o que era. Eles tinham muito prazer na tortura. Não me pareceu que eles faziam por obrigação.”

“Havia o Ustra, que era o mais terrível, porque vinha com uma conversinha, com uma diplomacia: ‘Minha filha, como você vai se meter numa coisa dessas, você é de uma família boa, vai prejudicar os seus filhos por essa coisa de comunismo’. E, de repente, inesperadamente, ele lançava uma bofetada. [...] Depois da Oban, fui para o Dops e para o Tiradentes, onde a coisa foi ficando mais de tortura psicológica e não física. Mas sempre com aquele horror de saber que a qualquer momento a gente poderia voltar para a Oban.”

2. Cristina Moraes de Almeida, conhecida de militantes, mas nunca entrou na política

Ustra na CNV / Crédito: Reprodução

 

“O Tibiriçá repetiu: “Tira a calça, esqueceu que não pode vir de calça em uma repartição pública?”, aos berros. Eu não vou tirar calça para nada. Estou quebrada, com dor. [...] Estava vestida até aí, mas a calça bem desabotoada, bem desalinhada, já rasgada. “Com essa calça justa” – ele disse. – “Acaba de tirar a roupa dela!”. Minha calça estava bem desabotoada, bem… a blusa”.

Em reposta à pergunta de Glenda Mezarobba (CNV), sobre quem mandara que tirasse a roupa: “ Os encapuzados. Eu comecei a me encolher. Ele puxou a perna, rasgando minha calça, acabando de rasgar a minha calça. Ele pega uma furadeira, e me furou daqui até aqui, com uma furadeira. Elétrica. Furadeira. Eu não vi mais nada. […] Aí ligaram [a furadeira], porque o choque elétrico, não estava funcionando. […] Nove meses sem caminhar. […] Furaram o osso. Furaram derme, epiderme, o osso.”

3. Dilma Rousseff, ex-presidente da República que era membro do VAR-Palmares

Crédito: Reprodução

 

“Eu conheci o Ustra dentro da Operação Bandeirantes. Eu fui presa em janeiro de 1970, quando a Oban era chefiada por outro militar. Ustra chegou depois. Um dia, eu já ia sair da cadeia, eu o encontrei. O Ustra já era o Ustra. Já tinha matado gente. Ele me disse: “Se você voltar, você vai morrer com a boca cheia de formiga.” Portanto, eu sei bem quem ele é.”

“A homenagem ao torturador [em referência a Bolsonaro] é um insulto a todas as pessoas deste país. Porque as pessoas com as quais o Ustra lidou são heróis brasileiros. [...] [Ustra:] ‘Eu vou esquecer a mão em você. Você vai ficar deformada e ninguém vai te querer. Ninguém sabe que você está aqui. Você vai virar um ‘presunto’ e ninguém vai saber’... Tinha muito esquema de tortura psicológica, ameaças [...] Você fica aqui pensando ‘daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura’. E lembro também perfeitamente que me botaram numa cela. Muito estranho. Uma porção de mulheres. Tinha uma menina grávida que perguntou meu nome. Eu dei meu nome verdadeiro. Ela disse: 'Xi, você está ferrada'. Foi o meu primeiro contato com o 'esperar'. A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar.”.

4. Amelinha Teles, militante do PCB, torturada junto ao marido

Crédito: Reprodução

 

“Eu fui espancada por ele [coronel Ustra] ainda no pátio do DOI-Codi. Ele me deu um safanão com as costas da mão, me jogando no chão, e gritando 'sua terrorista'. E gritou de uma forma a chamar todos os demais agentes, também torturadores, a me agarrarem e me arrastarem para uma sala de tortura”.

“Ele, levar meus filhos para uma sala, onde eu me encontrava na cadeira do dragão, nua, vomitada, urinada? Levar meus filhos para dentro da sala? O que é isto? Para mim, foi a pior tortura que eu passei. Meus filhos tinham 5 e 4 anos. Foi a pior tortura que eu passei”. Em outro relato, sobre a equipe de Ustra, disse: “Eu estava sentada em uma cadeira do dragão, nua, amarrada, levando choque no corpo inteiro, ânus, vagina. Enquanto isso, o Gaeta, que era um torturador, estava se masturbando e jogando esperma em cima de mim”, afirmou Teles durante entrevista ao programa Viva Maria, na Rádio Nacional da Amazônia.

5. Gilberto Natalini, poeta e médico que nunca se envolveu com luta armada, hoje vereador pelo Partido Verde

Na CNV / Crédito: Reprodução

 

"Tiraram a minha roupa e me obrigaram a subir em duas latas. Conectaram fios ao meu corpo e me jogaram água com sal. Enquanto me dava choques, Ustra me batia com um cipó e gritava me pedindo informações". relatou Natalini em entrevista à BBC Brasil. "A tortura comprometeu minha audição. Mas as marcas que ela deixou não são só físicas, mas também psicológicas."

"Sempre fui a favor da mobilização das consciências contra qualquer tirania. Nunca fui a favor de ações violentas. Acolhíamos perseguidos políticos, prestando atendimento médico quando necessário. Mas todo mundo que se opunha ao governo militar era visto como terrorista".


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