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Conheça a história do Sri Lanka, país marcado pelo conflito entre budistas e cristãos

A pequena ilha é bastante fragilizada devido às cicatrizes deixadas pelos portugueses, holandeses e britânicos durante a colonização

André Nogueira Publicado em 22/04/2019, às 12h03

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O Sri Lanka, também conhecido por seu nome colonial Ceilão, foi um importante centro de profissão da fé budista e, depois, uma relevante posse portuguesa de produção de café. A pequena ilha próxima à Índia pode até não se destacar por seu tamanho ou sua relevância estratégica militar ou bélica, mas sua presença no mundo não pode ser relevada.

Conheça melhor a história desse complexo e pequeno país na Ásia -- que sofreu uma série de atentados em três igrejas, quatro hoteis e um complexo residencial neste domingo de Páscoa, 21, deixando um rastro de 290 mortes e 500 feridos.

Antiguidade e formação do budismo

Os mais antigos registros civilizacionais do território onde hoje é o Sri Lanka datam do século VI a.C., da época em que a ilha mal era ocupada, mas havia a presença de imigrantes da Malásia que seguiam a cultura dos Vedas da Índia. No século VI, as ocupações vedas são invadidas pelo povo Cingalês, viajantes da região indiana de Bengala, que estabelecem um reino próprio a partir de 543 a.C. com a ascensão do Rei Vijaya, que se estabelece na nova capital, Anuradhapura.

Porém, é no século III que a ilha ganha certo destaque no campo religioso. Nessa época, o rei e o reino começam um processo de conversão à doutrina exportada da Índia que segue os ensinamentos de Sidarta Gautama. Ou seja, nessa época, os Cingaleses se convertem ao budismo e criam em seu reino grandes centros de estudos e discussões dos textos e ensinamentos do dogma budista e suas práticas sagradas. Foi a partir dos estudos do budismo e da prática missionária dos monges que a Sri Lanka começou a se estabelecer como grupo e cultura distinta, se separando drasticamente do circuito cultural indiano, influenciado muito mais pelo hinduísmo.

Templo budista em Polonnaruwa (Reprodução)

É no auge do estabelecimento do budismo na Sri Lanka que é realizado no reino, em 25 a.C.,  um importante comício religioso, o Quarto Concílio Budista Teravada, no templo Anuradhapura Maha Viharaya, patrocinado por Valagamba de Anuradhapura. Naquele ano, uma gigante crise produtiva levou à morte por fome de diversos monges na região, criando um pânico relativo à possibilidade da extinção de diversos cultos budistas após a partida daqueles que conheciam o cânone religioso. Muitos textos puramente orais professados pelos dhammabhāṇakas poderiam ser perdidos se não passassem para a plataforma escrita, segundo o medo dos monges srilanqueses, levando ao evento, que traduziu para a escrita diversos conhecimentos da doutrina religiosa. O cânone manuscrito será divulgado pela região do Sul da Ásia.

Os estabelecimentos tâmeis

A partir do século III, a hegemonia cingalesa começa a ser ameaçada, pois a ilha passa a ser ocupada também por populações tâmeis, também originárias do subcontinente indiano, assumindo territórios no Noroeste da ilha. Durante séculos, foram travadas diversas batalhas entre os tâmeis e o reino cingalês. Por esse motivo, há uma importante mudança de capital no reino cingalês para Polonnaruwa. Contemporaneamente, há a formação de vários reinos e equivalentes a principados tâmeis em regiões mal ocupadas pelos cingaleses. Na mesma época, florescem conflitos religiosos entre budistas e hindus.

No século X, se estabelece na ilha também uma comunidade de origem árabe e comerciante, criando relações diplomáticas e amigáveis com o reino cingalês, que se fortalecia cada vez mais. No século XII, o então rei cingalês Prakrama Bahu encerra a guerra interna da ilha contra os tâmeis e acaba com seus reinos, estabelecendo um reino unificado ocupando todo o território da ilha. Nessa época, floresce o auge da prosperidade econômica e cultural, tornando-se importante polo de estabelecimento da doutrina budista.  Prakrama Bahu invade também o sul da Índia e a Birmânia, que se tornam posses cingalesas por um tempo.

Estátua de Prakrama Bahu I (Wikimedia Commons)

Porém, no século XV, a ilha é invadida por tropas chinesas, que dominam a Sri Lanka. Com a invasão, os reis locais cingaleses declaram subserviência ao Império chinês e prestam tributo ao imperador.

A chegada dos europeus

A dominação chinesa não dura muito tempo, pois o século XVI foi marcado pelo aparecimento dos europeus na ilha. Em 1505, os primeiros brancos chegam à ilha: aporta em território cingalês o navegador português Lourenço de Almeida. A frota portuguesa se depara com um reino extremamente dividido, consequência da dominação chinesa, e repleta de batalhas internas. Essa divisão fazia da Sri Lanka incapaz de conter a invasão europeia. Os portugueses ocupam a ilha a partir da costa sudoeste, tomam a cidade de Kotte e fundam, pela região, a cidade de Colombo em 1517, como feitoria de controle da região costeira.  Em 1592, fugindo da dominação portuguesa, os cingaleses mudam novamente a capital, dessa vez para Kandy, no interior da ilha, melhor protegida dos dominadores da costa.

Apesar de uma onda de conversão ao cristianismo, a maioria budista da Sri Lanka criou um ódio religioso contra os invasores católicos.

Com isso, outros possíveis aliados europeus aparecem como forma de luta contra os portugueses. No início do século XVII, frotas holandesas aparecem na ilha e chegam a Kandy, onde autoridades cingalesas pedem auxílio. Em 1638, os holandeses atacam acampamentos portugueses e anos depois tomam Colombo.

Capitão holandês Joris van Spilbergen é recebido pelo rei Vimaladharmasuriya I (reprodução)

Em pouco tempo, os holandeses dominam toda a ilha, exceto o reino de Kandy, com quem fizeram acordos. Inicia-se um período de perseguição aos católicos e apoio, mesmo que com taxação de tributos, aos protestantes, muçulmanos e budistas, maioria na região. É importante destacar que os impostos neerlandeses eram bem mais pesados que os dos portugueses, gerando um relevante incômodo nas populações nativas da Sri Lanka.

Domínio Colonial Inglês

A supremacia holandesa dura na ilha até o início do século XIX. Com as campanhas napoleônicas na Europa, o Reino Unido teme a ascensão de um novo Império Francês que governasse os Países Baixos e suas possessões. Temendo a dominação francesa da Sri Lanka, na época determinada pelo nome português dado, Ceilão (ou Ceylon), os britânicos invadem e dominam a ilha. Em 1802, o Ceilão é formalmente admitido como território britânico e torna-se oficialmente colônia. É a partir de então que os ingleses iniciam campanhas de ocupação total do território e em 12 anos, chegam a ocupar Kandy e destruir toda a base do reino independente da Sri Lanka, estabelecido pelos cingaleses.

Os ingleses introduzem forçadamente o cultivo do chá e do café (conhecidos desde a chegada dos portugueses) no território, criando uma camada social média de produtores rurais que importam uma série de trabalhadores tâmeis do Sul da Índia, a ponto da etnia voltar a crescer e se tornar 10% da população do território. O Ceilão torna-se ponto relevante do comércio mundial, gerando renda para diversos setores da economia colonial.

Independência e conflitos nacionais

No pós-guerra, as elites mestiças começam uma campanha pela independência do Sri Lanka. Em 4 de fevereiro de 1948, através de acordos diplomáticos e militares e tratados com a Grã-Bretanha, o país atinge a autonomia formal, estabelecendo-se como país independente com o nome de Sri Lanka. Porém, os acordos previam a manutenção das bases aéreas e navais do Reino Unido que foram estabelecidos em tempos coloniais.

Porém, o desenvolvimento nacional foi bastante fragilizado pelas cicatrizes deixadas pelos portugueses, holandeses e britânicos durante a colonização. Uma das principais foi à criação de barreiras sociais de bases étnicas, que foram usadas pelos ingleses como forma de criar inimizades internas no país e desestruturação das forças de resistência a colônia. Com isso, criou-se uma rixa étnica entre os cingaleses e os tâmeis. Também se criou conflitos relativos à soberania dos burghers, a elite crioula, miscigenada entre holandeses e cingaleses, que era tratada como autoridade racial e estabeleceu brigas profundas com as comunidades originárias.

Barco da Marinha tâmil durante a guerra (wikimedia commons)

Esses conflitos étnicos desencadeiam em 1983 em uma grande guerra civil que ocorre na Sri Lanka até 2009. Somando os conflitos étnicos com a jornada travada pela minoria tâmil pela independência e separação de uma pátria particular, estabelecida no Norte da ilha. É estabelecida uma guerrilha no país e uma série de ataques terroristas contra os exércitos cingaleses, que levarão à morte de mais de 100 mil pessoas na guerra. Incapazes de manter uma guerra contra a maioria da população, os tâmeis acordam um cessar-fogo com o governo central, dando fim à sangrenta guerra civil.

Desde o fim da Guerra Civil, está estabelecido um período de paz vigente na Sri Lanka, o que possibilitou uma importante retomada econômica e o reestabelecimento da infraestrutura básica do país na década de 2010.

O primeiro evento que quebra com o período estabelecido de paz no país ocorreu no dia 21 de abril de 2019, quando uma série de atentados terroristas contra igrejas cristãs e hotéis mataram cerca de 300 pessoas e deixaram 500 feridas.

Os atentados são reflexos do legado colonial que estabeleceu uma relação extremamente conflituosa no país com as populações cristãs, herdeiras das invasões portuguesas.