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Conheça Malinche, a índia que acompanhou Hernán Cortéz na ocupação do México

Falante de pelo menos três línguas, a índia foi obrigada a casar com o conquistador espanhol e conduzir seu grupo por dentro do continente

André Nogueira Publicado em 15/04/2019, às 09h14

Códice colonial, trecho sobre Malintzin
CEMA USP

Malinche (ou Malintzin, Malinalli ou ainda Marina), seu nome de batismo, foi uma importante figura da conquista do México pelos espanhóis. Ela era uma indígena nahuatl da Costa do Golfo do México. Quando pequena, foi capturada em uma guerra e vendida como escrava para uma família da comunidade de Xicalongo, onde aprendeu o nahuatl asteca e a língua maia.

Malinche se tornou figura central da conquista mexicana, pois, quando a equipe de Hernán Cortéz chegou a Tabasco, os astecas ofereceram vinte moças como presente aos espanhóis, incluindo ela. A equipe de Cortéz chegou à costa mexicana no início do século XVI e começou a desenvolver relações diplomáticas com os reinos lá estabelecidos, em especial o asteca de Moctezuma, ao qual os alvos principais de Cortéz – Teotihuacán e Tenochtitlán – pertenciam.

Malinche era, portanto, a tradutora principal da equipe espanhola, que tentava traçar relações vantajosas ao empreendimento colonial entre os diversos grupos que ocupavam o México indígena. Para conseguir se introduzir entre os inimigos e os aliados dos astecas, ou mesmo para compreender a geopolítica interna das posses do império de Moctezuma, Cortéz utilizou a intérprete indígena e teve bases para, depois, negociar alianças e travar guerras que lhe permitiram tomar Tenochtitlán e dominar o Planalto Mexicano.

É importante compreender a situação a qual Malinche se sujeitou. Apesar da romantização que é feita da situação entre a nativa e Cortéz, trata-se de uma situação em que a índia é obrigada a manter relações pessoais e sexuais com o conquistador estrangeiro, mesmo contra sua vontade. Principal responsável pela comunicação e guia da expedição, Malinche era o intermédio entre os espanhóis e os indígenas originais no México. Mas isso implicava na condução coercitiva da mulher entre a linha de frente da missão e a cama de seu comandante.

Como Cortéz era um católico casado, sua relação com Malinche só poderia ocorrer durante as campanhas de ocupação. Por isso, mesmo fazendo uma filha com ela, Cortéz transmite a posse de Malinche a Don Juan Xamarillo, com quem a índia se casou posteriormente e por quem ela recebeu títulos de nobreza.

É muito provável que as condições de existência de Malinche fossem deploráveis. Além de ser obrigada a se sujeitar a relações não consensuais, especialistas na Conquista apontam que ela dormia em uma gaiola de madeira, como uma escrava normal. Era também sujeita à violência, tida como normal na época, e obrigada a realizar os desejos de seu “marido”. Suas crenças e rituais culturais eram também sucumbidos e Malinche estava vulnerável a uma violência cultural, a ponto de ter sido batizada (independentemente da vontade), tornada cristã e recebido um novo nome, Doña Marina.

Para muitos mexicanos e na memória de grupos indígenas, Malinche é considerada uma traidora, pois ela teria mudado para o lado dos espanhóis, colaborado com a colonização e a dominação dos povos indígenas (e, no limite, na derrubada de Tenochtitlán). Cortéz também fez uma filha com Malinche, o que é somado à sua fama de traidora, pois ela teria (teoricamente por consenso) dormido e criado família com o branco colonizador. Ao mesmo tempo, a relação de Malinche com Cortéz fez criar sua fama de mãe na nação mexicana no século XIX, pois ela seria a união entre o indígena e o branco católico, formando o povo miscigenado do México.