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Jacarés eram usados para tortura em delegacia do RJ durante a Ditadura

Vindos da Amazônia, cinco filhotes de jacaré e uma jiboia eram métodos de tortura política nos anos 1970

André Nogueira Publicado em 27/03/2019, às 11h45

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Pixabay

Alguns métodos de tortura usados pelos militares são muito famosos, como o pau-de-arara, a cadeira-do-dragão e o eletrochoque. Porém, em alguns casos, o uso inusitado da criatividade, somado ao sadismo, leva a episódios quase inacreditáveis. Esse é o caso do Pelotão de Investigações Criminais (PIC) e Destacamento  de Operações de Informações do I Exército, no Rio de Janeiro, onde os porões abrigavam uma série de répteis usados na tortura das vítimas do DOI-CODI.

 
Paulo Malhães / Divulgação

Essa história envolve  o tenente-coronel Paulo Malhães, do Pelotão. Segundo depoimento posterior do militar, a história não só é verdadeira como também famosa entre os agentes da repressão. Malhães conta que o DOI do RJ foi convocado para uma das expedições na Floresta Amazônica durante  campanhas contra a guerrilha do PCdoB.

No Norte, depois de feitos os trabalhos, os oficiais tiveram a ideia de levar algum animal que assustasse os prisioneiros e aumentasse a tensão da situação. Com isso, Malhães trouxe para o Sudeste cinco filhotes de espécimes de jacarés e uma jibóia adulta do Rio Araguaia.

Malhães - ou "doutor pablo", como era chamado na repressão - trazia, após a sessão de tortura tradicional, os animais para causar mais desespero e aumentar o nível psicológico da tortura sofrida.

Relatos de torturados no DOI da Tijuca (PIC) e em Petrópólis (para onde Malhães vai depois, na "Casa da Morte") descrevem cenas nas quais eles eram deitados nus no chão enquanto Pablo arrastava o jacaré amarrado sobre os prisioneios. Depois, soltava as amarras do réptil e permitia que o animal caminhasse em cima deles e até que os mordessem, desde que houvesse possibilidade de controle para evitar o óbito súbito.

Casa da Morte, em Petrópolis / Wikimedia Commons

Os répteis foram utilizados na primeira metade da década de 1970, auge da repressão política no país, os famosos "Anos de Chumbo". Hoje, o pequeno edifício petropolitano na Arthur Barbosa, 668, ficou marcado pelo sadismo daqueles que trabalhavam lá. A fama era tão clara que o lugar ficou famoso como "Casa da Morte", pois do aparelho clandestino, montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE), saiu vivo apenas um dos mais de vinte presos políticos interrogados no prédio.

Malhães deixou sua marca na história da repressão política em sua experiência do DOI e, depois, em Petrópolis, quando assumiria um centro clandestino de tortura e assassinato na cidade.