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Conheça as principais relíquias adquiridas por Adolf Hitler

O plano do ditador nazista era conseguir artefatos históricos para se tornar um governante mundial

Fernando Badô Publicado em 20/04/2019, às 03h00

Adolf Hitler
Getty Images

Dominar o mundo à força não era o bastante para Adolf Hitler. Ele queria mais. Sonhava em legitimar sua liderança suprema sobre a "raça humana purificada". Para isso, durante os anos de conquista da Europa, utilizou o poder das tropas nazistas para pilhar artefatos históricos - muitos de inestimável valor religioso - que conferissem o status de "inquestionável" à sua liderança.

Lembrou-se dos filmes de Indiana Jones? Pois ficção e realidade encontram, no final da 2ª Guerra (1939-1945), um ponto de intersecção. O ditador alemão realmente tentou usar tal estratégia, e um professor descobriu a trama e acabou com os planos do Führer, como revela o historiador americano Sidney Kirkpatrick no livro As Relíquias Sagradas de Hitler.

Após ter acesso a informes do serviço de inteligência dos EUA, Kirkpatrick escreveu a história de como o primeiro-tenente do Exército Walter Horn soube do plano de Hitler para legitimar-se como governante mundial ao se apossar de um conjunto de ornamentos reais conhecidos como Joias da Coroa do Sacro Império Romano-Germânico - propriedade dos Kaisers, que durante mil anos (800 a 1806) foram os governantes máximos das terras unificadas da Europa Central, reinando com a bênção da Igreja Católica - e de um antigo artefato de guerra que supostamente seria a lendária Lança Sagrada - também conhecida como Lança do Destino e Lança do Longino -, com a qual um centurião romano teria perfurado o peito de Jesus, para certificar-se de sua morte após a crucificação.

Soa estranho pensar que Hitler imaginasse que a posse de tais objetos fosse capaz de legitimar seu domínio sobre o planeta. A hipótese levantada por Kirckpatrick é que o ditador alemão buscava símbolos. "A posse da Lança Sagrada e das Joias da Coroa pode ter sido, na mente de Hitler, um meio para justificar sua tentativa de conquistar o mundo ocidental, como fez Carlos Magno antes dele", afirma o pesquisador. "Também poderia explicar por que Hitler acreditava ter autoridade para cometer as atrocidades pelas quais seus capangas foram julgados em Nuremberg."

O que a Lança do Longino e as Joias da Coroa tinham em comum era o simbolismo. Para uma legião de fanáticos, elas bastariam para conferir ao governante um status quase divino. Haviam sido veneradas por plebeus e nobres e, nas mãos de Hitler, seriam grandes armas psicológicas para conquistar a confiança dos compatriotas.

A descoberta da trama

Tal como Indiana Jones, Walter Horn, então com 36 anos, era professor universitário. Lecionava História da Arte na Universidade de Berkeley, na Califórnia. O Exército dos EUA o convocou por falar alemão fluentemente - ele era alemão e havia fugido de seu país no período de ascensão do nazismo. Horn era um dos oficiais responsáveis por interrogar prisioneiros na primavera de 1945, meses antes de a Alemanha se render. Sua missão: descobrir se o inimigo utilizaria armas químicas ou biológicas contra as tropas aliadas.

Horn já acumulava 35 entrevistas, todas longas e inúteis, quando a sorte lhe revelou o plano de Adolf Hitler. O 36º interrogado foi o soldado raso Fritz Hüber, de 48 anos.Nada indicava que soubesse usar armas químicas ou biológicas. Estava magro, pálido e visivelmente afetado pelas noites maldormidas e pelo frio. Horn se compadeceu do prisioneiro, ofereceu-lhe um café e um cigarro e, antes de dispensá-lo, fez uma pergunta direta: "Sabe de algo que possa interessar à inteligência dos EUA?" Hüber respondeu com outra pergunta "Você se interessa por arte e antiguidades?".

Segundo Hüber, em Nuremberg, cidade considerada pelo próprio Hitler como "alma" do movimento nazista, um tesouro fora escondido sob o Kaiserburg, castelo imperial de grande importância histórica por ter sido residência oficial de todos os soberanos do Sacro Império Romano. Um bunker fora escavado na rocha sob o penhasco de arenito. Sua entrada era camuflada para parecer a garagem de uma loja de antiguidades. O esconderijo ultrasecreto só era conhecido por oficiais de alto escalão. Hüber só sabia de sua existência porque seu pai fazia a manutenção do sistema de ventilação e sua mãe limpava os artefatos escondidos.

Horn ouviu cada detalhe sobre o local, que guardava cerca de 100 objetos. Gravuras, esculturas, mapas, instrumentos musicais e muitas joias. Três chamaram sua atenção: uma coroa coberta com safiras, rubis e ametistas brutas; um conjunto de paramentos reais com figuras de camelos e leões adornados com pérolas; e uma caixa contendo uma almofada de veludo vermelho sobre a qual repousava um tipo de espada, a que as autoridades que frequentavam o local se referiam como "lança sagrada".

Não havia como ter certeza, mas as descrições levaram Horn a crer que Hitler estava de posse das Joias da Coroa do Sacro Império Romano e da Lança de Longino. Se estivesse certo, o bunker abrigaria o tesouro histórico do 3º Reich, onde estavam escondidos objetos que dariam a Hitler, pelo menos diante de seus seguidores mais fanáticos, o status de líder da humanidade.

Motivado mais pela chance de realizar uma descoberta arqueológica do que pela expectativa de seu relatório ser levado a sério pelo Exército, Horn juntou a transcrição da entrevista com um mapa desenhando por Hüber com a localização do bunker e enviou um relatório ao general George Patton, comandante do 3º Exército americano e líder da divisão de inteligência. Mas não esperava que seu relatório despertasse a atenção do oficial ou que a recuperação de relíquias históricas fosse considerada. O que Horn não sabia era que Patton tinha vasto conhecimento sobre artefatos históricos. E as Joias da Coroa exerciam sobre ele um especial fascínio. Quando, semanas depois, 5 mil soldados invadiram Nuremberg, uma divisão especial recebeu ordens para seguir o mapa de Horn. Encontraram o bunker abandonado e desprotegido.

Horn foi chamado para avaliar os artefatos. Viu obras de arte de valor inestimável, como A Saudação do Anjo, do escultor polonês Veit Stoss, identificou a suposta Lança do Destino, mas não encontrou as joias - recuperadas dias depois num abrigo antibombas. Os artefatos haviam sido removidos pela Gestapo para evitar que caíssem nas mãos dos aliados e, assim, não pudessem ser utilizados para dar continuidade ao plano de Hitler, de coroar-se o próximo imperador de um novo Sacro Império Romano-Germânico. Aquele que, nos sonhos megalomaníacos do Führer, também deveria durar mil anos.

Joias da Coroa do Sacro Império

O conjunto de artefatos reais era composto de coroa, cetro, orbe e das espadas imperiais, propriedades do Kaiser do Sacro Império Romano. Mais do que meros adornos, carregavam um simbolismo valiosíssimo, pois representavam a monarquia mundial germânica, que governava o planeta com a bênção da Igreja Católica, entidade que representava o próprio Deus na Terra. Não à toa, Napoleão as havia cobiçado quase 200 anos antes de Hitler.

A Lança Sagrada

Diz a Bíblia que, antes de ser removido da cruz, Jesus teve seu coração perfurado por um soldado romano. Segundo o Evangelho de João (Cap. 19, v. 34), a tarefa ficou a cargo de um centurião chamado Longino, com graves problemas de visão e incapaz de participar de batalhas. O sangue que jorrou de Jesus cobriu seus olhos, curando-os instantaneamente. Convertido pelo milagre, tornou-se cristão fervoroso, a ponto de ser santificado - você o conhece como são Longuinho, aquele que ajuda a encontrar objetos perdidos. À época do Sacro Império Romano, a tradição sugeria que Longino era ariano, descendente de tribos germânicas conquistadas pelos romanos. E mais: acreditava-se que quem empunhasse a lança levaria exércitos a vitórias em qualquer batalha e, portanto, teria o destino do mundo em suas mãos.

Indiana Jones da vida real

"A busca pelas relíquias sagradas é apenas um pano de fundo para a história de Walter Horn", afirma o autor do livro, Sidney Kirkpatrick. De fato, sem o conhecimento e a perspicácia do professor, talvez o plano de Hitler de perpetuar o regime fosse levado a cabo pelos nazistas após a sua morte.

Horn nasceu na Alemanha. Estudou história da arte na Universidade de Heidelberg e fez doutorado em Hamburgo. Opositor do nazismo, deixou o país em 1934 para se tornar pesquisador no Instituto Alemão de Arte em Florença, na Itália. Em 1938, emigrou para os EUA e foi morar na Califórnia.

Por sua contribuição na descoberta das relíquias, Horn foi promovido a capitão. Morreu aos 87 anos, em 1995. Por ordem do supremo comandante das Forças Aliadas, general Dwight D. Eisenhower, as Joias da Coroa foram devolvidas a Viena em janeiro de 1946.


Saiba Mais

As Relíquias Sagradas de Hitler, Sidney D. Kirkpatrick, Editora Sextante, 408 páginas