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Conheça Ruby Bridges, a primeira aluna negra a pisar em uma escola para brancos nos EUA

Na época em que era proibido que negros compartilhassem espaços com brancos, essa estudante deu o primeiro passo para a escola multirracial

André Nogueira Publicado em 18/04/2019, às 13h00

Ruby sai da escola escoltada por policiais
Reprodução

Desde a abolição da escravidão, no século XIX, os EUA possuem um problema relativo à questão racial. Assim como foi na África do Sul e quase aconteceu no Brasil, os EUA possuíam um sistema legal estruturado que obrigava a separação de espaços para pessoas brancas, nos centros urbanos, e negros, nas periferias.

As praças eram destinadas para grupos específicos, baseados em cor. Os bebedouros eram separados. Havia delimitações policiais dentro dos ônibus para a segregação. E as escolas não eram diferentes: havia escolas para pessoas brancas e escolas para pessoas negras (normalmente, de pior qualidade). O regime de segregação racial, ou apartheid, era uma política oficial de estado e começou a ser abertamente questionado pelos movimentos de direitos civis nos anos 1950 e 1960.

 

Os ônibus tinham separações e o fundo era reservado aos negros (Reprodução)

 

Um dos primeiros casos de tentativas oficiais de mudar o sistema segregacionista foi implantado no estado da Louisiana: foi arquitetado um projeto do governo federal de entrada de alunos negros nas escolas de educação infantil, numa tentativa de acabar com a segregação na educação. Houve uma primeira tentativa, que tinha que lidar não somente com a estrutura legal da segregação, mas também com a resistência das pessoas que, interiorizado o racismo e a defesa da segregação, se negavam a aceitar o projeto de integração entre pessoas brancas e negras.

A primeira tentativa deste projeto ficou a cargo da pequena Ruby Bridges, uma garota negra de 6 anos de idade e que foi a primeira criança negra dos EUA a estudar oficialmente em uma escola destinada a crianças brancas.

Ruby, então, se dirigiu à escola William Frantz, em Nova Orleans, no dia 14 de novembro de 1960. É claro que o projeto e a participação de Ruby exigiu uma coragem destacada, pois sua própria vida e a integridade física estavam em risco com a situação, que poderia se deparar com algum extremista ou qualquer manifestação mais violenta de racismo. Por isso, Ruby passou todo o processo escoltada por policiais federais. Porém, ao entrar na escola, Ruby deu de cara com um prédio vazio. E, em protesto ao projeto, o corpo de professores da instituição se recusou a ministrar as aulas nessa situação diferenciada e declarou que só iria dar aulas às crianças brancas. Os pais também se mobilizaram e não levaram seus filhos para a escola neste dia, se recusando a sujeitar seus filhos ao contato com uma pessoa negra.

Wikimedia Commons

Somente uma professora daquela escola aceitou a situação e ficou solitária nas dependências do prédio na chegada da nova aluna. E assim fez, ministrando as aulas durante o ano inteiro, fazendo como se a presença geral dos alunos seguisse em sua normalidade.

No fim do período do primeiro dia de aula, Ruby saiu escoltada por três delegados armados e preparados, pois era de conhecimento geral a multidão de 1.000 pessoas brancas em protesto na frente da escola, gritando, ofendendo e cuspindo em cima da criança, em apoio ao racismo estrutural e das leis de segregação, chegando a jurar várias vezes à morte de Ruby.

Porém, a menina não perdeu a postura de coragem pelo feito histórico. É registrado que o delegado federal Charles Burks destacou em sua fala a coragem da menina: "Ela mostrou muita coragem. Ela nunca chorou. Ela não choramingou. Ela só marchava como um pequeno soldado, e nós estamos todos muito, muito orgulhosos dela".

As lutas contra a segregação duraram anos nos EUA e foi necessária muita luta pelo fim do sistema violento e racista que separava os brancos dos negros em um esquema que claramente visava prejudicar a população negra do país e subjugá-la à suposta inferioridade. É claro que a história destacou os nomes de Martin Luther King e Malcolm X nas lutas pelos direitos civis, mas muita gente esteve presente contra o racismo da população mais poderosa dos EUA e a favor da igualdade.