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A fotografia no Brasil Império: Conheça os fotógrafos da Casa Imperial

Considerada uma das maiores invenções do século 19, a fotografia se tornou um dos maiores apreços da família imperial brasileira

Érica Georgino Publicado em 13/06/2012, às 16h14 - Atualizado em 24/08/2021, às 16h14

Família Real durante o governo de Pedro II
Família Real durante o governo de Pedro II - Otto Hees (1870-1940) / Domínio Público, via Wikimedia Commons

Uma das maiores invenções do século 19, a fotografia logo caiu nos encantos dos brasileiros, graças ao imperador Dom Pedro II. Na época, a inovação tecnológica foi responsável por revolucionar a sociedade imperial.

O último imperador, por exemplo, montou um dos primeiros e mais ricos acervos fotográficos do mundo, com mais de 30 mil imagens do Brasil e de outras partes do planeta. 

Durante este período houve, ainda, um grande incentivo ao profissionais desta área, que eram amplamente reconhecidos. A Casa Imperial, por exemplo, chegou a ter fotógrafos oficiais.

A fotografia no século 19

Quando o abade Louis Compte desembarcou do vapor L'Orientale no Rio de Janeiro, em meados de 1839, tutelando um punhado de rapazes ricos da Bélgica e da França que viajavam pelo mundo para aprender noções de marinha e comércio, ninguém esperava que de sua bagagem sairia uma das maiores novidades do século 19, determinante para o desenvolvimento das comunicações no século seguinte.

É preciso ter visto a cousa com os seus próprios olhos para se poder fazer ideia da rapidez e do resultado da operação", como disse ele.

As demonstrações de Compte, provavelmente as primeiras realizadas na América do Sul, foram registradas pelo Jornal do Commercio em 17 de janeiro de 1840 e introduziram por aqui a daguerreotipia, primeiro processo fotográfico comercialmente viável, criado pelo francês Louis Daguerre.

A inovação — oficialmente apresentada à comunidade acadêmica internacional cinco meses antes — encantou a todos, inclusive a um rapazote de 14 anos chamado Pedro de Alcântara.

Ele adquiriu um equipamento de daguerreotipia. No ano seguinte, teve a maioridade antecipada e tornou-se a autoridade máxima do Império como Dom Pedro II.

Por meio de Compte, o Brasil entrou novamente na rota da fotografia. A primeira vez foi longe dos holofotes da ciência internacional: Hercule Florence, em 1833, fez uso pioneiro do termo photographie.

Francês radicado em Campinas (SP), Florence desenvolveu experiências fotoquímicas precursoras que culminaram com a descoberta isolada e independente de um processo fotográfico. Dom Pedro II o conheceu décadas depois, quando seu interesse pelo que representava a fotografia já era quase uma mania.

Apreço real

O imperador foi um dos maiores entusiastas da fotografia no Brasil do século 19.

Dom Pedro II possuía grande sensibilidade científica e artística. Logo que conheceu a novidade, teve consciência de que estava lidando com algo relevante", disse Sergio Burgi.

A atração era tamanha que, em 1851, decidiu criar a qualificação de Photographo da Caza Imperial e atribuí-la aos seus profissionais prediletos. 

O primeiro agraciado foi o suíço Louis Buvelot, reconhecido pintor. Depois dele, mais 22 fotógrafos receberam o título de Dom Pedro. Marc Ferrez, um dos mais bem-sucedidos do período, recebeu título semelhante: era fotógrafo da "Marinha Imperial".

Na prática, ser "retratista de Suas Majestades Imperiais" significava um atestado de qualidade profissional. Representava prestígio junto à elite, público-alvo da atividade em seus anos iniciais, e significava ter a família real como importante — quando não a principal — consumidora de seus serviços.

A admiração pela nova arte enredou também a imperatriz Thereza Christina Maria e as princesas Isabel e Leopoldina. Alguns fotógrafos da Caza — como o português Joaquim Insley Pacheco e os alemães Augusto Stahl e Revert Henrique Klumb — partilharam até mesmo da intimidade real.

Klumb, por exemplo, mudou-se para Petrópolis e em 1865 passou a dar aulas de fotografia a Isabel. Nas décadas de 1840 e 50, a fotografia era um misto de indústria e artesanato. O fotógrafo preparava a sua própria chapa e organizava suas ampliações e cópias. Alguns até se associavam a químicos para facilitar o processo e ganhar escala — o processo fotográfico envolvia o uso de reagentes e outros produtos.

O retrato de estúdio era o ganha-pão dos estabelecimentos fotográficos do século 19. Durante os primeiros 20 anos após o advento da fotografia, entre 1840 e 60, o gênero atendeu aos desejos de autorrepresentação de uma pequena classe constituída pela nobreza oficial e pela elite agrária", afirmou o historiador da fotografia Boris Kossoy, autor de Origens e Expansão da Fotografia no Brasil.

Com o tempo, novos temas foram explorados: as paisagens urbana e rural, as construções ferroviárias, os primeiros passos da industrialização, cenas de conflitos armados, todos devidamente registrados não apenas pelos integrantes da Caza Imperial.

Os fotógrafos de Dom Pedro II traçaram trajetórias de competência artística, marcadas pelo sucesso comercial, mas isso não significa que fossem superiores a profissionais que mantinham suas atividades também no Rio de Janeiro, ou muito além da corte", disse Kossoy.

Com o crescimento das cidades e a formação de uma classe média urbana, a fotografia atingiu um expressivo mercado consumidor. O interesse crescente era acompanhado, como não poderia deixar de ser, pela expansão do número de profissionais especializados.

Contudo, destituída do poder em 1889, a família imperial perdeu seus privilégios e embarcou rumo à Europa. Mais tarde, do exílio, Dom Pedro II ordenou a doação de todo seu acervo de fotografias à Biblioteca Nacional. Cerca de 25 mil imagens foram transferidas à instituição. A única exigência fo imperador foi que a coleção levasse o nome da imperatriz, Thereza Christina Maria. É lá que estão até hoje.

Os fotógrafos

As pesquisas de Kossoy indicam que, em 1840, o Brasil possuía aproximadamente 30 fotógrafos, concentrados principalmente na capital, o Rio de Janeiro. Na década seguinte, o contingente teria aumentado para ao menos 90 profissionais, presentes em todas as regiões do país.

Há casos curiosos, como o do espanhol Juan Gutierrez de Padilla, nomeado profissional da Caza Imperial às vésperas da queda do regime monarquista. Gutierrez chegou a produzir retratos com os emblemas reais, mas o material foi descartado assim que o levante militar levou Deodoro da Fonseca ao poder. Morreu em 1897 lutando, como republicano convicto, nas trincheiras da Guerra de Canudos.

Confira abaixo alguns fotógrafos da época: 

1. Augusto Stahl (1824-1877)

  • Origem: Alsácia, na época parte da Alemanha
  • Fotógrafo imperial desde 1862
  • Especialidade: Paisagens, retratos da família imperial e a construção de estradas de ferro. Presenteava membros da corte com estojos com suas fotos.

2. Alberto Henschel (1827-1882)

  • Origem: Berlim, Alemanha
  • Fotógrafo imperial desde 1874
  • Especialidade: Retratos e paisagens. Conhecido como o mais bem-sucedido empresário da fotografia do Império, teve estúdios em Salvador, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.

3. Revert Klumb (?-1886)

  • Origem: Alemanha
  • Fotógrafo imperial desde 1861
  • Especialidade: Paisagens e retratos da família imperial. Professor da princesa Isabel, fotografou plantas, aves e naturezas-mortas. Autor das primeiras publicações sobre fotografia no Brasil.

4. Juan Gutierrez de Padilla (1859-1897)

  • Origem: Espanha
  • Fotógrafo imperial desde 1889
  • Especialidade: Retratos e paisagens cariocas. Estabeleceu-se no Rio de Janeiro, onde montou a Fotografia União e fotografou cenas da Revolta da Armada, entre 1893 e 1894.

5. João Ferreira Villela (não há dados oficiais de nascimento e morte)

  • Origem: Pernambuco
  • Fotógrafo imperial desde 1860
  • Especialidades: Retratos e imagens de Pernambuco. Presenteou dom Pedro com paisagens do Nordeste. Abandonou a fotografia para se dedicar à fabricação de tintas de impressão.

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