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Chica da Silva: Um mito brasileiro

O que a TV e o cinema nunca mostraram – e o que isso diz sobre o racismo no Brasil

Dimalice Nunes Publicado em 11/05/2019, às 05h00

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- Arquivo AH

Existem duas mulheres cujo nome tem o mesmo som, mas grafias e significados diferentes.

Uma é Xica com xis. A escrava que venceu todo o tipo de dificuldades para se tornar uma das mais poderosas mulheres da América a seu tempo. A devoradora de homens que, por meio de sua irresistível magia sexual e pura força de caráter, pôs de joelhos um dos homens mais poderosos de era da mineração. Conseguiu inimagináveis privilégios — como uma igreja só para ela, quando foi, pela sua cor, barrada da capela local. Uma mulher imporia sua aceitação pela sociedade branca, numa vingança, exibindo a força de uma sensualidade que as europeias não tinham. 

E há a Chica com ch. A figura histórica, não a fantasia de carnaval. Assim como seu nome respeita a ortografia da língua portuguesa, seria uma figura inserida nas regras da sociedade colonial do século 18. Não uma contestadora, nem uma vítima, mas um figura de sua época cuja história seria usada para construir um mito, parte importante a própria identidade da nação brasileira. Mas um mito que precisa ser revisado.

Origem

Francisca da Silva de Oliveira nasceu no povoado de Milho Verde, no Arraial do Tijuco, região que hoje é a cidade mineira de Diamantina. A data é imprecisa, entre 1731 e 1735.

Era filha de branco português, o capitão das ordenanças Antônio Caetano de Sá, e da negra Maria da Costa, que veio da África ainda criança, da Costa da Guiné. Como a mãe não havia sido alforriada e a relação era ilegítima, pouco importava seus genes europeus, ela herdou a condição de escrava.

Minas Gerais havia surgido numa corrida do ouro e pedras preciosas, menos de 4 décadas antes de ela nascer. O Brasil colonial era visto como uma terra hostil pelos portugueses, quente demais e civilizado de menos. Era uma aventura, não um lar. Algo que, numa sociedade patriarcal, definitivamente não era para mulheres.

As mulheres, assim, eram do tipo que não estava lá por opção. Negras, escravas ou forras, que não seriam aceitas em Portugal. Daí as frequentes relações entre elas e os portugueses. 

O censo de 1738 da comarca do Serro do Frio, que incluía o distrito diamantino, revela que, do total de 9681 habitantes, 83,5% eram homens e 16,5%, mulheres. Entre os escravos, o sexo feminino representava apenas 3,1%, já que o trabalho da mineração era prioritariamente desempenhado por homens.

Entre os forros, as proporções se invertem e as mulheres são maioria. O mesmo documento informa que dos 387 forros, 63% eram do sexo feminino contra 37% do sexo masculino.

História Comum

Chica era escrava de Manuel Pires Sardinha, que a tomou por amante quando ela ainda era adolescente. Foi com ele que Chica teve seu primeiro filho, Simão Pires Sardinha.

"Ao contrário do que sempre pensamos, havia muitas ‘Chicas’ na região e no período, ela apenas foi a mais paradigmática. Quase todos os homens brancos na área diamantina e do ouro eram amasiados publicamente com negras", afirma Ana Miranda, autora do mais recente livro sobre a vida de Chica, Xica da Silva - A Cinderela Negra. 

Como conta a escritora, escravas de 12 ou 13 anos já eram, para todos os fins, mulheres adultas. Pelo trabalho extenuante que desempenhavam, e também pela situação degradante de abusos sexuais a que eram submetidas. Para a autora, "esse sofrimento redundava em maturidade ou, algumas vezes, em malícia, astúcia e dissimulação". 

Família brasileira no Rio de Janeiro / Crédito: Wikimedia Commons

Em 1753, com pouco mais de 20 anos, Chica foi comprada por João Fernandes de Oliveira, recém-chegado negociante de diamantes. Era comum na época que senhores de escravos alforriassem suas amantes – depois de anos, não em dois meses, como no caso dela. Imediatamente, a relação dos dois passou a ser pública. 

Nessa parte, costuma entrar a narrativa da sedução, da “compra” da alforria através do poder sexual. A historiadora Júnia Furtado acredita que não era assim. João Fernandes teria desde sempre a intenção de comprar uma esposa, antes de fechar negócio. Tanto que os dois viveram juntos por 17 anos e tiveram 13 filhos, todos plenamente aceitos. Separaram-se em 1770, quando João teve que voltar a Portugal para resolver o inventário de seu pai e levou consigo os quatro filhos homens. 

Construindo Xica

A história de Chica da Silva sobreviveu exclusivamente na cultura oral por mais de 100 anos. Até 1868, quando o advogado diamantinense Joaquim Felício dos Santos, que atuou em nome de seus descendentes, escreveu sobre ela em suas Memórias do Distrito Diamantino.

Mas essa primeira encarnação do mito de Xica da Silva era bem diferente do que conhecemos hoje. Assim a descreveu seu autor: “tinha as feições grosseiras, alta, corpulenta, trazia a cabeça rapada e coberta com uma cabeleira anelada em caixos pendentes, como então se usava; não possuía graças, não possuía beleza, não possuía espírito, não tivera educação, enfim não possuía atrativo algum, que pudesse justificar uma forte paixão”.

Segundo a historiadora Júnia Furtado, o autor reconstruiu a personagem conforme a visão que predominava em sua época e projetou suas impressões no século anterior. Joaquim Felício se baseou em cenas de seu cotidiano social, em que a mulher e a família deviam seguir à risca a moral cristã e onde imperavam os preconceitos contra ex-escravos, mulheres negras e uniões consensuais – isto é, fruto da paixão, não do acordo entre as famílias.

Era natural para ele, naquele contexto, demonizar a relação entre Chica e seu companheiro, descrevê-la como a encarnação de todos os estereótipos negativos da mulher negra: perversa, hipersexualizada, manipuladora e autoritária. 

Mas a versão popular, livre desses traços moralizantes, continuou viva no mito. Nos anos 50, Em Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles escreve: “Nem Santa Ifigênia, toda em festa acesa, brilha mais que a negra, na sua riqueza. Contemplai, branquinhas, na sua varanda, a Chica da Silva, a Chica-que-manda!”.

Cena do filme 'Chica da Silva', de 1976 / Crédito: Reprodução

 

Os versos mais uma vez reforçam os traços de uma mulher voluntariosa, que apostava na ostentação, e tinha todos os desejos realizados pelo contratador de diamantes. 

Mais de um século depois, o sobrinho-neto de Joaquim Felício, João Felício dos Santos, revisitou a história e escreveu, em 1976, Xica da Silva, romance que serviu de inspiração para o filme de Cacá Diegues, realizado no mesmo ano. Segundo Júnia, João Felício reatualiza o mito e lhe atribui características ainda mais ao gosto da liberação sexual da década de 1970. A sexualidade, no lugar de torná-la um monstro, fazia dela libertadora.

De uma lenda da cidade de Diamantina, Xica da Silva tomou o país. "O cinema democratizou o mito e o tamanho da tela foi proporcional às dimensões que ele alcançou tanto no Brasil como no exterior", diz Júnia Furtado. O filme modificou até a grafia do nome e fez com que a figura da ex-escrava se mantivesse eternamente associada à sensualidade e à beleza. E rompeu definitivamente a imagem grotesca que Joaquim Felício compusera e que a historiografia ainda não havia contestado.

"Por não estar vinculado a essa tradição, e tendo como missão conquistar o espectador, o cinema, ao enfatizar a sensualidade da mulher negra, construiu um mito que se ajustava ao imaginário coletivo da época", conclui a historiadora. A novela, nos anos 1990, reforçou essa imagem. 

Mãe exemplar

Das memórias de Joaquim Felício à novela da extinta Manchete, Chica da Silva sempre foi descrita como lasciva e dominadora, uma mulher insaciável e capaz de dominar qualquer homem com o poder de seu corpo.

Mas façamos um teste de realidade aqui. O período da vida de Chica descrito na literatura, no cinema ou na TV é aquele em que ela viveu com João Fernandes, o contratador de diamantes. Foram 17 anos em que ela teve 13 filhos. Ou seja: ela esteve grávida por metade do relacionamento com João.

Representação de Chica / Crédito: Reprodução

Documentos de instituições de ensino atestam o cuidado de Chica e João Fernandes com a educação formal dos filhos. Enquanto os quatro meninos frequentaram a escola na infância e seguiram com os estudos até a Universidade depois que foram com o pai para Portugal, as nove meninas foram internadas no Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição de Monte Alegre de Macaúbas, o melhor educandário da capitania, destinado às filhas da elite mineira. 

Após sua partida, João Fernandes deixou para Chica bens suficientes para que ela e as filhas vivessem com conforto até o fim dos seus dias. Não há registros de outros relacionamentos amorosos de Chica.

Note-se aqui a história de uma mãe e dona de casa exemplar para os padrões da época e, dadas as vicissitudes da biologia, provavelmente com um aspecto bem mais caseiro que as sex symbols da TV e cinema.

E, mesmo sendo assim tão dedicada, a inserção dessa mulher exemplar na sociedade branca não foi tão fácil quanto nos filmes. Segundo os estudos de Júnia Furtado, percebe-se a desigualdade do relacionamento entre Chica e João nas certidões de batismo dos filhos.

Lá constam nomes de padrinhos pouco notáveis socialmente, o que não era o razoável diante da riqueza do casal. Isto é, ninguém quis se comprometer batizando os mestiços. Além disso, documentos importantes para dar destino à herança do ex-contratador omitem o nome de Chica com o intuito de apagar a ascendência africana dos filhos do casal. 

Nem veio tampouco de uma suposta rebeldia, uma personalidade explosiva. Os registros históricos levantados por Júnia Furtado mostram que Chica buscava a inserção mais completa possível. Ela adotou ao máximo os valores da elite para poder pertencer a ela de alguma forma, inclusive sendo proprietária de escravos. Os registros apontam que Chica chegou a ter 100 escravos e teria alforriado poucos deles. 

Como conta Júnia, as escravas forras como Chica procuravam imitar os hábitos e costumes das mulheres brancas, reproduzindo, nunca renegando, o mundo daqueles que a submeteram à escravidão. Nesse sentido, a alforria não tem papel de afirmação de identidade, mas de início de um processo de inserção no mundo dos brancos.

Taís Araújo como Chica da Silva em novela de 1996 / Crédito: Reprodução

 

"Sua trajetória revela a tentativa de branqueamento como forma de se inserirem mais favoravelmente na sociedade preconceituosa que e que, longe de ser uma democracia racial, apresentava mecanismos de exclusão baseados na cor, na raça e na condição de nascimento", explica Júnia em seu livro.

Não a sensualidade nem a força do caráter, mas o dinheiro. Esse foi, sem dúvida, o maior aliado de Chica. Porque dinheiro não tem cor. Ser membro de irmandades religiosas era parte das funções de uma mulher colonial honrada e Chica cumpriu a exigência à risca.

Foi por meio de gordas doações que ela se associou não a uma, mas a quatro irmandades religiosas: as do Carmo e de São Francisco de Assis, exclusivamente para brancos; das Mercês, exclusiva dos mestiços; e do Rosário dos Pretos, reservada aos negros. 

Chica da Silva morreu em 1796 e foi enterrada na igreja de São Francisco de Assis, local destinado exclusivamente a brancos endinheirados. Os historiadores afirmam que talvez esse seja o principal símbolo da inserção de Chica na elite da sociedade em que viveu. 

O elefante na sala

Xica da Silva, o mito, participou da reafirmação de outro mito muito caro ao nacionalismo brasileiro – a democracia racial. "A sustentação simbólica desse mito de nação passa pela seleção de símbolos que reforçam a crença na fraternidade racial, marcada por uma suposta igualdade nas relações sociais.

Chica da Silva é um desses casos, tomados como exemplo da nossa convivência harmônica", explica a socióloga Flávia Rios, especialista em relações de gênero e raça e estudiosa de mulheres negras na história do Brasil. "Ela é ainda mais marcante porque envolve a dimensão íntima e sexual das relações raciais no Brasil que fundamentaria a democracia racial", afirma Flávia. 

A representação de Chica da Silva, por meio de Xica, também foi parte da construção da imagem da mulher negra no Brasil. Como explica Flávia, "ela é nossa matriz nacional da feminilidade negra e esse padrão estético ainda marca o imaginário publicitário, por exemplo." Ainda segundo Flávia, o problema do estereótipo é que ele cria realidade e fixa imagens. "Combater esses estereótipos, penso, faria emergir variadas experiências de vivência das mulheres negras", conclui Flávia. 

O tema da democracia racial também é abordado por Júnia Furtado em seu livro. Para a historiadora, "sob o manto de uma pretensa democracia racial, sutil e veladamente a sociedade mestiça procurava se branquear e escondia a fria exclusão social e racial."

A tentativa de branqueamento acompanhou os descendentes de Chica e o destino de seus filhos foi paradoxal. Houve ocasiões em que a fortuna que herdaram, assim como a importância do pai e dos ascendentes paternos, foram determinantes. Em outras, a cor que herdaram da mãe e sua condição de ex-escrava pesaram negativamente. "Por mais fluida que parecesse ser, a sociedade em que viviam ainda valorizava a situação de nascimento, estigma que era transferido por diversas gerações", afirma Júnia. 

João Fernandes de Oliveira Grijó, o primogênito masculino, foi nomeado o principal herdeiro de seu pai e recebeu dois terços de tudo que ele deixou quando morreu. Dinheiro nunca foi problema. Mas como seu pai tinha por meta dar prosseguimento ao processo de tornar a família cada vez mais notável, as cláusulas de sucessão impediam o livre casamento dos herdeiros até os trinta anos. Eles só poderiam se casar com membros mais nobres do que eles mesmos.

Figura carnavalesca

Não foi o que aconteceu, já que Grijó se casou com 28 anos com uma filha de lavradores. O casamento foi autorizado pelo governo português sob dois argumentos: o primeiro de que a noiva estaria grávida e era necessário reparar sua honra. O segundo era que, em sua condição de mestiço, era praticamente impossível conseguir um casamento como o exigido pelo pai. 

Quanto às filhas, como a mãe, conseguiram se casar com jovens portugueses. A herança recebida do pai foi suficiente para o pagamento dos dotes. Mesmo assim, algumas delas jamais legitimaram suas relações.

Ilustração representando a personagem / Crédito: Reprodução

Ao longo dos anos, e bem recentemente, Xica da Silva foi encarada como uma história exemplar do que supostamente único e positivo na história brasileira. Sua história mostrava que tudo era possível no país da democracia racial. Sua mística sexual falava a certo romantismo exótico, dos mestiços como uma espécie de produto do terror nacional. Da figura carnavalesca da “mulata”. 

Esta é a única vez em que a palavra apareceu neste texto, e por boas razões. Mulato ou mulata é uma derivação da palavra mula, a fêmea estéril que nasce do cruzamento entre um jumento e uma égua. Os registros etimológicos mostram que foi durante o período da escravidão no Brasil que o termo começou a ser usado para se referir aos filhos de negros com brancos, pessoas vistas naquela época como uma categoria à parte, como híbridos.

Ao longo da história brasileira, isso servia como uma distinção racista, afirmar que alguém era “menos que preto”, abrindo portas de inclusão social. No caso das mulheres, essa distinção também levou a certo fetiche, celebrado em verso e prosa. De que haveria uma capacidade sexual superior na mestiça – tornada, às vezes descaradamente, um produto regional, atrativo turístico do Brasil.

A nova Chica, com ch, surge da revisão de velhas ideias que o Brasil tinha a respeito de si próprio. "A produção científica tem sido uma arma importante contra as ideologias raciais no Brasil. Quanto mais avança, mais sabemos dos processos sociais que produzem diferenças e desigualdades raciais na formação de nossa nação", conclui Flávia Rios.