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O que os zumbis do cinema têm a ver com Zumbi dos Palmares?

Entenda como uma lenda que refletia o medo da escravidão deu origem a um dos maiores ícones do cinema

Fábio Marton Publicado em 20/11/2018, às 13h00

Capa do filme 'Todo Mundo Quase Morto', filme de 2004
Capa do filme 'Todo Mundo Quase Morto', filme de 2004 - Reprodução

O que tem a ver os mais célebres – e, a esta altura, superexpostos – monstros canibais do cinema com as lendas do vudu haitiano e o mais famoso líder quilombola do Brasil colonial? Nas línguas da família bantu, como o quimbundo de Angola, a palavra nzumbi evoca algo como “espírito”, “fantasma” ou “morto”. Nzambi, o espírito de tudo, é o maior dos deuses. E a palavra inglesa zombie veio do português, usada pela primeira vez em 1819, num texto do poeta inglês Robert Southey ao mencionar ninguém menos que Zumbi dos Palmares.

O líder quilombola era chamado assim porque tinha fama de ser imortal, um poderoso espírito. No Haiti, o significado era mais tétrico. Por lá, um zumbi é um morto-vivo – mas muito diferente do hollywoodiano. Um zombi é um morto reanimado por um bokor, um mago vudu, que vive de trabalhos por encomenda. Ele pode ter duas formas. Um zumbi astral é um espírito preso em uma garrafa, servindo para dar poder e sorte ao portador. Um zumbi físico é um corpo ressuscitado e sem mente própria. Ambos presos e escravizados pelo feiticeiro, num ritual de magia negra.

É interessante notar o quanto o horror do zumbi diz a respeito do Haiti, um país que nasceu de uma grande rebelião de escravos. É um jeito de continuar a ser um escravo mesmo após a morte. Um pavor existencial que fazia todo o sentido para os haitianos.

Zumbi dos Palmares, por Antônio Parreiras, 1927 Domínio Público

Esses zumbis não eram canibais, muito menos contagiosos. Nem fictícios, possivelmente: em 1980 Clairvius Narcisse reapareceu para sua família após 16 anos. Em 1964, ele havia sido admitido num hospital, alucinando, tendo seu óbito decretado pelos médicos e sendo enterrado, após 24 horas no necrotério. Segundo ele próprio contou para a imprensa mundial, um bokor o havia atacado com um pó, que o levou ao hospital.

Após seu enterro, foi resgatado da sepultura de noite e obrigado a tomar uma poção misteriosa. Serviria como escravo numa plantação de cana, por dois anos. Quando o dono da propriedade morreu, ele e os demais “zumbis” passaram a vagar, confusos, acreditando serem, de fato, mortos-vivos. E, na ausência da poção do controle, recuperando aos poucos a memória.

O antropólogo canadense Wade Wilson estudou o caso e acredita ter descoberto os ingredientes no pó e na poção: o primeiro seria composto de tetrodotoxina, o veneno do baiacu. Frequentemente fatal, na dose certa pode simular um estado temporário de “morte” que pode tapear médicos modernos. A poção levaria plantas alucinógenas potentes, como as do gênero Datura. Acreditando ter mesmo morrido, e sem ter mais qualquer papel a cumprir na sociedade, a vítima aceitava sua nova identidade como zumbi. Outra parte do mito hollywoodiano veio da Europa. Na Idade Média, havia lendas sobre os revenants, corpos reanimados de pessoas malignas ou amaldiçoadas – um grupo que incluía os vampiros, mortos-vivos sugadores de sangue, que não viviam em castelos, mas no cemitério atrás da igreja.

Pôster de White Zombie, filme que colocou o termo "zumbi" na cultura popular ocidental Reprodução

As duas tradições se encontram no começo do século 20. Em 1922, H. P. Lovecraft lança seu conto Herbert West – Reanimador. É a primeira história em que os mortos-vivos surgem por um processo científico. E nela, ao contrário dos revenants medievais ou dos zumbis haitianos, eram tomados por uma fúria animal incontrolável. Lovecraft não usou o termo “zumbi”, porque esse só entraria para a cultura popular ocidental depois. Foi com o filme White Zombie, de 1932. Nele, Bela Lugosi é um bokor branco que controla um exército de zumbis e quer zumbificar a mocinha.

Finalmente, em 1968, veio George Romero. Ele dá (des)vida à forma definitiva do zumbi hollywoodiano moderno em seu A Noite dos Mortos-Vivos. Eles são reanimados por um vírus espacial vinda de uma sonda que caiu na Terra e se espalham como uma praga, causando a queda da civilização. Jamais no filme é usada a palavra “zumbi”. Romero estava bem ciente de que suas criaturas nada tinham a ver como o folclore haitiano. Mas ela já estava no vernáculo, e todo mundo chamou os mortos-vivos de Romero e seus sucessores de zumbis.

Ainda hoje, aliás, a tradição de Romero é mantida. Quase nenhum filme de zumbi usa a palavra “zumbi”. Isso geralmente é reservado a comédias, como Zumbilândia (2009) e Todo Mundo Quase Morto (2004).