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Discriminação de anos: a cruel saga dos Dalit, na Índia

Cerca de 18% da população indiana engloba os Dalit, que constantemente sofrem discriminação devido à tradição do sistema de castas, ainda muito enraizada na cultura do país

Giovanna Gomes e Beto Gomes Publicado em 29/12/2020, às 15h37 - Atualizado às 22h11

Mulheres dalit em protesto
Mulheres dalit em protesto - Wikimedia Commons

O sistema de castas divide os hindus em rígidos grupos hierárquicos, determinados por nascimento. Assim, caso uma pessoa pertença a uma família de casta superior, ela será respeitada socialmente.

No entanto, seu prestígio será, de maneira fixa, gradualmente menor dependendo do grupo ao qual pertence. Mas, ao contrário do que muitos pensam, não são todos que possuem uma casta. 

Conforme a tradição, existe um enorme grupo, que não se encaixa nem mesmo entre as pessoas de menor prestígio: os Dalit. Constantemente alvos de discriminação, eram chamados de 'intocáveis'.

Origem 

No início, quatro castas foram estabelecidas a partir da observação das aptidões naturais de cada grupo: brâmanes, a classe dos sábios, sacerdotes e professores, incumbidos da orientação espiritual e aconselhamento dos governantes; xátrias, a casta guerreira, encarregada de manter a ordem política e garantir a proteção social; vaixás, composta de comerciantes, artesãos e grandes proprietários de terras, responsáveis pela economia da sociedade; e sudras, ou trabalhadores braçais, que deveriam seguir os desígnios das outras três classes.

De acordo com a teoria da invasão indo-ariana, essas eram as castas dos harapianos depois que foram assimilados pelos védicos. Com o passar dos anos, multiplicaram-se e, hoje, estima-se que haja mais de 2 mil castas. Surgiram, por exemplo, os párias, cujo grau mais baixo é o dos chantalas – ou intocáveis, pessoas sem função social, como mendigos e andarilhos.

Homens pertencentes à casta dos Brahmins/ Crédito: Pixabay

 

Assim, pelo sobrenome, que denuncia a origem de cada um, inúmeras pessoas sofrem com o preconceito.

Como vivem?

Diferindo a partir da posição, as castas historicamente viveram segregadas. Para se ter ideia, nem mesmo poços poderiam ser usados por pessoas que englobavam grupos diferentes.

No cotidiano, os Dalit realizam os trabalhos braçais como lavagem de roupas e limpeza das ruas. Também já foram proibidos de entrar nas igrejas hinduístas. Mas a situação já ainda mais caótica: incêndios a propriedades, com famílias dentro, eram comuns.

Hoje, a lei não permite a discriminação. Contudo, são frequentes casos de insultos e violência contra Dalit no país.

Um exemplo é o caso de Jitendra, um rapaz de 21 anos que, em 2019, foi espancado por um grupo de homens de uma casta superior e morreu dias depois, devido aos ferimentos.

O motivo para tal ato? Bom, o fato do jovem ter sentado em uma cadeira durante uma festa de casamento e ter comido na frente deles representou uma grande ofensa para o grupo responsável pela agressão

Mulher indiana trabalhando/ Crédito: PxHere

 

A mulher Dalit

Outro ponto que choca a realidade do sistema de castas é a situação das mulheres. Prova viva é o caso da jovem dalit de 19 anos que chocou o mundo. Conforme relatado pela BBC, ela foi violada sexualmente e alvo de agressões por homens que englobam uma casta superior, localizada em Uttar Pradesh. O caso levantou debate em torno da situação de 80 milhões de mulheres Dalit diante da violência sexual no país.

Representando aproximadamente 16% das mulheres da Índia, elas precisam encarar uma luta diária que envolve não só o machismo, mas também a classificação no sistema de castas e uma frágil situação financeira.

Mulheres Dalit em protesto contra a violência de gênero e sistema de castas/ Crédito: Wikimedia Commons

 

As leis indianas

O sistema das castas durou com relativa organização até o século 17, quando elas foram declaradas hereditárias. Até então, havia alguma mobilidade e pessoas de uma determinada classe poderiam ascender socialmente. Com a nova medida, a bagunça foi geral.

Chegou a tal ponto que, no século 19, o guru hindu Sri Ramakrishna declarou o fim das estratificações. Oficialmente, porém, a estranha divisão da sociedade perdurou até 1960, quando as castas foram finalmente banidas por lei.

Mas, na prática, a história é diferente. Até hoje são mantidas vivas pelo preconceito e por iniciativas do governo indiano, que cria empregos, por exemplo, apenas para castas menos privilegiadas.

A mudança ainda está longe de ser suficiente e a discriminação ainda impera no país, fazendo com que o grupo que compõe cerca de 18% da população indiana sofra diariamente com olhares tortos.