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Conspiração com a monarquia: O plano nazista encoberto por Churchill

Durante a Segunda Guerra, o governo alemão tentou fazer com que um importante membro da Coroa britânica se voltasse a favor dos nazistas

Fabio Previdelli Publicado em 03/08/2021, às 10h00

O primeiro-ministro Winston Churchill
O primeiro-ministro Winston Churchill - BiblioArchives/LibraryArchives via Wikimedia Commons

Com a morte de George V, no início de 1936, seu filho Edward VIII se tornou rei do Reino Unido. Porém, seu governo durou somente até dezembro daquele ano. Tempo mais que o suficiente para torná-lo um dos monarcas mais controversos da Inglaterra por dois motivos. 

O primeiro deles, que inclusive foi o responsável por fazê-lo abdicar do cargo: sua relação amorosa com Wallis Simpson. Acontece que Wallis estava perto de se divorciar pela segunda vez quando começou a se envolver com o rei. A paixão dos dois foi tão meteórica que o monarca queria casar com a socialite.

Entretanto, devido ao conservadorismo da Coroa, muitos eram contra a união, afinal, o povo jamais aceitaria ter uma rainha consorte divorciada.

Edward VIII em 1932 / Crédito: Bundesarchiv via Wikimedia Commons

 

Porém, o coração de Edward falou mais alto que o poder e ele resolveu abdicar do trono para seguir sua paixão. Com isso, acabou tendo o reinado mais curto de toda a história britânica, com apenas 326 dias, segundo a BBC, dando lugar a seu irmão mais novo, Albert, que fora chamado de George VI

Se esse motivo em si já é polêmico o suficiente, porém, outro ponto da história de EdwardVIII deixa as coisas ainda mais assombrosas, afinal, durante a Segunda Guerra, ele foi envolvido em uma conspiração nazista. Inclusive, tal fato tentou ser silenciado por Winston Churchill

O plano nazi 

Apesar desse acobertamento do primeiro-ministro inglês ter acontecido durante os anos 1950, essa história só veio à tona em 2017. Na ocasião, o Arquivo Nacional dos EUA divulgou uma série de documentos do depósito secreto do governo britânico no Cabinet Office. 

No meio deste acervo, um deles se destacou: um memorando de 1953 de Winston Churchill que fora classificado como “ultrassecreto”. Nele, existe uma série de telegramas alemães com diversos comentários escritos pelo Duque de Windsor, título que Edward passou a ocupar depois que abdicou. 

"Ele [Edward] está convencido de que se tivesse permanecido no trono a guerra teria sido evitada e descreve-se como firme defensor de um acordo pacífico com a Alemanha", dizia um dos trechos do telegrama enviado de Lisboa, em Portugal, onde o Duque estava em 1940. "O duque tem a certeza de que o contínuo bombardeio pesado deixará a Inglaterra pronta para a paz”. 

Antes de chegar a Portugal, Edward e Wallis haviam se instalado na França, mas deixaram o país quando a Guerra estourou. Assim, acabaram se mudando para a Espanha que, apesar de se manter neutra, tinha um flerte com a Alemanha. 

Quando o monarca acabou indo para lá, o governo de Madri pediu recomendações de Berlim sobre como deveriam tratar o fato de Edward estar por lá. Segundo matéria publicada pelo Bloomberg, Joachim von Ribbentrop, ministro das Relações Exteriores da Alemanha na época, sugeriu que eles fossem vigiados e perguntou se eles poderiam continuar a viver por lá.  

Wallis, Duquesa de Windsor / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

 

O interesse no britânico ficou ainda maior dias depois, quando descobriu que "[o Duque de] Windsor posicionou-se energicamente contra Churchill e contra esta guerra". Porém, enquanto pensava qual seria a melhor estratégia para seguir, o casal foi até Portugal, que também era um país neutro. 

Em terras lusitanas, eles fizeram comentários semelhantes. Neste ponto os alemães chegaram a uma conclusão. "O duque deve voltar para Espanha sob qualquer circunstância", ordenou Ribbentrop.  

O ministro também relatou que, para isso, eles deveriam ser “persuadidos ou forçados”. O alemão tinha um plano especial para Edward: oferecer “a concessão de qualquer desejo”, mas qualquer desejo mesmo, o que incluía “a ascensão ao trono inglês”, revelou os documentos. 

A dor de cabeça de Winston 

Para contra-atacar a investida nazi, afinal, não seria nada bom um monarca inglês fechar parceria com o governo de Hitler, Churchill resolveu nomear Edward como o governador das Bahamas.

Porém, o Duque se negava a deixar a Europa, daí o primeiro-ministro deu outra cartada: ameaçou levar Edward até a corte marcial, já que ele tinha um cargo militar honorário, segundo explicou matéria do UOL.  

Nesse jogo de xadrez, o ministro alemão tentou dar um xeque-mate para que o Duque permanecesse na Espanha, nem que ele tivesse que ser “sequestrado” para isso, revelou o Bloomberg.  

Uma nota enviada para Ribbentrop explicava que o plano era "persuadir o duque a deixar Lisboa num carro como se estivesse indo para uma longa viagem de lazer e depois atravessar a fronteira num lugar específico, onde a polícia secreta espanhola garantirá uma passagem segura". 

Apesar da investida, os britânicos mexeram seus peões com mais inteligência e os alemães não avançaram mais casas nesse jogo.  

Segredo não muito secreto 

Essa troca de telegramas foi encontrada depois que o governo de Hitler caiu, em 1945. Todos os documentos foram enviados para o governo do Reino Unido. Quando Clement Attlee substituiu Churchill, escreveu para o ex-primeiro-ministro confessando que o vazamento daquelas informações “poderia causar um dano enorme”, revelaram os documentos . 

Winston não só concordou como pediu para que, se possível, “destruir todos os vestígios” desses arquivos. Porém, quando ele retomou a função, em 1951, descobriu que Clement não dançou conforme a música e acabou mudando de ideia.

 Dwight D Eisenhower / Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

 

Talvez convencido pelo secretário de Relações Exteriores, Ernest Bevin, conforme aponta matéria publicada no Jornal de Negócios, de Portugal.  

Com isso, historiadores de Washington entendiam que o melhor seria publicar esses arquivos, mas uma ligação feita por Churchill, em 1953, retardou esse fato por algum tempo.

Conforme relata o jornal português Público, o premier britânico pediu para Dwight Eisenhower, presidente americano na ocasião, e ao governo francês que impedisse a circulação dessas informações por “dez ou 20 anos, pelo menos”. 

Já o The Guardian relatou que o pedido foi justificado com o argumento de que a divulgação dos telegramas poderia ser “tendenciosa” e ainda dar a ideia equivocada de que o monarca estava “em contato com os agentes alemães e dava ouvidos as propostas desleais”. 

Porém, àquela altura, os arquivos já haviam sido vistos por muitas pessoas, o que tornaria impossível sua publicação. Como se já não bastasse, como explica o Bloomberg, o historiador britânico, que estava encarregado de preparar os documentos para publicação, havia ameaçado se demitir caso fosse ‘censurado’.  

Assim, os arquivos acabaram caindo em conhecimento quatro anos depois, em 1957, sendo que o Duque os descreveu como uma “farsa completa”. Porém, a tentativa de Churchill abafar esse caso permaneceu um segredo durante décadas, sendo revelado em 2017.


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