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Conspiração no México: o dia em que Fidel e Raúl Castro conheceram Che Guevara

Juntos, eles planejaram a revolução, aprenderam táticas de guerrilha e organizaram um grande exército rebelde

Redação Publicado em 26/10/2019, às 10h00

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Conselho do Governo Cubano

O México serviu de trampolim para a Revolução Cubana. Lá os irmãos Castro, líderes originais do movimento, conheceram um jovem chamado Ernesto Che Guevara e convenceram-no a participar da empreitada. Também ali Fidel reuniu outros exilados cubanos e reorganizou o Movimento 26 de Julho, para derrubar o ditador Fulgêncio Batista.

E foi lá que o Exército Rebelde recebeu treinamento de guerrilha para os combates que viriam pela frente em Sierra Maestra. Por que a revolução acabou sendo estada em território mexicano? A resposta começa em maio de 1955, quando Fidel e Raúl Castro deixaram a cadeia em Cuba.

Libertados depois de 22 meses de prisão, por terem comandado os ataques aos quartéis de Moncada e Bayamo, os irmãos acreditavam que, se permanecessem na ilha, acabariam sendo assassinados pela ditadura. Preferiram o exílio e encontraram, no México, o ambiente perfeito para planejar uma nova investida contra o regime de Batista.

O país, na década de 1950, era um verdadeiro santuário de exilados latino-americanos. Essa tradição começara 15 anos antes, quando os mexicanos haviam recebido de braços abertos os refugiados da Guerra Civil espanhola. “Se você precisasse ir para algum lugar no continente, esse lugar era a Cidade do México, a grande metrópole para onde fluíam as ideias, as pessoas e a cultura”, diz o jornalista americano Jon Lee Anderson, um dos mais respeitados biógrafos de Che Guevara.

O médico argentino Ernesto Guevara tinha 26 anos quando pisou pela primeira vez em solo mexicano, em 1955. Trazia na bagagem uma experiência marcante vivida na Guatemala: o golpe orquestrado pela CIA contra o presidente Jacobo Arbenz, que iniciava uma reforma agrária.

Recém-chegados

Nos primeiros meses de sua estada no México, Guevara fez de tudo: fotografou os Jogos Pan-Americanos para uma agência de notícias argentina, descolou um emprego mal remunerado num hospital, viajou pelo país e reencontrou exilados que conhecera em suas andanças – entre eles o amigo cubano Ñico López, integrante do ataque fracassado ao quartel de Bayamo, e a peruana Hilda Gadea, com quem se casaria pouco depois.

Foi López quem o apresentou a Raúl Castro, outro recém-chegado ao México. “Quando Che soube do plano de Fidel de invadir Cuba, soltou uma gargalhada: ‘Esses caras não têm solução!’”, relata o jornalista argentino Hugo Gambini na biografia El Che Guevara (sem tradução no Brasil). Mas nasceu ali uma profunda simpatia pela causa dos irmãos Castro.

Fidel já estava em liberdade, embora ainda não tivesse deixado a ilha. E Guevara não via a hora de conhecê-lo. Afinal, o irmão de seu novo amigo era uma sensação, ídolo dos revolucionários latino-americanos – o réu que, em pleno julgamento, ousou acusar o governo que o havia detido.

Em julho de 1955, Fidel Castro finalmente chegou à Cidade do México. Desceu do ônibus vestindo um terno usado, sem um tostão no bolso e com sede de ação. Depois de passar
22 meses no presídio da ilha de Pinos, em Cuba, ele tinha pressa para reunir os exilados e retomar a luta contra o regime de Fulgêncio Batista.

Os biógrafos de Guevara e Fidel discordam sobre a data exata do primeiro encontro dos dois, mas sabem que ele ocorreu entre julho e setembro de 1955. Seja como for, uma coisa é certa: a lealdade e o respeito mútuos foram selados numa conversa que durou a noite inteira, no apartamento de Maria Antonia González, uma cubana casada com o lutador profissional mexicano “Dick” Medrano. O endereço – Rua Emparán, 49 – servia como quartel-general, onde exilados comiam e dormiam de graça.

Ao final do longo papo com Fidel, Guevara já estava decidido a participar da empreitada revolucionária. Numa entrevista publicada em 1967 pelo jornal cubano Granma, ele recordaria assim o encontro: “Conheci-o durante uma daquelas noites mexicanas frias, e lembro que nossa primeira discussão foi sobre política mundial. Poucas horas depois, de madrugada, eu já era um dos futuros expedicionários. (...) Era hora de fazer, de combater, de planejar. De deixar de chorar para começar a lutar”.

Por sua vez, Fidel Castro recordaria num discurso, também em 1967, a primeira impressão que teve do argentino. “Era uma dessas pessoas por quem tomamos afeto no primeiro momento pela simplicidade, o caráter, a naturalidade, o companheirismo, a personalidade e a originalidade, mesmo quando ainda não conhecemos as virtudes singulares que o caracterizam.”

Fidel precisou de poucos meses para juntar exilados cubanos e reorganizar o Movimento 26 de Julho (ou M-26-7, data do assalto ao quartel Moncada), movimento que ele havia fundado pouco antes em Cuba, na clandestinidade.

O primeiro objetivo do grupo era desembarcar na ilha com um contingente bem armado e fazer um chamado aos camponeses, para que se unissem à revolução. Uma vez garantido o respaldo popular, Fidel esperava levar adiante seu programa de governo.

Logo de cara, pretendia eliminar funcionários corruptos, iniciar a industrialização do país, assentar 100 mil pequenos agricultores, limitar o tamanho das fazendas e repartir o excesso de produção entre famílias camponesas. Em busca de recursos, Fidel viajou a Tampa, Miami, Nova York e outras cidades americanas, divulgando a revolução entre exilados cubanos.

Conseguiu angariar cerca de 50 mil dólares, dinheiro prontamente convertido em algumas armas e munições para embrião do Exército Rebelde – que, àquela altura, já contava com mais de 80 voluntários. “Esse valor, é claro, foi doado pelos cubanos ri- cos, que acreditavam muito mais na queda de Fulgêncio Batista do que no programa social de Castro”, afirma Gambini.

De volta ao México, Fidel achou o homem ideal para treinar seus recrutas: o cubano Alberto Bayo, antigo oficial do Exército Republicano espanhol. O local escolhido para o treinamento foi a imensa fazenda Santa Rosa, localizada perto do município de Chalco.

Com 9 quilômetros de largura por 15 quilômetros de comprimento, vegetação densa e relevo montanhoso, a propriedade reproduzia algumas das condições que os guerrilheiros enfrentariam mais tarde, nas serras de Cuba. “Durante três meses, Bayo ensinou os segredos da guerrilha”, diz Gambini. “Eles aprenderam a dar tiros de pistola,
rifle e metralhadora; fabricar bombas para explodir barricadas e destruir tanques; localizar e derrubar aviões; camuflar-se e esconderse; transportar e atender feridos; e andar pela selva sem serem descobertos.”

Embora sofresse de asma, Guevara foi o primeiro da turma, com nota dez em todos os cursos. Em fins de 1956, Fidel e Raúl decidiram que já era hora de tomar o poder em Cuba. Compraram um barco, o iate Granma (do inglês grandmother, “vovó”) e, no dia 25 de novembro, deixaram silenciosamente o cais do Rio Tuxpan, em Veracruz, levando na popa uma bandeira vermelha e preta – as cores do Movimento 26 de Julho.

A proa embicava rumo à costa leste de Cuba. Era lá que Fidel, Che Guevara, Raúl Castro e o resto da tropa colocariam em prática tudo o que haviam planejado no México.