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Conspiração para matar JFK nunca foi totalmente negada

Investigação feita pela Comissão Warren deixou em aberto diversos pontos sobre o assassinato de John F. Kennedy

Fabio Previdelli | @fabioprevidelli_ Publicado em 09/04/2022, às 00h00

JFK em sua limusine momentos antes do assassinato
JFK em sua limusine momentos antes do assassinato - Domínio Público via Wikimedia Commons

John Fitzgerald Kennedy foi assassinado a tiros enquanto desfilava com a primeira-dama em uma limusine aberta pela Dealey Plaza, em Dallas, no Texas, em 22 de novembro de 1963.

Horas depois, o ex-fuzileiro naval que havia desertado para a União Soviética,Lee Harvey Oswald, foi preso acusado de ser o autor dos três tiros que deram fim à vida de um dos presidentes mais populares da história do país. 

Embora alegasse ser um bode expiatório, Oswald jamais teve a chance de provar sua inocência, já que acabou sendo baleado dois dias depois, enquanto era transferido sob custódia policial da cadeia municipal para a cadeia estadual.

Lee Harvey Oswald, acusado de assassinar o presidente norte-americano Kennedy / Crédito: Getty Images

Dias depois, o então presidente Lyndon B. Johnson estabeleceu uma comissão para investigar a morte de Kennedy. Presididos Earl Warren, chefe de Justiça dos Estados Unidos, a Comissão Warren ainda contava com outros seis membros: Richard B. Russel, senador da Geórgia; John Sherman Cooper, senador de Kentucky; Hale Boggs, congressista e representante da Louisiana; Gerald R. Ford, representante do Michigan que viria a se tornar presidente dos EUA na década de 1970; John J. McCloy, conselheiro do presidente e Allen W. Dulles, ex-chefe da CIA. 

Em seu relatório final de 888 páginas, apresentado ao presidente Johnson em 24 de setembro de 1964, a Comissão Warren concluiu que: três disparos foram feitos a partir de uma janela do sexto andar do Texas School Book Depository, sendo Lee Harvey Oswald o único autor deles. Além do mais, uma mesma bala teria ferido o presidente no pescoço e atingido também o governador do Texas John Connally

Esse último ponto, inclusive, é uma das conclusões da Comissão Warren que mais geram polêmicas até hoje. Formulada por Arlen Spencer, advogado assistente da Comissão, a “teoria da bala única”, como o tiro foi chamado, afirma que um único projétil teria causado sete ferimentos diferentes ao atravessar o presidente Kennedy e atingir o governador Connally

A Comissão é revisitada

Após a divulgação do relatório, a Comissão Warren publicou, dois meses depois, 26 volumes de documentos de apoio sobre o caso JFK. Todos os registros da comissão foram então transferidos para o Arquivo Nacional em 23 de novembro. Porém, uma parte desses registros foi inicialmente desclassificada por 75 anos (até 2039). 

Mas o Relatório da Comissão Warren não é o único que trata do assassinato de Kennedy. Após o escândalo de Watergate, o senador Frank Church conduziu uma investigação para esclarecer os abusos e crimes cometidos pelo FBI e CIA — período no qual descobriu-se planos para assassinar líderes estrangeiros, como Fidel Castro, de Cuba, e Patrice Lumumba, da República do Congo. Ambos orquestrados por Allen Dulles, que fez parte da Comissão Warren. 

Com isso, a Comissão Church, muito influenciada pela divulgação, 12 anos depois, do registro feito pelo alfaiate Abraham Zapruder — que gravou o assassinato com uma câmera de 8 milímetros —, decidiu revisitar as investigações do caso Kennedy

JFK no momento em que é atingido por um tiro (cena mostrada no filme JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar) / Crédito: Divulgação/ Warner Bros

Eis que o governo criou o Comitê Seleto da Câmara sobre Assassinatos, o HSCA, que foi responsável por ouvir novamente as testemunhas, e entrevistar novas pessoas, que expuseram grandes inconsistências no relatório original da Comissão Warren. As investigações, porém, foram consideradas prejudiciais demais, e cerca de 500 mil relatórios deveriam permanecer trancados até 2029.

Mas, em 1992, o Ato dos Registros de John Kennedy foi aprovado e liberou cerca de 98% destes arquivos de imediato. Mais de dois bilhões de páginas de relatórios e artefatos foram coletadas, sendo que todos estão disponíveis para acesso público no Arquivo Nacional de Maryland.

Em 2017, o então presidente Donald Trump autorizou a publicação de mais 2.891 relatórios confidenciais. Vale ressaltar, porém, que outros 200 ainda permanecem guardados.

Com base em todos esses documentos, o cineasta Oliver Stone, famoso por abordar o assassinato de John Kennedy no clássico ‘JFK: A Pergunta Que Não Quer Calar’ (1991), decidiu elucidar o que realmente aconteceu em 1963 e trazer novas respostas em seu novo documentário: ‘JFK Revisited: Through the Looking Glass’ (2021). 

A Comissão Warren desmentida

Um dos pontos debatidos por Stone é o fato da Comissão Warren se limitar a afirmar que apenas três tiros foram disparados contra a comitiva do presidente Kennedy. O primeiro motivo dessa conclusão é que esse foi o número exato de cápsulas vazias que encontraram no sexto andar do depósito de livros. 

Diante dessa evidência, Dr. David Mantik, radio-oncologista e autor do livro ‘JFK Head Wounds’, aponta que 4 tiros ou mais não poderiam ser cogitados, afinal, isso significaria que Kennedy foi baleado por outra pessoa além de Lee Harvey Oswald o que, consequentemente, configuraria uma conspiração, algo que a Comissão não queria. 

Em um primeiro momento, ficou estabelecido que o primeiro e o terceiro tiro havia atingido Kennedy, sendo o último deles fatal, e o intermediário foi o responsável pelos danos em Connally, mas o cenário mudou quando uma marca de bala foi descoberta em uma rua paralela por onde o veículo presidencial passou. Restavam apenas duas balas certeiras. 

Cena do filme "JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar" que mostra a trajetória da bala única /  Crédito: Divulgação/ Warner Bros

Sendo assim, uma única bala teria sido responsável por atingir duas vítimas. Como essa bala teria causado tanto dano assim? Para explicar isso, Arlen Specter criou a “teoria da bala única”.

A CE-399 era a bala mágica, e todas as investigações do governo, até hoje, tratam essa bala como algo fundamental no caso”, aponta Mantik

Mas o que chama a atenção nessa evidência, conforme discorre Stone em seu novo documentário, é o que se chama de “cadeia de custódia”, que se refere à integridade da evidência. 

Segundo Brian Edwards, instrutor de Justiça Criminal na Washburn University e coautor de 'Beyond The Fence Line: The Eyewitness Account of Ed Hoffman and the Murder of President Kennedy’, se existir uma evidência e alguém mandá-la para outra pessoa guardar ou analisar, o nome dessas pessoas vai estar no topo de um documento sobre essa prova.  

“O próximo que encosta na evidência, assina embaixo [e assim por diante]”, aponta Edwards. “Se não fizermos isso, não tem como provar que a evidência coletada no primeiro dia é a mesma apresentada depois no tribunal”.

Mas com a “bala única” esse processo foi diferente. O primeiro ponto é que o projétil foi achado em uma maca do Hospital Parkland, que havia recebido Kennedy. A bala então foi coletada pelo agente Richard Johnsen, do Serviço Secreto, que levou a evidência até a capital. Lá, ela foi dada ao chefe do Serviço Secreto, James Rowley

Já na Casa Branca, Rowley lhe entregou para Elmer Lee Todd, agente do FBI, responsável por encaminhá-la até o laboratório, onde seria investigado Robert Frazier. Mas existe um fato curioso que foi descoberto por John Hunt, um cidadão comum que decidiu investigar por conta própria o que aconteceu com a bala única através dos registros públicos. 

Sem entrevistar agentes do FBI e policiais para não ser “influenciado” pelos mesmos, Hunt perguntou para todas as fontes que constavam em documentos do FBI e da Comissão Warren: “A bala CE-399 da evidência era a mesma encontrada na maca?”.

Um ponto que corrobora para desmentir essa questão é que, em diversos registros assinados por Frazier, ele alegou ter recebido a evidência às 19h30 do dia em que JFK foi assassinado. 

Spectre reproduzindo o alinhamento assumido da teoria da bala única/ Crédito: Domínio Público via Wikimedia Commons

Entretanto, um fato curioso é que Elmer Lee Todd recebeu a bala na Casa Branca às 20h50, segundo um registro cunhado por ele próprio. Ou seja, oficialmente, Frazier teria recebido a bala diretamente de Todd, mas Elmer registrou ter recebido o projétil depois do horário documentado por Robert

Como se não bastasse, a situação fica ainda pior. Todd teria feito uma rubrica no projétil na mesma hora em que a recebeu às 20h50. E todos que mexeram na bala, depois ou antes dele, fizeram o mesmo, inclusive Frazier. Mas Mantik afirma ter ido até o Arquivo Nacional para ver a bala e não encontrou nenhum sinal disso. “A rubrica de Todd não está na bala”.

Mas o que o Conselho de Revisão fala sobre esse ponto? O Dr. Gary Aguilar, professor clínico da UC San Francisco, diz ter revisado os arquivos e nota que embora a Comissão Warren tenha recebido um relatório do FBI dizendo que os homens que encontraram a bala afirmaram que a mesma era a verdadeira, o próprio relatório interno dizia o contrário. 

“O relatório interno dizia que aquela bala não parecia ser a bala encontrada. Mas o FBI mentiu para a Comissão. Então fomos falar com o agente do FBI que, supostamente, tinha transferido a bala”, revela Aguilar

O nome dele era Bardwell Odum. Mandei para eles os documentos que diziam o que ele tinha feito e ele respondeu: ‘Eu nunca peguei nessa bala nem a dei para ninguém. Senão eu teria feito um Relatório 302. Todo mundo estava preocupado em fazer tudo corretamente’”, continua. 

Ao buscar Relatórios 302, constatou-se que o nome de Odum não estava em nenhum deles. “O FBI simplesmente inventou isso”, afirma o professor. “É possível que uma bala misteriosa tenha surgido de algum lugar, Todd não fez a rubrica dele, e a bala tenha ido parar no FBI como sendo a bala mágica”.

“Só podemos supor que o FBI percebeu que precisava se agarrar na culpa de Oswald. E eles simplesmente trocaram a bala… Os registros mostram isso. Há muitos motivos para desconfiar da história da bala mágica”, completa. 

Como a bala que causou sete ferimentos em duas vítimas permaneceu intacta?

Outro ponto controverso da suposta bala que acertou fatalmente JFK é que ela foi encontrada praticamente intacta. Mas como isso é possível? Afinal, a trajetória do projétil é digna de uma cena hollywoodiana. 

Depois de atravessar dois homens, quebrar dois ossos e causar sete ferimentos, o mínimo que se esperava era que ela estivesse ao menos amassada ou deformada. Para isso, Dr. Joseph R. Dolce, um cirurgião condecorado durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou para a Comissão Warren para esclarecer esse ponto. 

Bala que teria atingido John Kennedy e John Conally / Crédito: Wikimedia Commons

Ele recebeu o rifle original usado por Lee Harvey, um Carcano, e mais 100 balas de 6.5mm. Assim, sua equipe carregou o rifle e o disparou contra os punhos de cadáveres. “Em toda vez, a frente ou a ponta da bala ficava amassada”, relata Dolce

Eu não acredito que essa bala tenha atingido um punho sem ficar deformada”, completou em vídeo mostrado no documentário de Stone.

O cirurgião chegou à conclusão de que duas balas teriam acertado o governador Connally. Por sua versão divergir da crença de Arlen Specter, porém, o nome de Joseph foi retirado do relatório da Comissão Warren.   

Controversas entre os comissionários

Mas engana-se quem pensa que a teoria foi contestada apenas por quem analisava a situação de fora. Os próprios membros da Comissão Warren chegaram a ter divergências sobre o que havia sido “descoberto” pelo grupo. 

Uma das grandes discussões aconteceu por conta do senador John Sherman Cooper, que foi o primeiro membro da Comissão a se pronunciar na televisão. Durante uma entrevista, Cooper afirmou que houve discordâncias durante a deliberação, citando a “teoria da bala única” como a mais importante entre elas. 

“A mais importante entre elas [divergências], da qual me recordo nitidamente, foi uma dúvida de se a primeira bala realmente atingiu o presidente Kennedy e depois foi para o governador Connally. Embora ele não especificasse a ordem dos tiros, o relatório da Warren dizia que uma bala tinha atravessado Kennedy e o governador Connally, a segunda tinha errado o alvo e atingido um expectador na rua Commerce, James Tague, e o último tiro tinha atingido a cabeça de Kennedy”, recorda.

Eu não fiquei convencido de que a mesma bala tinha atingido os dois”, afirma. 

John Sherman diz não ter sido convencido com a teoria da bala única, tampouco o senador da Geórgia Richard B. Russel. “[Russel] não queria integrar a Comissão. Depois de ir à primeira reunião, ele ficou decepcionado com os acontecimentos”. 

O presidente John F. Kennedy foi assassinado em 1963/Crédito: Wikimedia Commons

O senador contou que o principal ponto da descrença de Russell foram as atitudes de J. Edgar Hoover, que dirigiu pessoalmente a investigação do FBI sobre o assassinato do presidente John F. Kennedy e testemunhou nos estágios iniciais das audiências da Comissão Warren, e do procurador interino Nicholas Katzenbach

Arquivos de Richard na biblioteca da Universidade da Geórgia contêm um memorando escrito pelo próprio senador após a sessão inicial da Comissão Warren. No escrito, datado de 5 de dezembro de 1963, ele diz: “Há algo estranho acontecendo. Warren e Katzenbach sabem sobre o FBI e estão planejando mostrar Oswald como o único culpado. Essa me parece uma afirmação insustentável”.

Os documentos de Russel apontam que ele teve uma opinião diferente da apresentada pela Comissão, algo que foi explanado em uma conversa com o presidente Lyndon B. Johnson, trecho que também é apresentado por Oliver Stone

“A Comissão acredita que uma mesma bala atingiu Kennedy e Connally. Se o cara foi tão certeiro para acertar o pescoço e a cabeça de Kennedy com dois tiros, ele não iria errar o carro. Ele errou até a rua. Um homem com tanta precisão para atirar em Kennedy duas vezes não teria errado o carro”.

O senador também custava crer que Oswald havia agido sozinho, muito por conta do que revelou o vídeo de Zapruder e do depoimento de Connally, que afirmava que ele e JFK não tinham sido alvejados pelo mesmo projétil. 

Desta forma, os outros comissários foram obrigados a incluir essa divergência no relatório o que, consequentemente, impediu que fosse totalmente negado a possibilidade de uma conspiração para assassinar o presidente.


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