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Matérias / Família Hart

“Conspiração para matar seis crianças”: A morte catastrófica da família Hart

Em 2018, um veículo caiu de um penhasco na Califórnia. Todos os oito membros da família Hart morreram. Mas o que está por trás do caso?

Fabio Previdelli Publicado em 24/07/2022, às 00h00

Imagem meramente ilustrativa - Pixabay
Imagem meramente ilustrativa - Pixabay

O som de um carro acelerado foi o único a ser ouvido na madrugada de 26 de março de 2018 na Pacific Coast Highway, no norte da Califórnia. Por volta das 3 horas da manhã, o carro da família Hartcaiu de um penhasco de mais de 30 metros de altura.

O automóvel, um SUV, era dirigido por Jennifer Hart, de 39 anos. Ela estava acompanhada de sua esposa, Sarah Hart, que tinha a mesma idade, e dos seis filhos adotivos do casal: Markis (19 anos); Hannah (16); Devonte (15); Jeremiah e Abigail (ambos com 14); e Sierra (12). Não houve sobreviventes. Mas, o que aconteceu?

Uma família feliz!

Quem acompanhava a família Hart, tinha certeza de se tratar de uma família feliz. Pouco antes do acidente, em uma postagem no Facebook, Jennifer comemorava o nono aniversário de adoção de três de seus filhos: "Sou uma humana melhor de todas as maneiras possíveis por conhecer essas crianças”.

Elas foram minhas maiores professoras. Ao contrário da noção comum de que não podemos escolher nossa família, nós absolutamente podemos. Nós escolhemos amando – e isso vale a pena ser comemorado todos os dias”, completou. 

Além do mais, frequentemente a família era vista em fotos se abraçando e sorrindo. Os Harts não tinha nada em comum de uma família tradicional, afinal, eles viviam viajando por todo o país, participando de festivais de música para ouvir suas bandas favoritas e até mesmo em comícios políticos, com o de Bernie Sanders em Vancouver, Washington, em 2016, quando eles apareceram com camisetas combinando com a imagem do senador.

"Essas crianças viveram mais do que a maioria das pessoas nas aventuras que teriam e nas coisas que veriam", disse Zippy Lomax, amigo da família, em entrevista à revista People logo depois do acidente. "Essas crianças não tinham medo de ser as primeiras lá em cima e se envolver."

Um exemplo disso era Devonte Hart. Conforme recorda matéria do All That Interesting, o jovem conquistou o corações de milhões de pessoas depois que uma foto dele abraçando um policial branco, em meio aos protestos do Black Lives Matter em Portland, Oregon, se tornou viral.

Devonte abraçado com um policial/ Crédito: Arquivo Pessoal

"Jen e Sarah realmente eram o tipo de responsáveis que eu acho que o mundo precisa desesperadamente", completou Lomax à TV local KOIN. “Elas eram esse tipo de presença realmente brilhante”.

Inesperado

Inicialmente, o choque da morte de todos os membros da família deixou todos atônitos: como era possível uma família tão feliz morrer de forma tão trágica em um acidente inesperado? A resposta estava em Jennifer.

Um dos pontos que mais chamou a atenção dos investigadores é que não havia marcas de freio no topo do penhasco. Em nenhum momento Jennifer tentou evitar o mergulho fatal na costa rochosa do Pacífico. 

Penhasco onde o carro caiu/ Crédito: Divulgação/YouTube/KOIN6

Uma cena muito confusa”, disse Tom Allman, xerife do condado de Mendocino, onde o caso aconteceu. Mas, mais tarde, o tom foi outro: "Isso foi mais do que um crime. Foi uma conspiração para matar seis crianças", conforme repercutido pela People em 2022.

Horas após o acidente, os corpos de Jennifer, Sarah, Markis, Jeremiah e Abigail, foram encontrados no carro, disseram as autoridades. Os restos mortais de Sierra foram achados mais tarde, assim como Hannah, cuja parte de seu pé estava em um sapato que foi identificado em uma praia da Califórnia.

Já o cadáver de Devonte nunca foi recuperado, embora o jovem tenha sido declarado morto oficialmente em 2019. Mas o que levou a tudo isso?

Carro após o acidente/ Crédito; California Highway Patrol

Semanas após as mortes, aponta a People, as autoridades passaram a apresentar sinais de que Jennifer e Sarah construíram uma relação abusiva com seus filhos. Segundo relatos dos vizinhos Dana e Bruce DeKalb: no verão de 2017, Hannah pulou da janela do segundo andar de sua casa e foi procurá-los "implorando por ajuda", de acordo com um relatório do incidente do Gabinete do Xerife do Condado de Clark.

"Ela queria que a levássemos para Seattle porque eles não a estavam tratando direito", disse Bruce."'Não me faça voltar'", teria implorado a jovem. Ela parecia estar sem dois dentes da frente, apontaram os DeKalbs.

Além do mais, a People conseguiu acesso a registros de quando os Hart moravam em Alexandria. Nessa época, Sarah foi acusada de bater em uma de suas filhas. O fato veio à tona após uma professora encontrar hematomas no corpo de Abigail. Ao questionar a menina, a docente ouviu: “Mamãe me bateu”. 

Durante o interrogatório policial, Sarah admitiu ter deixado sua “raiva sair do controle” e ter espancado a filha no dia anterior, porém, conforme aponta o portal local Oregonian, foi Jennifer quem Abigail disse que a atingiu. Sarah ainda assim relatou ter levado a filha para o banheiro, deitado-a sobre a borda da banheira e a atingido nas costas. 

Ela foi acusada de agressão doméstica e punição maldosa; mas, ao se declarar culpada, sua acusação de agressão doméstica foi retirada. Sua condenação de 90 dias de prisão foi revertida para um ano de liberdade condicional supervisionada. 

Quando o corpo de Abigail foi encontrado após o acidente de 2018, ela estava coberta de hematomas indicando abusos passados, segundo a polícia. Outro caso diz respeito à Devonte. Ainda em 2018, ele teria pedido comida aos vizinhos após suas mães terem retirado a alimentação como forma de punição.  

Jen e Sarah junto dos filhos / Crédito: Arquivo Pessoal

Em 23 de março de 2018, Dana DeKalb ligou para o Child Protective Services (CPS), que enviou um assistente social para a casa de dois andares da família Hart, onde deixou um cartão de visita na porta.

No dia seguinte, o CPS voltou para casa e não encontrou nenhum sinal do cartão de visita na porta, nem da família, que já havia saído, para nunca mais voltar. Posteriormente, segundo o The New York Times, Dana se culpou pelo que aconteceu: "Porque eu os denunciei [ao CPS], eles fugiram e mataram essas crianças".

Os motivos do suicídio-assassinato

Até hoje, ninguém sabe ao certo o motivo de Jennifer ter jogado o carro do penhasco, mas algumas partes ajudam a montar esse quebra-cabeça. Segundo o All That Interesting, as autoridades descobriram que os níveis de álcool no sangue de Jennifer excederam o limite legal. 

Os investigadores também descobriram que Sarah Hart e pelo menos uma das crianças tinham Benadryl — anticolinérgico muito usado para aliviar temporariamente os sintomas decorrentes de alergias respiratórias ou resfriado comum — em seus sistemas. 

Além disso, as pesquisas na internet no telefone de Sarah Hart incluíam perguntas como: “Quais medicamentos de venda livre você pode tomar para overdose?” e “A morte por afogamento é relativamente indolor?”, conforme repercutido pelo USA Today em 2019.

Dadas essas evidências, ao que tudo indica, o acidente da família Hart foi deliberado. Os investigadores acreditavam que Jennifer se embriagou para criar coragem para matar todos eles.

Alguns dos que conheciam os Harts acreditam que Jennifer cometeu o assassinato-suicídio por causa dos relatos de abuso infantil que a seguiram. 

As crianças / Crédito: Arquivo pessoal

Meu sentimento é baseado em conversas com testemunhas. [Ao que tudo indica] elas [Jennifer e Sarah] achavam que se não pudessem ter esses filhos, ninguém teria esse direito”, disse o investigador Jake Slates, da Patrulha Rodoviária da Califórnia, conforme repercutido pela CNN internacional em 2019.