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Para desafiar os EUA, Fidel Castro construiu uma sorveteria megalomaníaca

Depois do embargo econômico contra Cuba, Castro decidiu transformar o país autossuficiente em leite; que seria capaz de criar o melhor sorvete do mundo

André Nogueira Publicado em 18/12/2019, às 14h41

Fidel Castro era um amante dos sorvetes
Fidel Castro era um amante dos sorvetes - Getty Images

Em 1960, Cuba sofria com uma dificuldade de natureza diplomática: ao se tornar oponente ideológico do Império dos EUA, o país governado por Castro precisaria encontrar medidas cabíveis para continuar intacto em meio ao fogo cruzado da Guerra Fria. Fidel, um homem excêntrico, guiou ações de governo que muitas vezes pareceram bizarras para cutucar o país vizinho.

Um desses casos foi a solução encontrada pelo ditador diante do corte do fornecimento de laticínios estadunidenses para a ilha. Com o árduo verão caribenho, Castro sentiu falta de se refrescar com sorvetes. Desde cedo, ele era fissurado pela sobremesa.

Com o corte dos laticínios, Castro colocou em prática um projeto que resolveria a falta de sorvetes em Cuba enquanto hostilizava diretamente com Washington: comandou a construção da maior sorveteria do mundo, que foi iniciada em 1966.

O projeto ficou na responsabilidade de Célia Sánchez, filha de um médico rico que se tornou uma das principais assessoras do governo cubano.

O logo da sorveteria também faz referência ao ballet / Crédito: Wikimedia Commons

 

Em reunião com Fidel, Sánchez decidiu que o projeto de sorveteria devia tomar proporções eclesiásticas. Assim, convocou o arquiteto Mario Girona e projetou um edifício que conseguisse servir mil pessoas ao mesmo tempo, com salão e fábrica de sorvete. Em referência ao ballet, que era de agrado de Célia, a sorveteria foi batizada de Coppelia.

Diante do cenário marcado pelo embargo econômico, Castro também dedicou esforços para criar um rebanho de gado leiteiro suficiente para manter a sorveteria. Em um  primeiro momento, houve a substituição da horda de zebus que tinham na ilha, pois a raça dá pouco leite, por holandesas importadas do Canadá. No entanto, os animais não se adaptaram ao clima de Cuba.

Segundo Mark Kurlansky, em seu livro Milk! A 10,000-Year Food Fracas (“Leite, um Conflito Alimentício de 10.000 anos”, sem edição em português) um terço das vacas canadenses morreu em questão de semanas, levando Castro a pronunciar que teria que inventar uma nova raça cubana, a Tropical Holstein". O político não queria depender de outros países no fornecimento necessário para seu sonho lácteo.  

Coppelia é a maior sorveteria do mundo até hoje / Crédito: Getty Images

 

Entre os compromissos de Fidel, estava também o de ter conteúdo para uma propaganda da superioridade dos produtos socialistas em relação à indústria dos EUA. Em um discurso em Havana, ele chegou a afirmar que os produtos do capitalismo eram inferiores aos bens cubanos, e tinha como principal exemplo a sorveteria Coppelia.

Entre os troféus do ex-guerrilheiro, estava Ubre Blanca, uma super-vaca desenvolvida em Cuba e que produzia quatro vezes mais leite que qualquer outra do mundo. Protegida por seguranças e vivendo num curral com ar-condicionado, ela era o ser vivo favorito de Fidel em toda a ilha.

Porém, por má gestão e condições climáticas, a indústria de laticínios castrista entrou em decadência e não durou muito tempo, apesar dos sucessos iniciais. Mesmo assim, a Coppelia ainda manteve-se intacta e na mão de Sánchez. Parecendo um palácio, o estabelecimento foi aberto ao público e faz sucesso até hoje.

Fidel com sua Urbe Blanca / Crédito: Granma/Partido Comunista de Cuba

 

"Antes da revolução, o povo cubano amava o sorvete de Howard Johnson. Esta é a nossa maneira de mostrar que podemos fazer tudo melhor do que os americanos”, disse Fidel a um jornalista na inauguração da sorveteria.

Até visitantes dos EUA admitiram que aquele era o melhor sorvete do mundo e, mesmo que o projeto de autossuficiência em leite de Cuba não ter se mantido, desde a inauguração, a Coppelia é referência na produção de sorvetes no mundo, e seus produtos foram levados ao mundo inteiro como mercadoria ou presente do país a aliados, como Ho Chi Minh, que recebeu um pacote embalado em gelo seco.


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