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Costumes exterminados: Como o Tibete vivia isolado e sob sistema feudal até ser invadido pela China

A luta pela autonomia já não é tanto contra a ocupação do território, mas a imposição da cultura chinesa em detrimento da outra

Texto Mariana Sgarioni // Revisado por Izabel Duva Rapoport Publicado em 02/11/2020, às 10h00

O palácio de Potala
O palácio de Potala - Imagem de Vined por Pixabay

Em outubro de 1950, o Ocidente assistia a uma novidade musical, o rock’n’roll. A Europa era reconstruída, os anos pareciam dourados e os cientistas dominavam a bomba atômica.

No Brasil, a TV Tupi havia acabado de inaugurar suas transmissões e o Maracanã recebia milhares de torcedores todo domingo. Enquanto isso, do outro lado do mundo, tropas chinesas invadiam o Tibete, uma região montanhosa na fronteira sudoeste da China que pouca gente do lado de cá do planeta já ouvira falar. Pudera.

O lugar coberto de neve por todos os lados era medieval. A população vivia sob um regime de servidão feudal, que combinava poderes políticos e religiosos. Não havia estradas, carros e luz elétrica.

A comunicação com o mundo exterior, assim como o desenvolvimento econômico, era quase zero. Atrás da “cortina de ferro” que dividiu o mundo durante a Guerra Fria, a situação do Tibete só voltou a ser notícia em 1989, quando Tenzin Gyatso, o dalai-lama – líder político e espiritual dos tibetanos há 80 anos –, ganhou as páginas dos jornais ao receber o Prêmio Nobel da Paz.

Tenzin Gyatso /Crédito: Wikimedia Commons

 

Trinta e nove anos se passaram e o cenário do Tibete já era outro, agora sim, mais sintonizado com o que acontecia no mundo. Os costumes tribais foram praticamente extintos e milhares de pessoas, inclusive Gyatso, viviam no exílio.

O país passou por um rápido desenvolvimento econômico e por um processo de urbanização no ritmo e nos padrões chineses. Porém não há paz no Tibete. Nem consenso. O fervor religioso dos tibetanos resiste e, com o tempo, a causa pela libertação do Tibete ganhou a simpatia de astros de Hollywood e virou tema obrigatório dos eventos político-festivos dos anos 90 (o que deixou essa discussão mais rasa do que se podia desejar).

Mas a história do Tibete não começou em 1950. Toda civilização que se preze tem uma lenda que explica seu aparecimento, um mito que representa aquilo que acredita definir seu modo de ser, de viver e de se organizar como povo. A lenda fundadora do Tibete diz que a população se originou da união entre um macaco e algo como um demônio em forma de mulher.

A região dos altos platôs que compõem o que viria a ser o Tibete era ocupada por tribos nômades independentes (e às vezes inimigas) que foram pacificadas e unificadas como nação, em 127 a.C., pelo rei Nya-Tri-Tsempo. A população se organizava em clãs e o rei era o líder do maior clã, baseando seu poder nos laços familiares e alianças.

Viviam da criação de animais e do que conseguiam plantar nas difíceis condições impostas pela natureza: poucas áreas férteis e muito frio (a região ficava quase o ano inteiro embaixo de gelo). Eram seminômades, migrando atrás de terra descongelada e acompanhando as rotas migratórias da caça.

Os tibetanos sempre foram um povo impregnado de espiritualidade e religiosidade, e os fiéis de então professavam uma forma de xamanismo conhecido como bön, que cultuava diversos deuses, demônios e espíritos ancestrais. Durante os 27 reinados que se seguiram (ou cerca de 800 anos), assim foi o Tibete.

Ascensão do budismo

O budismo, religião que viria a predominar política e espiritualmente na região, chegou ao Tibete no século 3. Mas foi apenas no reinado de Songtsen Gampo, no século 7, que ele se difundiu. Ainda jovem, Songtsen assumiu a liderança de seu poderoso clã.

Ele era um conquistador e logo subjugou os clãs inimigos e impôs seu controle aos aliados. À frente de um exército de mais de 100 mil homens, Songtsen Gampo estendeu seus domínios pela Ásia Central. Mas ele também foi um diplomata.

Enviou emissário à China e à Índia, com quem manteve um intercâmbio comercial e cultural. Seu ministro na Índia foi quem escreveu o primeiro alfabeto tibetano, sob influência do sânscrito. O budismo, que já era forte entre os vizinhos, passou a ser difundido quase que como a religião oficial.

Casa vermelha tibetana / Crédito: Imagem de xuyu gao por Pixabay

 

Foram construídos diversos templos, entre eles o de Jokhang, até hoje o mais sagrado e importante para os budistas tibetanos. Nessa época também começaram as obras do Palácio de Potala, que mais tarde seria a sede político-religiosa do Tibete.

Como era comum entre os poderosos do mundo antigo, o rei costumava amealhar esposas por onde andava. Além das suas três mulheres tibetanas, Songtsen se casou mais duas vezes: com uma moça chinesa e outra nepalesa. Casar era uma forma de selar alianças e com a China, por exemplo, as relações diplomáticas iam muito bem.

De acordo com o historiador Eduardo Basto de Albuquerque (1942-2009), especialista em religiões populares, “a religião tinha um papel importante para esse entendimento”. Ainda no reinado da dinastia de Songtsen foi assinado um tratado de amizade no ano de 821, esculpido em pedra em frente ao templo Jokhang, em Lhasa, estabelecendo o respeito mútuo e eterno da fronteira Tibete-China.

Segundo Eduardo, esse foi um período em que a economia tibetana se desenvolveu consideravelmente por conta do intercâmbio com Índia, China e Nepal. Com aliados como esses, o poder político do Tibete cresceu e o país expandiu seu controle sobre vários territórios.

A dinastia dos reis religiosos chegou ao fim em 907, quando Lang Dar-Ma – o 41º rei do Tibete – foi assassinado, deixando duas viúvas e dois sucessores. Após sua morte, não houve acordo entre as partes e o país foi dividido entre os dois príncipes. Esse racha levou a outros e, logo, o Tibete voltou a ser uma terra composta por vários reinos pequeninos.

Mas, no período, o budismo se fortaleceu como um dos poucos pontos em comum da identidade desses reinos. Foram erguidas escolas budistas e o sistema monástico se consolidou, bem como o poder dos monges.

A reunificação ocorreu no século 13 e não é difícil entender por que ela aconteceu em torno de um sacerdote, ou lama: Sakya Pandita foi o primeiro sacerdote-rei do país e assumiu o controle total sobre o território tibetano. A religião lhe dava esse poder.

No entanto, havia uma ameaça maior contra a qual o rei não poderia lutar: Gengis Khan, o guerreiro mongol que já havia dominado grande parte da Ásia Central.

E aí Sakya Pandita assinou uma carta que até hoje é guardada na manga pelos chineses. Ele pediu ajuda aos antigos aliados da China. Em troca de proteção, concordou em tornar o Tibete uma região administrativa sob a jurisdição do governo chinês.

Está tudo lá, assinado por Sakya Pandita. É por essas e outras que, para Pequim, o Tibete é parte da China desde o século 13 e não se fala mais nisso.

Sistema feudal

O Tibete (com a mãozinha chinesa) resistiu à fúria mongol. E o sistema de sacerdotes-reis vicejou. O país se transformou numa sociedade feudal de castas que só foi revelada ao mundo após a invasão chinesa em 1950. O sistema legal do Tibete data de 1613 e se resumia às “Treze Leis” e às “Dezesseis Leis”, que juntas regiam a vida dos cidadãos.

Por lei, a sociedade era rigidamente dividida em três camadas e nove classes. Mulheres, vagabundos, mendigos, ferreiros e açougueiros – matar um animal, mesmo que fosse para comer, era crime – pertenciam à camada mais baixa.

Os senhores feudais do Tibete eram sempre os funcionários do governo anterior, os aristocratas, os lamas das mais altas camadas. Eles eram proprietários de todas as terras cultiváveis, dos pastos e da maioria do gado.

Os servos – os nangzan (“alimentados nas casas”, em tibetano) – eram 95% da população e seus proprietários os chamavam de “gado que não pode falar”. Aqueles que se rebelavam – e isso acontecia vez por outra – eram duramente punidos, com olhos e membros amputados em praça pública.

Mas não vale ficar chocado. Os budistas não eram vilões. Quase na mesma época, por exemplo, os cristãos acreditavam que índios não tinham alma e patrocinavam sua extinção em massa na América Central. Porém, os budistas tibetanos atuais, como o próprio líder Tenzin Gyatso, admitem que alguns aspectos da religião (a crença no renascimento, no “carma”) faziam com que as pessoas aceitassem com algum conformismo a miséria que o destino impunha.

“Um pobre camponês tibetano era menos inclinado a sentir inveja ou a sentir-se oprimido por seu rico senhor por saber que ambos estavam colhendo a semente que haviam plantado em suas vidas anteriores”, ele escreveu em sua autobiografia Minha Terra e Meu Povo.

Esses anos – que duraram até o século 20 – foram também um período de isolamento absoluto, tanto cultural quanto econômico. Além da sua geografia, que sempre dificultou as relações exteriores – até pouco tempo atrás uma viagem das fronteiras da Índia ou do Nepal até Lhasa levava dois meses, num caminho que atravessava perigosos desfiladeiros do Himalaia –, restringindo a entrada de estrangeiros, os tibetanos achavam que se protegiam de invasões.

A partir de 1642, a figura do dalai-lama, até então apenas o líder espiritual dos tibetanos,
recebeu o poder político sobre a totalidade do país. Nessa época, China e Tibete conviveram, digamos, respeitosamente, cada um do seu lado da fronteira, sem maiores conflitos.

Presença britânica

O clima azedou na região quando a hegemonia da China foi colocada em xeque pela presença dos britânicos, que se aboletaram na região em meados do século 19. Envolvidos em diversos interesses, ingleses e chineses foram à guerra em 1840.

Derrotada, a China foi forçada a abrir cinco portos para o comércio britânico e a ceder Hong Kong (a região colonizada no sudeste do país só foi devolvida à administração chinesa em 1997). Nessa briga toda o Tibete permaneceu neutro.

Os ingleses desprezavam qualquer direito chinês na região e passaram a comercializar
por ali livremente, instalaram bases militares e, por fim, tomaram Lhasa, em 1907. Essa invasão acabou fazendo com que o dalai-lama fugisse, veja que ironia, para a China.

Para que ele retornasse a Lhasa, os ingleses impuseram alguns tratados comerciais que os beneficiavam em detrimento dos interesses chineses. Os ingleses montaram, armaram e treinaram o exército tibetano que, em 1911, expulsou os chineses da região e declarou independência.

Invasão chinesa

O mundo mudou: os britânicos mudaram (deixaram de ser um império), a China mudou (virou comunista, sob o comando de Mao Tsétung). Só não mudou o Tibete. Com a retirada dos britânicos, o país não tinha como resistir aos poderosos vizinhos – que estavam de olho nos recursos minerais e na posição geográfica estratégica, mas, principalmente, com o orgulho ferido.

Com isso, o Exército chinês invadiu o Tibete em outubro de 1950. A princípio, os tibetanos resistiram, mas o país dispunha de uma força de 6 mil homens e os soldados chineses eram 400 mil. Segundo Eduardo, “existiam guerreiros tibetanos, mas nem armas de fogo eles possuíam. Foi um massacre”.

Tenzin Gyatso tinha 15 anos e foi forçado a assinar, em 1951, o “Acordo de 17 Pontos”, em que abriu mão da soberania do país desde que a China respeitasse os direitos e a liberdade de culto no Tibete. Isso não aconteceu e os tibetanos se rebelaram em março de 1959. Lhasa, a sede da revolta, foi rapidamente arrasada, e o dalai-lama novamente teve de fugir.

Dessa vez para Dharamsala, na Índia, onde ele e seus apoiadores fundaram o governo tibetano no exílio. As estimativas do grupo de Dharamsala é que, atualmente, existam mais de 130 mil tibetanos exilados e que pelo menos 1 milhão tenham sido mortos pelos chineses. “A devastação cultural também não foi pequena: após 1959, cerca de 6 400 mosteiros foram destruídos no país”, estimou o historiador.

E depois?

Os chineses não pretendem devolver o Tibete aos tibetanos e, muito menos, ao dalai-lama. Depois de constantes ataques, a região passou a abrigar mais chineses do que nativos, a língua oficial é o chinês e a liberdade de culto é rigidamente controlada.

Sem contar os bilhões de iuans que a economia local atualmente movimenta para os cofres chineses, sejam em minérios, sejam em turismo. Com o status de “Região Autônoma Tibetana”, o país possui estradas asfaltadas e voos diários entre as capitais Lhasa e Pequim.

Construíram-se pontes, escolas e hospitais modernos. Nas últimas décadas, dois terços das construções tradicionais foram postos abaixo para dar lugar aos novos edifícios. A maior parte dos tibetanos que sobraram ainda resiste à integração forçada e vive da agricultura e do pastoreio.

Alguns hábitos, como os alimentares, continuam fiéis aos tempos de independência: a dieta ainda é baseada em cevada, que é consumida todos os dias, carne e manteiga de iaque, um herbívoro de pelagem longa encontrado na região (os tibetanos não são vegetarianos. O que não se deve, de acordo com o budismo, é matar um animal, mas comer o bicho depois de morto, tudo bem), carne de carneiro e farinha de trigo.

Quanto às bebidas, a cerveja de cevada – a chang – e o chá têm espaço garantido. “O problema hoje já não é tanto a ocupação do território, e sim a imposição da cultura chinesa em detrimento da outra. Uma coisa não justifica a outra e nisso os tibetanos têm razão”, disse Mario Bruno Sproviero, professor. Especializado em cultura chinesa, ele acredita que seja por essas e outras que, apesar das críticas, há muito tempo, o próprio dalai-lama já desistiu de reivindicar a independência.

Agora ele pede apenas a autonomia de fato, que incluiria a liberdade de culto e a restauração da língua tibetana. “Mesmo que seja sob o domínio chinês, os tibetanos lutam para que sua civilização não desapareça”.