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Covardia, ameaças e depressão: a vida infernal de Bruce Ismay, o dono do Titanic, após o naufrágio

Por seu ato covarde, ele recebeu a alcunha de “o homem mais criticado do mundo", que o acompanhou até sua trágica e comovente morte

Fabio Previdelli Publicado em 14/04/2020, às 11h00

Foto de Joseph Bruce Ismay, presidente da White Star Line
Foto de Joseph Bruce Ismay, presidente da White Star Line - Wikimedia Commons

No dia 10 de abril de 1912, o RMS Titanic partia de Southampton, na Inglaterra, com destino a Nova York, no Estados Unidos. A bordo estavam cerca de 1.500 pessoas, dentre elas, se destaca Joseph Bruce Ismay, presidente e diretor executivo da White Star Line — companhia britânica de transporte marítimo que operou a famosa embarcação.

Ismay chegou à presidência da corporação após a morte de seu pai, em 23 de novembro de 1899. Três anos depois a White Star Line foi vendida para a JP Morgan & Co., que organizava a formação da International Mercantile Marine Company — a IMM era uma holding que controlava empresas operacionais subsidiárias. Em fevereiro de 1904, Ismay torna-se presidente da IMM com o apoio de JP Morgan.

Na segunda metade da década, ele se encontrou com Lord Pirrie, do estaleiro Harland & Wolff, para discutirem a resposta da empresa ao RMS Lusitânia e ao RMS Mauritânia, as maravilhas recentemente reveladas de seu principal concorrente: a Cunard Line.

Logo da White Star Line / Crédito: Wikimedia Commons

 

Ficou decidido que os novos modelos da empresa não seriam tão rápidos quanto de seus concorrentes, mas em compensação, eles seriam demasiadamente luxuosos, algo jamais visto na história dos navios a vapor oceânicos. Assim, foram projetados, em ordem: o RMS Olympic, o RMS Titanic e o RMS Britannic.

Em uma ação altamente controversa, durante a construção dos dois primeiros navios da classe, Ismay autorizou que o número projetado de botes salva-vidas fosse reduzido de 48 para 16, o que foi permitido pela Junta Comercial.

Como era de praxe, Joseph acompanhava seus navios em suas viagens iniciais, e o com o RMS Titanic a história não foi diferente. Apesar de todo orgulho pelo esplendor de sua embarcação, a qual muitos consideravam-no inafundável, Ismay encarou de perto todos seus erros ao se deparar com o problema da limitação do número de botes salva-vidas.

Quando ficou claro que a embarcação afundaria, após o choque contra o iceberg no dia 14 de abril — muito antes que qualquer navio de resgate chegasse à área —, Joseph subiu a bordo do bote salva-vidas desmontável C, que foi lançado ao mar menos de 20 minutos antes do navio afundar.

Mais tarde, com o navio estava em seus momentos finais, ele se recusou a testemunhar o fracasso e se virou de costas para não ver sua criação ser acolhida pelas águas do Atlântico Norte.

Representação do naufrágio do RMS Titanic / Crédito: Getty Images

 

Mas toda sua frustação não ficou limitada a esse fúnebre evento. Bruce passou a ter uma vida atormentada após seu ato de covardia. Segundo a biografia intitulada How To Survive the Titanic: The Sinking of J.Bruce Ismay, escrita por Frances Wilson, Ismay foi duramente criticado pela imprensa da época, que lhe atribuiu as alcunhas de covarde e egoísta.

Na época, de acordo com a autora, o Daily Mirror o tratou como “o homem mais criticado do mundo”. Já um periódico americano o classificou como “alguém só preocupado com ele mesmo”.

Frances explica que Joseph passou a receber diversas mensagens ameaçadoras após o desastre e que, inclusive, muitos de seus amigos o abandonaram. Até então, não se sabia que a decisão de diminuir o número de botes era dele. Quando isso caiu no conhecimento público, a população ficou ainda mais enfurecida.

Frances teve acesso a uma carta em que Ismay reconhece que a tragédia arruinou sua vida e, por isso, afirmou que jamais voltaria a ver um navio. "Talvez estivesse muito orgulhoso das minhas embarcações e este foi meu castigo". De acordo com relatos da época, toda essa catástrofe levou Ismay a desenvolver um quadro de profunda depressão, do qual jamais superou verdadeiramente.

Capa do livro How To Survive the Titanic: The Sinking of J.Bruce Ismay / Crédito: Divulgação

 

Apesar de abalado, ele ainda manteve um interesse em assuntos marítimos, sendo o responsável por inaugurar um navio cadete usado para treinar oficiais da Marinha Mercante da Grã-Bretanha. Em 1919, doou 25 mil libras (algo em torno dos 7 milhões de reais em valores atuais), para estabelecer um fundo para reconhecer a contribuição dos marinheiros mercantes na Primeira Guerra.

Em 1930, seu estado de saúde declinou após ser diagnosticado com diabetes. Seis anos depois a enfermidade piorou e Bruce teve que amputar parte da perna direita. Na manhã de de 14 de outubro de 1937, desabou em sua residência, em Londres, após sofrer um derrame, que o deixou inconsciente, cego e mudo. Três dias depois, Joseph Bruce Ismay falecia, aos 74 anos.


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