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Crime e Mistério, da Netflix: Como as imagens de Elisa Lam num elevador criaram um frenesi

Quando a polícia pediu a ajuda do público para encontrar a jovem, liberando seu famoso vídeo no elevador, não esperava a comoção que geraria na internet

Ingredi Brunato, sob supervisão de Thiago Lincolins Publicado em 13/02/2021, às 11h00

Imagem de divulgação da série documental "Crime e Mistério - Mistério e Morte no Hotel Cecil"
Imagem de divulgação da série documental "Crime e Mistério - Mistério e Morte no Hotel Cecil" - Divulgação/ Netflix

Quando se fala do desaparecimento e morte da estudante canadense Elisa Lam, cujo corpo foi encontrado na caixa d’água do Hotel Cecil, um lugar que já esteve envolvido com diversos acontecimentos perturbadores no passado, uma das palavras que mais aparecem é 'mistério'. 

O caso da jovem de 21 anos é apresentado, frequentemente, como um enigma até hoje em aberto. Como consequência, muitas teorias conspiratórias ganharam vida ao tentar explicar o que, de fato, aconteceu com a jovem.

A internet criou suas próprias versões da história, que seguiam direções diferentes, colocando a culpa do ocorrido em personagens variados. 

A nova série documental da Netflix chamada “Cena do Crime - Mistério e Morte no Hotel Cecil”, veio com a proposta de amarrar todos os pontos deixados na memória do público, explorando as diferentes versões, e elucidando a triste saga de Elisa, uma jovem que - e nesse ponto todos concordam - foi apenas uma vítima das circunstâncias, tendo seu futuro subitamente surrupiado de si. 

Fotografias de Elisa Lam / Crédito: Divulgação 

 

Atenção: para quem não assistiu ainda a produção da plataforma e quer manter o elemento de suspense, pode ser melhor voltar para essa matéria mais tarde, pois existem spoilersà frente! 

Aparências enganosas 

Quando os investigadores, procurando por Elisa Lam, fizeram uma busca no Hotel Cecil inteiro (considerando que esse era um estabelecimento imenso, com centenas de quartos) com a ajuda de cães farejadores e não encontraram a garota, se sentiram de volta à estaca zero. 

Isso porque a esse ponto já sabiam, por conta das gravações das câmeras de segurança do local, que a estudante nunca havia saído dali. Porém, quando não descobriram nenhum vestígio que pudessem seguir e se viram correndo contra o tempo, a conclusão evidente era que se fazia necessário pedir ajuda do público. 

Foi com isso em mente que eles divulgaram o último vídeo existente da jovem, que a mostrava no elevador do hotel, apresentando um comportamento errático e assustador, enquanto parecia incapaz de deixar o andar, a despeito de clicar em diversos botões: as portas de metal simplesmente recusavam-se a fechar. 

A gravação imediatamente chamou atenção tanto da imprensa quanto da internet. Sua estranheza, sua atmosfera de perigo e vários outros aspectos ali gritavam por explicações, e logo muitos começaram a procurar por elas. 

O fato de Elisa possuir um Tumblr usado como espécie de diário apenas contribuiu para esse movimento, uma vez que suas postagens trazendo pensamentos íntimos logo fizeram internautas simpatizarem e identificarem-se com a canadense, dando um caráter pessoal à questão. Ela precisava ser achada. E para isso, valia tudo. 

Questionamentos 

Muitas perguntas surgiram: o elevador não saía do lugar por que alguém fora do campo de visão da câmera estava clicando no botão e mantendo-o no andar? É por isso que Elisa parecia esconder-se? 

E por que a filmagem havia sido alterada, desacelerando em certos pontos e com pedaços faltando? Para muitos, essa era uma evidência sólida de que alguém em posição de autoridade estava tentando esconder algo do público. A suspeita recaiu sobre a gerente do hotel, depois sobre a polícia, e alguns até pensavam que se tratava de uma parceria. 

Outras ‘evidências’ continuaram a ser reunidas pela comunidade obstinada que havia se formado em volta do caso, até que o contato com a realidade começou a ser perdido.

O fato do teste para diagnóstico de tuberculose se chamar “Lam Elisa”, por exemplo, reunido ao fato de ter havido um surto recente na região próxima ao hotel tornou-se prova de que a estudante era uma agente de algum governo em uma operação para infectar moradores de rua com tuberculose. O motivo de sua morte, nessa visão, seria porque ela “sabia demais”. 

Um cantor mexicano com o apelido artístico de "Morbid" - que gostava de death metal - e, um ano antes, havia postado um vídeo no Hotel Cecil, tornou-se o principal suspeito de assassinar a canadense aos olhos da internet. Isso acabou gerando diversas ameaças de morte direcionadas a ele, além da suspensão de suas redes sociais.

Em entrevista à série documental, inclusive, ele contou sobre os sérios impactos que o período teve em sua saúde mental e seu amor pela música. 

Fotografia de Paulo Vegara, cantor mexicano, vestido como seu alter ego artístico, Morbid / Crédito: Divulgação/ Youtube 

 

Assim, quando o resultado da autópsia da jovem veio, a simples conclusão de “morte acidental” não foi o suficiente para as narrativas grandiosas que cercavam o caso. Era simples demais, mundano demais. 

“Tem tantos paralelos bizarros, não dá para só ignorar isso!” e “Como tudo pode ser só coincidência? Não é possível”, se tornaram falas comuns entre os muitos youtubers cobrindo o mistério de Lam na comunidade virtual. 

Mas era sim possível, e, anos depois, alguns dos criadores de conteúdo da época revelaram em entrevista à Netflix como se deixaram levar pelo momento, e os muitos paralelos que haviam reunido eram mesmo apenas coincidências infelizes, ou então elementos que nem sequer estavam relacionados com a história. 

“Realmente existiam coincidências extremas, e foi isso que alimentou as teorias. Mas quando você vai muito fundo em qualquer coisa, você perde sua perspectiva”, resumiu a youtuber Stephanie Harlowe no documentário. 

No fim, a situação toda foi mesmo muito confusa, como o próprio investigador encarregado do caso de Elisa Lam, Tim Marcia, também contou à produção da série: “Olhando retrospectivamente, após 34 anos de carreira, esse foi um caso extremamente inusual, e por isso ele levantou todo o tipo de questões”.

“Eu acredito que as pessoas queriam que suas teorias conspiratórias fossem verdade porque a realidade era muito mais triste”, concluiu ainda o historiador Dr. Doug Mungin.


Caso você tenha chegado até aqui e não esteja ainda convencido sobre se deve ou não assistir essa nova produção da Netflix, confira também "Mistérios do Hotel Cecil: 5 motivos para ver Cena do Crime, na Netflix".


Veja o trailer de Crime e Mistério abaixo.