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Crises e catástrofes: 536, o ano que trouxe os piores 12 meses para a humanidade

Uma série de crises pela Europa, Oriente Médio, Ásia e Américas deu origem ao período histórico mais difícil para se viver

Carlos Luti Publicado em 04/10/2020, às 10h00

Um vulcão em erupção
Um vulcão em erupção - Wikimedia Commons

A pior pandemia dos últimos tempos, uma crise econômica devastadora, revoltas e manifestações em diversos países, com risco de guerras do Mediterrâneo até o Extremo Oriente, passando pelo Golfo Pérsico. Golpes de Estado e instabilidade política, migrações forçadas e crise climática, com secas severas generalizadas alternadas por inundações intermitentes.

Essa descrição poderia ser perfeita para 2020 – que ainda não terminou e já é tachado por alguns de nós como o “pior ano da História”. Um título, aliás, que compete com muitos outros annus horribilis, como diziam os antigos romanos.

Entre eles, 1349, quando a Peste Negra varreu metade da população da Europa, 1918, quando a Gripe Espanhola matou de 50 a 100 milhões de pessoas, e de 1939 a 1945, quando a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto exterminaram mais de 60 milhões de seres humanos.

No entanto, a descrição que abre esta reportagem se refere especialmente a 536 d.C. Segundo pesquisas recentes, este, sim, teria sido o pior ano da História. Para Michael McCormick, arqueólogo especialista em História Medieval e professor da Universidade de Harvard, 536 não foi somente os piores 12 meses para a humanidade, mas “o início de um dos piores períodos para estar vivo”.

Nevóa misteriosa 

Naquele ano, uma névoa misteriosa escureceu o céu da Europa, do Oriente Médio e partes da Ásia, tornando impossível distinguir o dia da noite por 18 longos meses. “O Sol emitia sua luz sem brilho, como a Lua durante todo o ano”, escreveu o historiador bizantino Procópio de Cesareia, testemunha ocular daquele momento turbulento.

Procópio também deixou documentado como o Sol parecia estar constantemente em eclipse e que durante esse tempo “os homens não estavam livres da guerra, nem da peste, nem de qualquer outra coisa que levasse à morte”, referindo-se à extensa e dramática Guerra Gótica, um conflito entre o Império Romano do Oriente e o Reino Ostrogótico que devastou a Península Itálica, Dalmá cia, Sicília e Sardenha.

Com início em 535, a guerra só terminou em 553, aniquilando as regiões entre as mais férteis, povoadas e civilizadas do mundo antigo.  E Procópio, que estava junto às tropas romanas como secretário do comandante Flávio Belisário, descreveu os horrores que as populações sofreram e as devastações, como a destruição de Florença e Roma.

A misteriosa névoa do relato também foi documentada pelo senador romano Flávio Magno Aurélio Cassiodoro, que, além de descrever um Sol azul e sem sombras, afirmou que as estações do ano pararam de existir, dando a impressão de que era o fim do mundo.

“Ficamos maravilhados por não ver nenhuma sombra de nossos corpos ao meio-dia”, registrou o político romano na época. Outras fontes do Mediterrâneo também mencionam uma nuvem ou véu de poeira que escureceu a Terra por volta de 536. Entre elas, estão os contos de Miguel, o Sírio, um escriba bizantino.

Naquele ano, mesmo no verão, a temperatura caiu drasticamente (entre 1 e 2 graus Celsius), iniciando a década mais fria dos últimos milênios. Não à toa, muitos historiadores chamam essa época de “Pequena Idade do Gelo Antiga”.

Com isso, as colheitas da estação quente foram perdidas e uma gigantesca carestia se iniciou, matando inúmeras pessoas de fome – e servindo de inspiração para os Anais de Ulster, crônicas irlandesas medievais, que afirmam a “falta de pão entre os anos 536-539”.

Estudos sobre os anéis de árvores ultracentenárias, realizados a partir de 1990, mostram como esses verões foram excepcionalmente frios, limitando o crescimento das plantas, da vegetação e, consequentemente, da comida.

Por isso, muitos povos começaram a migrar – num tempo em que as migrações significavam o deslocamento de uma nação inteira, de um lugar para outro. Quando o destino já tinha um povo estabelecido, a guerra era inevitável. Foi o que ocorreu, por
exemplo, com os ávaros, uma população que fugiu da seca iniciada em 536 nas regiões da Mongólia e chegou à Europa Oriental, conquistando a enorme Panónia – território que hoje corresponde à Hungria, Sérvia e Romênia.

Os povos locais, no caso, foram massacrados ou forçados a ir embora, como os longobardos, que invadiram a Itália e ocuparam a península após ganhar sangrentos confrontos com os bizantinos, enfraquecidos pela carestia e pela epidemia.

Segundo uma teoria do historiador e arqueólogo David Keys, publicada no livro Catastrophe: An Investigation Into the Origins of the Modern World (Catástrofe: Uma Investigação nas Origens do Mundo Moderno, sem tradução para o português), a ascensão do Islã e a expansão das tribos turcas na atual Anatólia também tiveram como
ponto de partida a devastação de 536.


++Esse texto foi extraído da matéria de capa da edição 208 da Aventuras na História. Para ler a matéria completa e conhecer História do jeito mais apaixonante, adquira o seu exemplar clicando aqui.